Caxias do Sul 23/10/2021

“Faço parte da turma dos irritantemente felizes”

O escritor e filósofo Gilmar Marcílio compartilha alguns de seus gostos e preferências culturais em um texto inspirador
Produzido por redação, 25/03/2020 às 10:33:50
“Faço parte da turma dos irritantemente felizes”
Foto: SALETE MARCILIO

Um livro/autor

Para um leitor contumaz, esta pergunta provavelmente receberá respostas diferentes a cada vez que for formulada. Tive fases de absoluto apaixonamento por Marguerite Yourcenar, Albert Camus, Virgínia Wolf, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, entre tantos.

Hoje, tenho me entregado com dedicação quase religiosa à releitura da obra completa de Machado de Assis. Ele costuma surgir em nossa vida de estudante numa época em que somos totalmente incapazes de compreender a sua grandeza. Muitos o rechaçam e não voltam às suas páginas. Uma lástima, pois é nosso clássico por excelência, absolutamente universal.

Comecei por seus romances mais emblemáticos – “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” – e agora estou me deleitando com os contos, pequenas obras-primas que contemplam o humano em todas as suas risíveis arrogâncias, quando não na tentativa camuflada de esconder sentimentos menos nobres.

É impressionante a sua capacidade de traçar perfis tão complexos (principalmente os femininos), mesmo quando ele narra vidas absolutamente banais, imersas em um cotidiano de restrições sentimentais, contaminadas por toda espécie de preconceitos. Machado é de uma agudeza psicológica como não encontramos em nossa literatura. Poder lê-lo no original é um dos maiores privilégios para os amantes da palavra.

Penso que poderia passar anos em sua companhia e, ainda assim, não pararia de aprender e me surpreender. Não posso pensar em outra palavra senão essa para dizer como me sinto quando estou em sua companhia: felicidade.

Um som

Confesso que, durante muitos anos, a música foi a manifestação de arte menos presente em minha vida. Comprei, a seu tempo, muitos CDs e os ouvi com imenso prazer. Mas a maioria era recolocada na prateleira para de lá sair raramente. De qualquer maneira, sempre fui bastante eclético em meu gosto. Aprecio jazz, blues, música clássica (especialmente trechos de ópera) e MPB.

Penso que temos os melhores compositores do mundo. Basta citar Caetano Veloso, Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, Rita Lee, Milton Nascimento, Cartola e já seria o suficiente para termos um Panteon de gigantes. E isso só fazendo referência ao que foi produzido nas últimas décadas. Se formos ouvir os cantores e cantoras dos anos 40 e 50, valha-me Deus! Dá vontade de não sair mais de casa e ficar ouvindo eternamente esses gênios.

O fato é que, com o surgimento do Spotify, comecei a ouvir diariamente os nossos artistas. Faço isso em minhas caminhadas matinais, na chácara, onde reina um silêncio puro que me permite apreciar sem interferência instrumentos e vozes. No mínimo, duas horas por dia são dedicadas a esse prazer.

Escolher um nome, como é difícil aqui também. Mas não me furtarei a uma resposta menos evasiva: sou encantado pela voz da Alaíde Costa. Creio que hoje ela deva ter aproximadamente 80 anos, mas ainda grava com sua voz límpida e rascante.

Ela é uma das maiores intérpretes da obra de Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Um timbre singularíssimo, que emana uma certa tristeza, mas que, sem dúvida alguma, a aproxima da perfeição.

Um filme

Pode ser em ordem alfabética? Deve dar mais ou menos trezentos. Vamos lá, mas mesmo assim dando uma curva na objetividade.

Tenho em casa todos os filmes do Woody Allen. E o que surge de novo, eu assisto, com a certeza de que será brilhante. O humor judaico e autodepreciativo de sua obra é único. Ele sabe dirigir os atores como ninguém (segundo ele, seu único mérito é saber escolhê-los e deixá-los fazer o que sabem de melhor).

Dizem que ele fez um único filme na vida e que, desde então, só sabe se repetir. Pouco importa. Como dizem os que fazem parte do seu imenso séquito de adoradores, o pior Woddy Allen é sempre melhor do que praticamente tudo o que se tem visto por aí.

Woody Allen

Aprecio muito “Hannah e Suas Irmãs", "Manhattan”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Meia-noite em Paris”, “Mach Point”. Ou seja: todos. Uma pena que hoje, em função das denúncias que pairam sobre ele, acusando-o de pedofilia em um passado remoto, quase não consegue mais financiamento para suas obras e nenhuma editora aceitou publicar suas memórias.

Faço parte da turma que continua separando a obra do seu criador. Se assim não o fizermos, seremos obrigados a negar muitas das maiores produções da humanidade. Enfim.

Ah, permita-se lembrar mais dois nomes pelos quais nutro admiração incondicional: Pedro Almodóvar e Federico Fellini.

