Caxias do Sul 08/01/2026

Quando acreditamos ser menos do que somos

Crenças enraizadas exigem um profundo trabalho interno de detecção e ressignificação
Produzido por Neusa Picolli Fante, 20/12/2025 às 12:10:40
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda

Crenças construídas e alicerçadas interiormente nos amedrontam. Por mais que tentemos nos afastar, nos desvencilhar delas, não é tão simples assim. Elas possuem raízes fundas dentro de nós. Elas são a sombra do obscuro que nos persegue. Queremos nos libertar, mas nem as alcançamos direito.

Reconhecê-las é o nosso primeiro grande desafio para só depois trabalhar com elas. Lapidar, compreendê-las, perceber como se instalaram, é o primeiro grande passo nessa busca por modificação.

Desvencilhar-se delas precisa passar pelo início, pelo reconhecimento. Passa inclusive por olhar criteriosamente tudo que se viveu e como nos sentimos nessas vivências. Pode ter algo escondido ali.

Aprender a lidar com elas é o que vem depois. É olhá-las infinitamente, até que estejamos prontos para discernir como as guardamos em nós, como aceitamos aquela verdade que agora vemos que não nos pertence, mas que estamos fusionados a ela.

Como ferida aberta ou como cicatriz, ela permanece. Seguirá assim até que encontre um novo lugar mais tranquilo, mais sereno, para se reacomodar. E isso quem propicia é você, pelas suas buscas, pelo seu cuidado.

Essas crenças questionadas fazem-nos enxergar com uma lente, às vezes, errada, distorcida, mal focada, até que encontremos o nosso próprio sentido e nossa maneira de ver a vida, as coisas e, principalmente, de nos refazer.

Por vezes, acreditamos que somos menos, que temos inúmeros defeitos. Quem não os tem? É ali que precisamos parar para sentirmo-nos um pouco mais e ver além do que a nossa própria insegurança interna instalada pode refletir em nós.

Às vezes, ficamos presos em nossos próprios devaneios: sem asas para se mostrar, quanto menos para voar. Muitas vezes, seguimos confundindo sobre o que é e sobre o que não é importante e também como nos conduzir através do que está em nosso pensamento.

Que continuemos com os mesmos anseios, com as mesmas ingênuas percepções de criança, porém, não crendo ser o que não somos. Por que é forte assim esse sentimento de pertencimento por algo que não é meu? Aprendemos dessa maneira e não conseguimos enxergar diferente até percebermos que podemos sair do conhecido, do familiar e ampliar o nosso olhar.

Seguimos sendo menos, até porque não podemos mostrar o fio desencapado, o solto, o que nem vimos direito até que nos determinamos a olhar amorosamente. A partir desse olhar amoroso, nós nos cuidamos individualmente, passamos a não ter vergonha, assumimos nossos acertos ou erros e seguimos a nos modificar.

Naquela manhã fria, ele resolveu olhar para o sentimento de menos valia diante do abandono do que viveu, desejoso por modificar, compreender o emaranhado de sentimentos que chegavam até ele.

Por longo tempo, deu voz para a ignorância do outro e agora desejava mudar.

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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