Caxias do Sul 19/04/2024

Nobel às mulheres maduras

Leitura de obra da escritora nobelada Annie Ernaux suscita reflexões sobre o passar dos anos sob a ótica feminina
Produzido por Marilia Frosi Galvão, 01/03/2024 às 09:21:45
Nobel às mulheres maduras
Escritora francesa Annie Ernaux ganhou o Nobel de Literatura em 2022
Foto: DIVULGAÇÃO

Por Marilia Frosi Galvão

Ouvi dizer que nós, mulheres maduras, somos um luxo. E que somente os homens evoluídos mentalmente conseguem apreciar. Ora, até concordo, porém, troco uma ideia com meus leitores: por maduras, coloquemos no mesmo plano tanto as “velhas” quanto as novinhas. As que assustam! Essas devem mesmo ser um luxo a ser apreciado não só pelos homens, mas por toda e qualquer pessoa evoluída mentalmente.

Por ventura, em relação a isso, li um livro de parar o coração. Em um suspiro, pois tem 37 páginas: “O Jovem”, de Annie Ernaux – Prêmio Nobel de Literatura 2022. Primeira escritora francesa a receber essa honraria. Nessa obra ela diz muito em poucas palavras – rememora o relacionamento que teve com um jovem quando ela tinha 54 anos de vida – ele com 30 anos a menos.

“Ao lado dele, minha memória parecia infinita. Essa espessura de tempo que nos separava era de uma grande delicadeza e dava mais intensidade ao presente. Não me ocorria o pensamento de que essa minha longa memória do tempo de antes do nascimento dele fosse o par, a imagem inversa, da memória que ele teria depois da minha morte, com eventos e personagens políticos que eu nunca terei conhecido”. (“O Jovem” – pág. 31).

Esse recorte – “espessura de tempo que nos separava” – pelo qual Annie nos revela a diferença de idades entre ela e o amante, fez-me refletir sobre a alternância de tempos de vida. Esse olhar provocou em mim uma espécie de euforia. Pois eu havia pensado em algo similar. Sim. Ninguém é velho. Ninguém é jovem. Ou, somos jovens e velhos não só no devido tempo de vida de cada um. Ou, concomitante. E essa abertura para a diversidade – ou “diversa idade” –, poucos a têm. Exceto os/as mentalmente evoluídos. A maioria dos jovens pensa que nunca irá envelhecer. Ao relatar esse relacionamento-palimpsesto como ela o denominou – a autora não deixa de lembrar dos olhares duros e reprovadores das pessoas no restaurante ou onde estivessem. Não se envergonhava por isso e sentia orgulho – por estar com alguém que poderia ser seu filho. E justifica com razão – se qualquer sujeito cinquentão ou mais pudesse estar com alguém que claramente não seria sua filha não causaria espanto.

Annie Ernaux, nos seus escritos, revela-se – desnuda-se com coragem ao expor sua vida – angústias – posicionamentos políticos – memórias – vergonhas de si e vergonhas da humanidade – os conflitos de um aborto clandestino – amantes – reflexões sobre o desejo feminino – afetos - relacionamentos entre diferentes classes sociais – o papel da mulher na sociedade francesa – e, de forma brilhante, os efeitos da passagem do tempo. Escritos esses com a sensibilidade de dizer muito em poucas palavras - em “Os Anos”, “A Vergonha”, “O Acontecimento”, “O Lugar”, “Uma Mulher”, “Paixão Simples”, apenas alguns dentre uma extensa obra. “Pela coragem e acuidade clínica com que desvenda as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos da memória pessoal”, a Academia Sueca, em Estocolmo, concedeu a Annie Ernaux este prêmio - o Nobel de Literatura.

E quanto a nós, simples mulheres, que - ainda - não realizamos grandes ações em benefício da humanidade? É lícito que a cronista utilize o sobrenome do Alfred Bernhard Nobel, que deixou em testamento sua fortuna para essas premiações? A resposta é sim, se entendermos a palavra nobel (agora minúscula) como um sinônimo de prêmio.

