Caxias do Sul 31/01/2026

Triângulos amorosos entre a poesia, a filosofia e a psicanálise

À beira-mar, musa de poetas e filósofos proporciona mergulho reflexivo sobre a liberdade
Produzido por Marilia Frosi Galvão, 31/01/2026 às 10:28:53
Triângulos amorosos entre a poesia, a filosofia e a psicanálise
Romancista, ensaísta e psicanalista nawsceu na Rússia e chacoalhou o cenário cultural europeu
Foto: Divulgação

POR MARILIA FROSI GALVÃO

Numa quente manhã deste verão 2026, estávamos à beira-mar, Fabi-filha, Marcos-genrinho e eu. Entre um gole e outro de uma cervejinha super, lancei uma pergunta: assim, do nada – o que é Liberdade? Dei um tempo – para pensarem.

Flerto. Há tempos. Com os enigmas que as leituras propõem. Com espíritos livres, amizades filosóficas, infidelidades e inconstâncias, o caminho das criações, da construção de um saber ainda não explorado, o fogo das paixões... elementos presentes nas vidas de personas do passado. Sim, olho para trás. Me fascina o período da segunda metade do século XIX e o início do século XX.

E, por causa dessas impressões, o flerte passou a ser ação. Li a biografia, pesquisei sobre seus textos e estudos e refleti sobre Ela, maiúscula, em seu legado para o mundo. Fatalmente, Ela me capturou. Ela e aqueles que circulavam como moscas em sua órbita. Como resistir a alguém que não somente diz, mas vive a vida conforme as suas convicções??

“Ouse, ouse, ouse tudo!

Não tenha necessidade de nada!

Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.

Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la!

Ouse, ouse tudo!

Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!”

??Irresistível. Fascinante. Louca e adorável ... Bela, dona de uma inteligência rara. Quem??

Lou Andreas-Salomé , ou Liolia von Salomé!

Nascida na Rússia, em 1861, falecida na Alemanha, em 1937. Romancista, ensaísta e psicanalista ao longo da vida. Aos vinte anos conheceu Nietzche – com quem manteve uma amizade filosófica e ele literalmente enlouqueceu por ela. Aos trinta anos, tornou-se a companheira e a musa mentora e inspiradora do poeta Rilke e, aos quarenta anos, foi acolhida como aluna por Freud – considerada por ele a mais brilhante – a poeta da psicanálise.

Lou Andreas-Salomé!!!

O escritor, biógrafo, crítico, tradutor, dramaturgo Dorian Astor é o autor da biografia desta mulher incrível em qualquer tempo, e o comprova pelos fatos apresentados: Lou Andreas-Salomé – “mulher entre homens, ela sonha com um “mundo de irmãos”, de casamento sem sexualidade, de maternidade sem procriação, de inconsciente sem instintos destrutivos. Filosofia, poesia e psicanálise são os instrumentos da única afirmação que interessa a essa provocante mulher: o laço indissolúvel do indivíduo com a vida como um todo”.

enlightened

Oi, Lou. Querida Lou. Amiga que o universo literário me deu. Vem. Senta aqui comigo. Preciso saber de algumas coisas que não estão reveladas nas publicações de tuas obras. Deixa esse vento leve despentear os teus cabelos. Te favorece esse coque frouxo, com as mechas caídas. Acho bacana. Odeio aqueles penteados rígidos, sem um fio fora do lugar. E, sejamos francas e recíprocas, uma vez que, em números etários, nos igualamos. Com experiências diversas. Mundos e épocas outros. Todavia, cá entre nós, mulheres, há uma certa cumplicidade... E tantas coisas ainda permanecem... Olha, fiz uma “caipirinha” de vodka para brindar nosso encontro. Sei. Lá de onde vens – bebe-se vodka de um outro jeito. Espero que tu gostes. Prova. Hummmm. Ah, eu sabia que irias gostar. E, esta flor é para ti. Chamamos de Mimo de Vênus. Em profusão por aqui, em nossas praias. A caipirinha e a flor são um gesto de carinho e admiração por ti.

Há tanto a dizer, a perguntar... é difícil por onde começar. Fostes uma mulher à frente do teu tempo, e, hoje, sem mudar nada em tuas falas abertas sobre sexo e erotismo, tuas crenças, e coragem para abordar assuntos polêmicos, em especial em relação às mulheres... tu acreditas que, ainda hoje, quase cem anos depois, ainda estás à frente desse tempo de agora? Isso te espanta. Sim, em pleno século XXI – nós, mulheres, ainda lutamos pelo nosso espaço na sociedade. Como psicanalista, por certo entendes o que desejo expressar. Embora, devo ressaltar que, ao compararmos, a mulher de hoje obteve inúmeras vitórias em muitos aspectos. Na realidade, ela quer tão somente: igualdade de direitos e respeito, liberdade e independência. Contudo, certos assuntos ainda são tabus – como liberdade sexual, orgasmo feminino, homossexualidade, erotismo, a “alma da mulher.

Porém, te confesso que pouquíssimas mulheres foram tão corajosas quanto tu. Ter a audácia de rebelar-se para obter a liberdade de frequentar a única Universidade da Europa que aceitava mulheres – em Zurique. No século retrasado!! Eras tão jovem, após os estudos filosóficos acadêmicos, viajastes pela Europa. Em todos os lugares mais revolucionários, lá estavas, hein? Berlim, Munique, Paris, Viena.