Um prato

Durante a minha juventude e um pouco mais, fui o que se chamaria, sem meios termos, de um glutão. Devorava tudo, sem me preocupar muito em apreciar as sutilezas de certos pratos. Credito isso ao fato de ter tido uma infância muito pobre, o que reduzia consideravelmente a variedade de alimentos que eram colocados à mesa diariamente.

Minha fome era atávica. Hoje, bem mais comedido, aprendi a cozinhar e a escolher o que agrada ao meu paladar. Tem sido uma grande experiência. Preparo o almoço todos os dias e, aos sábados, sempre faço um bolo.

Com a maturidade (ou o aumento da sensibilidade estomacal), optei por evitar carnes e gorduras. Adoraria ser vegetariano, de verdade, mas me limito ao respeito e à admiração. Ainda gosto demais de um bom churrasco. Porém, dou preferência aos risotos e aos vegetais grelhados.

Tenho predileção por uma massa de tapioca com molho de pimentões amarelos e vermelhos. Sua preparação é simples, mas o resultado bem sofisticado. Não dispenso lasanhas, pastéis, panquecas, sopa de canederli (uma maravilha da gastronomia italiana, quase ninguém mais faz).

Hoje, tento ser comedido. Janto em restaurante somente duas vezes por mês. Minha cozinha tem sido um dos lugares em que mais permaneço durante o dia. Ali é possível fazer alquimias para o deleite do corpo e da alma.

Um lugar

Viajei pouco, muito pouco em minha vida. Não sei a razão disso, o fato é que eu teria de fazer uma escolha a partir de meia dúzia de locais que visitei. É pouco. Então, prefiro me referir a um lugar onde sempre volto com imensa alegria: meu jardim.

Tenho o privilégio de morar em uma chácara belíssima, com uma vasta área de cultivo de flores de estação e ornamentais. Plantamos uma grande variedade de bromélias, orquídeas, helicônias, cactos, jasmins, entre outros. Sou muito exibido por ter meu paraíso particular.

Raramente saio nos finais de semana, pois desconheço outro local que me deixaria tão contente em estar como na minha casa, cercado de verdes, de silêncio, acompanhando a fruição das estações. Aqui ainda podemos ver as estrelas e dormir com a orquestra dos sapos. Uma experiência magnífica.

Tenho plena certeza de que meu gosto de viver advém principalmente do fato de “me esconder” no interior. Espero que a velhice me surpreenda sentindo a doce aspereza da terra se desmanchando entre meus dedos.

Poucas coisas me plenificam mais do que ouvir o barulho da chuva no telhado, sentar na varanda e deixar que o sol envolva meu corpo. Hoje eu poderia viver com pouco, mas esse pouco não poderia dispensar o chão que me acolhe.

Gilmar por Gilmar

É a pergunta que vale um milhão de reais. E a probabilidade de acertar é praticamente nula. Como dizia Buda, o Eu não existe. Ou, numa visão mais ocidental, o Eu é fluido, cambiante. E essa é uma das maravilhas da condição humana. Nada permanece como é para sempre. Mas é instigante fazer essa investigação interior, mapeando uma possível definição de si mesmo.

Acima de tudo, sou um ser inclinado aos encontros. Embora aprecie sobremodo a solidão, creio que muito do que sinto e penso hoje devo às pessoas que estiveram em minha vida num determinado momento. Ou, mais do que tudo, àquelas com as quais fui construindo um itinerário amoroso.

Gosto dessa dialética que inclui as gentes e a possibilidade de viver bem longe das conversas, dos dramas e das queixas. Quando me sinto melancólico, minha primeira reação não é ligar ou ir em busca de alguém. Antes, é a de abrir um livro, escolher um filme, ouvir uma música.

Mas isso não é o único centro vital dos meus dias. Acredito, como Sartre, que somos salvos pela ação. Talvez seja por isso que também goste tanto do movimento, de fazer coisas, sentindo a lassidão do corpo exausto. Procuro não me espantar com atitudes que não fazem parte do meu cardápio comportamental.

Como disse o filósofo Terêncio, nada do que é humano me é estranho. Que sei eu das motivações alheias? Então, respiro fundo e tento não agir emocionalmente, deixando sempre um bom espaço para a razão.

No mais, faço parte da turma dos irritantemente felizes. Acordo sempre de bom humor e isso tende a melhorar com o passar das horas. Tive muitas perdas, mas isso não tirou de mim o prazer de sorver e experimentar. Começaria tudo outra vez, como disse lindamente Gonzaguinha.

Não escondo meus muitos defeitos, mas não quero tirar o prazer de serem elencados pelos outros. Principalmente por aqueles que nos amam. Eles são responsáveis por nossa educação existencial.

FOTOS SALETE MARCÍLIO