Nobel a nós, então, mulheres maduras. Temos memórias de tempos passados. Nossas biografias são tão empolgantes e singulares!! Como Annie, podemos escrevê-las, mesmo décadas depois. Ou não, mas podemos revisitá-las e dar-lhes o significado que queremos e recuperarmos aspectos que estão dentro e fora de nós.

Nobel às mulheres maduras!! A elas!! A nós!!

Livros da autora trazem reflexão sobre o feminino

(Foto: Marilia Frosi Galvão)

A Ela... que construiu uma carreira profissional, com desafios constantes. A... Ela, que experimentou as emoções de ser mãe-esposa-irmã-tia-prima-neta-afilhada-sobrinha-amiga em uma constelação familiar complexa. A Ela... que fez por merecer sua independência financeira. A... Ela, que necessita estar apaixonada constantemente por pessoas, por ideias. A... Ela, que é uma sobrevivente, pois conheceu o fundo do poço e descobriu uma portinha lá no fundo, com uma escadinha, para ainda além. Cuidado com ela. Ela cai. Ela levanta mais forte. A... Ela, que prefere estar cercada de livros para se manter viva. A Ela... que não se pensa como escritora, mas escreve, eventualmente, para dar respostas aos deuses. E porque sente o mundo. A Ela ... que compensa esse sentimento ao tornar-se uma boa leitora. Que pensa na morte, pois entendeu a brevidade da vida. Mentira. Ela tem medo da morte. Do mistério do depois, se houver um depois. E que o envelhecimento é natural e obrigatório. Mentira!! Ela sofre com as perdas imensas em relação ao corpo, ao comparar-se consigo mesma quando era jovem. Sem falar em dores físicas, ah. E, ah, ela mesma se ilude, apesar disso, ao contabilizar outros ganhos – experiências de vida. Aprendeu algumas coisas. Ela se admira (mas duvida) das mulheres que afirmam lidar bem com a idade avançada. Como aceitar de boas? Ela quer saber. Pois, ela sempre foi chamada de bonita e hoje tem rugas, cabelos grisalhos e gordurinhas. E agora? O mito da beleza desmonta a mulher. O mito da juventude, da perfeição, do corpo em forma!! Bem, a Ela, que prefere roupas soltas, largas, elegantes e bem cortadas. A Ela pela sua intensidade: conhece a dor e o amor. A Ela que largou mão de frescuras. Vai ao cinema e aos eventos sozinha. Conhece os limites e quando é vantajoso ultrapassá-los, ahh!! A Ela que aproveita cada momento especial, porque sempre pode ser uma última vez. A Ela que não deixa de ter vontades, e não reprime sonhos “indecentes”, pois está viva, continua viva e sua essência permanece a mesma: a mulher que cuida do corpo e da alma. Quer manter a conexão com a casa, os filhos e com a natureza. Mas gosta de ficar só e imergir profundamente em si mesma. Faz dieta, exercícios e não dispensa o batom. As angústias, inquietações e alegrias são os fundamentos de uma construção diária.

Enfim, um nobel - prêmio às mulheres maduras, especialmente àquelas que leem muito, e que, apesar de terem acumulado experiência de vida e sabedoria, sempre estão abertas para novos saberes. Um luxo para quem souber apreciá-las, porque assim enxergarão a sua alma.

Apesar de tudo, as vidas, as nossas vidas, nossas memórias e desejos um dia serão esquecidos. Posto que assim é a vida. Vivamos no tempo presente! Pois!

“Após o tempo passar – tudo se apagará em um segundo.” Em – “Os Anos” – Annie Ernaux.

Marilia Frosi Galvão é professora, escritora e cronista em Caxias do Sul.

(Foto: Claudia Haupt)

mail mailgalvao.marilia@hotmail.com

Da mesma autora, leia outro texto AQUI