Mas me conta, o primeiro “avanço” foi em Roma, não é mesmo? Fiquei pensando no impacto que causa em nossas vidas certos encontros, imprevistos e imprevisíveis. Pois, a amiga Malwida te apresentou dois amigos filósofos: Paul Rée e Friedrich Nietzche. Por Deus. Lou, que Lou-cura, mulher. Com 22 anos de idade !!

Ah, minha querida. Te fiz sorrir. Então é verdade mesmo? Eu soube que vocês formaram um trio – é – uma Trindade, ou a “Santa Trindade”, a fim de compartilharem casa, vida pessoal, e estudos. Ah, mas é óbvio que essa relação complexa e profunda com os dois “rapazes” não poderia durar muito. E os efeitos que isso causou. Neles, é claro. Esses impactaram na vida e na obra de ambos. Tu sabes como são os homens – querem sexo. Também. Sempre e sempre. Desculpa dizer, eheh, esse negócio de conviver em triângulo – como irmãos, os dois apaixonados por ti, querendo casar contigo, e tu fugindo desse compromisso, que confusão!!!

Uma curiosidade boba: hummm... o beijo do Nietzche, com aquele bigodão? Que tal? Ah, não me diz que não aconteceu, porque eu sei que ele era muito inflamado, muito louco e intenso demais. Um louco adorável! E vais gostar de saber que, nos dias de hoje, ele é cultuado pela obra. Incompreendido em vida.

Concordo contigo quanto ao Paul Rée – tão inteligente, tão estudioso, mas... tão morno. Também não gosto de pessoas mornas... um certo fogo é fundamental. Um quê de entusiasmo, de foco, de objetivos.

Interessante que tinhas por princípio aversão ao casamento. Pregavas que a renúncia à satisfação física liberta as forças espirituais criadoras. Na prática, sempre recusou os pedidos de casamento e, no entanto, casou com Friedrich Carl Andreas. Foi um casamento platônico, por interesse dos dois. Ah, mas formando, em concomitância, outros triângulos amorosos, (havia o marido – onipresente) e, como ninguém é de ferro – hehe -, tivestes um grande amor, que eu sei, e o mundo todo também: Rainer Maria Rilke. Admite, vai. O teu primeiro homem. Pelo menos o que tu mais gostastes. Também eu me apaixonaria por ele. Vi seu retrato. Mais jovem que nós uns quinze anos. Uma alma atormentada de poeta. Uns olhos azuis enormes. Um olhar doce, carente – permitia que aflorasse o seu lado feminino. Nós, mulheres, também apreciamos tanta sensibilidade aliada a uma alta testosterona. Uma dualidade tão presente por parte dele em tua vida. Foi uma troca linda entre vocês: René não teria se tornado Rainer – Rainer Maria Rilke -, um dos maiores poetas do mundo, se não fosse pela tua paciência com as crises de angústia e sofrimento e da tua influência positiva. A musa. Ele próprio disse: “a única mulher que me amou”.

Lou! Que Lou-cura!

E terias ainda muito a aprender. Porque nunca fostes “morna”. Tua procura pelo conhecimento e participação em congressos – te levaram a conhecer Freud. Conquistastes uma vida livre, mesmo sendo casada. Os grandes pensadores – Nietzche, Rilke e Freud – te influenciaram, mas também os influenciastes.

Pensadora encantou Freud, Rilke e Nietzche

(Foto: Marilia Frosi Galvão)

Assim, por todo esse flertar com tua história e com os que te orbitaram... preciso te dizer...

...Lou... sabes, tenho ido diariamente à beira-mar. Tenho me permitido a plena escuta do som das ondas do mar, nesses dias fabulosos aqui na praia Paraíso. Se isso é meditar – acalmar a mente –, deixar os pensamentos livres..., consegui meditar. Meditação foi algo sempre muito vago para mim. Deixar a mente livre – o que representa ser livre. Existe uma liberdade plena? Ela, a tal liberdade, é subjetiva? O que é para mim pode não ser para outrem. Pensei também, influenciada por ti, na ideia de rebelião. Precisamos de alguma rebeldia para conquistarmos alguma liberdade. Rebelião. Revolução. A paz advém da guerra?

Assim, questionei meus filhos sobre a liberdade, numa quente manhã deste verão de 2026. Surgiram várias ponderações. Nada definitivo. Ficastes curiosa? Ah, a liberdade total não existe. Ah, o dinheiro te dá liberdade – podes viajar... A liberdade tem limites. Fulano ou fulana me tiram a liberdade. Liberdade é viver de acordo com as crenças. É, também, poder fazer escolhas. É ter sonhos, e conquistá-los. Ser livre é viver a vida de modo intenso – incluindo o sofrimento. A liberdade é subjetiva. A imaginação é livre. Os pensamentos ainda são livres. Até quando? Tanto que... qual o pior castigo imposto a um ser? É tirar-lhe a liberdade – mantê-lo preso. Sem liberdade não há dignidade.

E, em tuas palavras:

“Se existem pela frente outros objetivos que nos obrigam a renunciar ao que há de mais magnífico e de mais difícil de se obter na face da Terra, ou seja, a LIBERDADE, então quero permanecer sempre em transição, pois não a sacrificarei.”

Marilia Frosi Galvão é professora, escritora e cronista. Tem dois livros publicados:

"Fagulhas" e "Tudo é Momento".

(Foto: Severino Schiavo)