Caxias do Sul 27/10/2020

'A Vastidão da Noite' é sugestivo e original

Diretor estreia com domínio da oralidade e virtuosismo técnico em ficção científica investigativa
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 14/06/2020 às 09:15:52
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

Dois jovens, um mistério nos céus e o medo do desconhecido. Esse é o fio condutor de “A Vastidão da Noite” (EUA, 2019). Ingressamos no universo dos protagonistas através de uma televisão de tubo.

Um filme dentro do filme que vez ou outra retorna à imagem do aparelho com a transmissão televisual em preto e branco para, em seguida, reaver a cor e o formato cinema. Nessas idas e vindas, acompanhamos a história do locutor de rádio Everett (Jake Horowitz) e sua amiga Fay (Sierra McCormick), telefonista da fictícia cidadezinha de Cayuga.

A Vastidão da Noite” toma emprestada a narrativa dialógica, a linguagem radiofônica e a década de 50, na qual é ambientada, para compor sua contextura fílmica. O diretor estreante Andrew Patterson e os roteiristas James Montague e Craig W. Sanger sintonizam com perfeição texto e técnica cinematográfica, sem os quais esse Sci-fi perderia o brilho. A obra independente, realizada com baixo orçamento e sem estrelas hollywoodianas, tem potencial para ser cultuada por quem ama o gênero.

Os protagonistas Everett e Fay na rádio WOTW (Divulgação Amazon Prime Video)

Logo no início, temos uma longa sequência no ginásio. A câmera segue Everett em todo o seu trajeto naquele espaço. Lá, comenta-se sobre as causas de falta de luz no local com alusões repetidas a um esquilo. As vozes são sempre em um tom mais alto, às vezes um tanto estridentes. Remetem ligeiramente a “Cidadão Kane” (1941), obra-prima de Orson Welles. Termina aí qualquer analogia, ainda que o filme de Patterson seja uma preciosidade à sua maneira.

A Vastidão da Noite” produz uma estranha agilidade em que a voz é tão ou mais importante que as imagens. A câmera acompanha os personagens na rua, mostrando-os pelas costas ou vasculha essas mesmas ruas e atalhos até chegar a seu destino, o ginásio. É quase um voo o deslizar suave com que ela atravessa a cidade levando-nos com ela pela noite escura.

E há o contraponto no demorado plano dentro da pequena Central Telefônica. Ali, o rosto de Fay domina a tela. Nesse ponto, a graça e a originalidade acentuam o suspense e não se consegue mais abandonar a narrativa.

Entre planos fechados (na rádio, na telefônica, dentro do carro), closes (em Everett e Fay) e travellings (nas ruas), o filme cria sua estética demarcando uma primeira assinatura de Patterson. Ao utilizar esses recursos técnicos, o diretor nos coloca junto dos protagonistas para sentirmos o que eles sentem.

A inter-relação entre texto e visual é fascinante. A obra brinca com nossa imaginação quando ouvimos uma história secreta contada por um ouvinte. Vez ou outra, a tela escurece e o único parâmetro é sua voz a nos sugestionar.

A trama, que se passa durante a Guerra Fria marcada pela corrida espacial entre americanos e soviéticos, envolve um dos elementos ficcionais mais marcantes do século passado, o contato com alienígenas. Especialmente nos anos 1950, uma gama de filmes de ficção científica abordou o tema, retomado nas décadas seguintes.

Ainda que no século XXI, a fusão homem-máquina e a inteligência artificial sejam as fantasias dominantes, como afirma a estudiosa portuguesa Joana Amaral Dias, é com “A Chegada” (2016) que o “regresso” dos extraterrestres traz um verdadeiro frescor ao gênero. “A Vastidão da Noite” contribui favoravelmente para tal retomada.

Assista ao trailer original deA Vastidão da NoiteAQUI

O filme está disponível na Amazon Prime Video, que oferece 30 dias grátis de acesso ao seu catálogo. Visite AQUI

NOS FOTOGRAMAS

Confira algumas obras cinematográficas que mexeram com os espectadores na década de 50 com a temática alienígena.

Esses são os clássicos de sucesso que ganharam remakes:

O DIA EM QUE A TERRA PAROU (1951), Robert Wise

O alienígena Klaatu visita a Terra com a importante missão intergaláctica de convencer os líderes mundiais a acabar com as guerras no planeta.

