Caxias do Sul 05/12/2021

Mariana tem coisas a dizer

Aos 17 anos, skatista porto-alegrense que já foi campeã brasileira é uma atleta que procura refletir sobre política, identidade, feminismo e o lugar do skate no mundo contemporâneo
Produzido por Marcos Mantovani, 28/08/2021 às 08:45:03
Mariana tem coisas  a dizer
Foto: MARCOS MANTOVANI

POR MARCOS MANTOVANI

Sim, Mariana tem coisas a dizer. Mas Mariana sabe que ter coisas a dizer significa, em primeiro lugar, aprender a estar à vontade no silêncio — é no silêncio que se afina a dicção da voz própria. Talvez seja por isso que Mariana é meio inconstante nas redes sociais. Para ela, sem uma cota básica de quietude, não existe razão para falar, para dizer.

Quando diz, Mariana Menezes diz com calma e alguns respingos de timidez. Dezessete anos. Seu tom de voz se mantém sereno conversando tanto sobre a vida pessoal quanto sobre fatos coletivos, como, por exemplo, a realidade política brasileira. Aliás, Mariana não se esquiva desse debate. Até porque o esporte é político. O skate é político. Ser mulher num país encabeçado pela misoginia é político.

Um dos responsáveis por essa consciência de Mariana é Josué, o pai. Skatista old school, ele tem um jeito maleável de ser/estar que influencia muito a filha única. A mãe, Martina, é a outra pessoa que ajuda Mariana em sua elaboração identitária. Publicitária e professora, ela é a referência para que a filha se alargue em temas como os feminismos, as significações de ser mulher.

a foto, o Band-Aid, o preconceito

Existe uma fotografia muito simbólica. Quando Mariana ainda era bebê, o pai a colocou para dormir em cima de um skate, tendo o cuidado de estender um pequeno cobertor ao longo do shape, evitando assim que a lixa arranhasse a filha. Josué embalando o sono da bebê Mariana no skate é uma imagem bonita e premonitória, o destino marcado numa foto.

Foto que, sem demora, iria se levantar do álbum de menina e adquirir vida própria, intrometendo-se a seguir em alguns álbuns de meninos, ansiosa para competir com eles. Isso já aos oito anos, quando Mariana ganhou um skate estilo Band-Aid e foi matriculada numa escola para skatistas iniciantes. Poucos meses depois, conforme a interpretação do professor Pedrinho, ela estava mais do que preparada para as competições.

O problema era que, naquela idade, a criançada que andava de skate era formada só por meninos. Mesmo assim, chegou o dia em que a menina Mariana quis competir, sentindo inclusive que poderia vencer todos os meninos, uma confiança que fez com que os pais dos adversários se assustassem. Esse susto obrigou os organizadores a retirarem Mariana da disputa, já que seria muito grave se uma guria acabasse vencendo a competição dos guris.

o pódio, a cdf, o campo de centeio

A menina não se encolheu com a primeira censura numa competição. Seguiu em cima do skate estilo Band-Aid, prestando atenção aos ensinamentos do pai e do profe Pedrinho. Muitos aéreos de front, muitos backside smith. E foi assim que, aos treze anos, em disputas contra adversárias adolescentes e adultas, Mariana conquistou o título de campeã brasileira na categoria Pool.

Só que a skatista Mariana nunca se sobrepôs à estudante cdf Mariana. O estereótipo inconsequente e alienado de quem anda de skate nunca bateu com seu jeito, com seu estilo. Mariana teve e ainda tem o cuidado de alimentar mais de uma pretensão. Em Porto Alegre, no terceiro ano do ensino médio, ela planeja cursar engenharia civil, apesar de ainda não se projetar com clareza na profissão.

A profissão dela hoje é só o skate, mesmo sem salário. E ficou pior na pandemia. Devido à reformatação do cotidiano, Mariana precisou diminuir os treinamentos. Mas o que ela não diminuiu foi o hábito de ler literatura, que não deixa de ser uma exercitação complementar — o narrador favorito dela é Holden Caulfield, um adolescente que, desapontado com a realidade cínica dos adultos, visualiza a si mesmo recolhendo crianças num campo de centeio e, assim, evitando que a pureza da infância delas caia no precipício logo à frente.

lutas, ocupações, formigamentos

A luta é para que o skate se naturalize mais. É luta braba, uma vez que, embora faça parte hoje das Olimpíadas, o skate já sofreu proibição total em 1988, na cidade de São Paulo — dado histórico que fará sombra eterna para as medalhas olímpicas que vieram e para as que virão. Atual campeã gaúcha na modalidade Park, Mariana faz parte dessa luta geral, embora a atenção dela esteja numa batalha mais particular.

A particularidade, para Mariana, tem a ver com a abertura de caminho das mulheres no mundo do skate, um mundo ainda masculino demais. Engajada na ocupação feminina das pistas, bowls e pools, ela é uma das representantes da geração de jovens mulheres que se expressam e se reconhecem em cima de um shape que tem rolamentos e quatro rodinhas.

Mas existem preços a pagar. Um preço físico (Mariana já fraturou o metatarso e o escafoide) e um preço psicológico (preconceitos machistas). Mas nada que atrapalhe a voz de Mariana. Ela continuará tendo coisas a dizer, com atitudes e palavras. Continuará a descrever os aéreos de back e de front, a aceleração ao retornar à pista, a finalização da manobra gerando no corpo um formigamento sedativo que por um segundo leva o universo inteiro a fazer um clic e se encaixar.

Confira alguns dizeres de Mariana em video no instagram clicando AQUI