Por FABIANA ZANELLA FACHINELLI
Em um mundo dominado por vídeos curtos, séries de streaming e assuntos que viralizam no TikTok e Instagram, por que ainda ler um romance publicado em 1847?
Trago para a pauta uma obra que continua atual: O Morro dos Ventos Uivantes, único romance escrito por Emily Brontë e que tem um título praticamente intraduzível, como dito por ela mesma: um tumulto atmosférico.
A obra possui múltiplas camadas e permanece até hoje como objeto de estudo, releituras e adaptações. Seu impacto atravessa gerações.
Clássicos são difíceis, ou somos nós
que desaprendemos a ler?
Nos últimos anos, as redes sociais vêm transformando a obra de Emily Brontë em combustível para debates que ela mesma já havia iniciado no século XIX, sem internet ou algoritmos, apenas com literatura.
Heathcliff e Catherine formam um dos pares mais complexos da ficção. Antes mesmo de existirem debates sobre relacionamento tóxico, Emily Brontë já havia escrito um dos romances mais intensos e mais destrutivos da história.
A permanência da obra talvez esteja justamente naquilo que mais discutimos hoje. O Morro dos Ventos Uivantes não é apenas uma narrativa ambientada em uma paisagem sombria da Inglaterra; é um estudo brutal sobre obsessão, trauma, orgulho e destruição emocional.

Único romance de Emily Brontë tem muito a dizer aos dias atuais
Amor intenso ou amor tóxico?
A pergunta que não quer calar: é amor ou dependência emocional?
Hoje falamos abertamente sobre relacionamentos abusivos, manipulação afetiva, narcisismo, vínculos traumáticos. Emily Brontë explorou tudo isso antes mesmo de falarmos amplamente essas palavras.
O romance mostra um vínculo que ultrapassa a paixão e se transforma em obsessão. Catherine ama Heathcliff, mas escolhe casar-se com outro homem por status social. Heathcliff responde com ressentimento e vingança. O que poderia ser uma história romântica torna-se um ciclo de ódio e dor que atravessa gerações. Se a obra fosse lançada hoje, talvez viralizasse como um “romance dark”. Mas Brontë não romantiza o caos: ela expõe suas consequências.
As adaptações e as polêmicas
A nova adaptação cinematográfica lançada em fevereiro de 2026 reacendeu debates nas redes sociais. Assim como outras versões anteriores, desde a clássica de 1939, a escolha de elenco e as alterações narrativas geraram discussões sobre fidelidade à obra original. Essa adaptação, como outras, optou por cortar a segunda geração da história, simplificando uma estrutura que, no romance, é essencial para compreender o ciclo de repetição e possível redenção do ódio e da vingança.
O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) teve uma adaptação britânica do cinema mudo em 1920, hoje considerada perdida (lost film).
Poucos romances atravessam mais de um século sendo continuamente revisitados pelo cinema e constantemente reinterpretados à luz de seu próprio tempo.
As camadas sociais e psicológicas
A obra também é profundamente social. Heathcliff é um outsider. Sofre humilhação, rejeição e exclusão.
Ainda há a dimensão psicológica. A obra dialoga com saúde mental, traumas de infância e ressentimento acumulado. O personagem parece um estudo psicológico avant la lettre: Heathcliff não nasce vilão, ele se constrói a partir do ódio e da dor.
Então por que ler clássicos?
Talvez o problema não seja que os clássicos sejam difíceis. Talvez seja que desaprendemos a ler com profundidade. Clássicos exigem atenção, silêncio e tempo, três elementos raros na era digital. Mas os clássicos oferecem algo que poucos conteúdos rápidos conseguem entregar: complexidade humana. Eles não simplificam sentimentos. Não organizam emoções em frases motivacionais. Não entregam finais confortáveis. Eles confrontam.
Ler O Morro dos Ventos Uivantes hoje é perceber que mudaram as roupas, os meios de comunicação, as formas de exposição, mas o orgulho, o desejo, o ressentimento e a paixão continuam. E talvez seja exatamente por isso que ainda precisamos dos clássicos.
Não para admirar o passado.
Mas para compreender melhor o presente.

(Foto Studio Italia/ Divulgação)
Fabiana Zanella Fachinelli é professora e escritora, autora do livro de poesias “Elogio à Mulher”.
Tem participação em antologias de contos, crônicas e poesias, além de publicação de artigos na área da educação digital.
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