Remake:

Mantém o título original e é lançado em 2008, sob direção de Scott Derrickson, com Keanu Reeves e Jennifer Connely no elenco.

Assista ao trailer do remake AQUI

MONSTRO DO ÁRTICO (1951), Christian Nyby

Uma expedição de pesquisadores no Ártico descobre uma nave espacial e um ser envolto em um bloco de gelo que é levado ao laboratório. Trata-se de um cruel alienígena que, ao descongelar, ataca a equipe impiedosamente.

Remake:

O Enigma do Outro Mundo (1982), de Jonh Carpenter, com Kurt Russel. O filme segue a ideia do original, mas em novo contexto e com outra abordagem.

Assista ao trailer dessa versão AQUI

GUERRA DOS MUNDOS (1953), Byron Haskin

Baseado no livro homônimo de H. G. Wells, escrito em 1897. Um meteoro cai em uma cidade interiorana dos EUA, mas na verdade trata-se de uma invasão alienígena.

Remake:

Sob o título original, Steven Spielberg atualiza o enredo em 2005 com Tom Cruise como um homem divorciado que precisa salvar os filhos de um ataque alienígena. Dakota Fanning, ainda criança, está no elenco.

Guerra dos Mundos na telinha:

O canal norte-americano EPIX lançou em fevereiro de 2020 a série europeia “Guerra dos Mundos”, cuja primeira temporada foi exibida na França no final de 2019.

Assista ao trailer AQUI

A BBC também lançou a primeira temporada de sua versão de “A Guerra dos Mundos” em 2019. A série se passa na Inglaterra entre 1901-1910.

Assista ao trailer AQUI

VAMPIROS DE ALMAS (1956), Don Siegel

Baseado no livro “The Body Snatchers” (1954), de Jack Finney, o filme conta a história de um médico cujos pacientes começam a relatar que as pessoas com quem convivem estão diferentes e agem como se não tivessem sentimentos. O médico descobre que alienígenas estão tomando seus corpos.

Remakes:

Invasores de Corpos (1978), de Philip Kaufman (considero como a melhor versão)

Os Invasores de Corpos - A Invasão Continua (1993), de Abel Ferrara (uma pseudo continuação)

Invasores (2007), de Oliver Hirschbiegel

Assista ao trailer de “Invasores” AQUI

Outras produções da época:

A Ameaça que veio do Espaço (1953), Jack Arnold

Invasores de Marte (1953), William Cameron Menzies

A Guerra entre Planetas (1955), Joseph M. Newman

Casei-me com um Monstro de outro Espaço (1958), Gene Fowler Jr.

A Morte veio do Espaço (1959), Ed Wood

DE OLHO NO SET

Segundo pesquisa do site Canaltech, “A Vastidão da Noite” foi um dos filmes mais pirateados durante a última semana.

A obra participou dos seguintes festivais:

Slamdance Film Festival – Recebeu o Prêmio do Público

The Overlook Fil Festival – Recebeu o Prêmio de Melhor Narrativa

Independent Spirit Awards 2020: indicado a Melhor Roteiro de Estreia
Festival de Chicago 2019: seleção oficial
Festival de Toronto 2019: seleção oficial
Festival de Edimburgo 2019: seleção oficial
Festival de Slamdance 2019: seleção oficial

A sigla da estação de rádio em que Everett trabalha, WOTW, faz referência às iniciais War of the Worlds.

A Vastidão da Noite” nos faz lembrar da série “Além da Imaginação”, que iniciou em 1959 e teve cinco temporadas.

Em 1937, Orson Welles, que ficaria famoso com o filme “Cidadão Kane”, fez uma dramatização radiofônica de “Guerra dos Mundos”, causando pânico na população que acreditou no programa.

O gênero cinematográfico Ficção Científica, Sci-fi, surge no primeiro cinema, mais precisamente com “Viagem à Lua” (1902), roteirizado, produzido e dirigido por George Méliès.

“Viagem à Lua” foi inspirado em “Da Terra à Lua”, de Julio Verne, e “Os Primeiros Homens na Lua”, de H. G. Wells. O filme é também o primeiro a mostrar extraterrestres, no caso, os homens-lua.

O termo Sci-fi, abreviação de Ficção Científica, foi cunhado por Forrest J. Ackerman, criador da revista pulp “Famous Monsters of Filmland”, em 1958.

“Arquivo X”, série com 11 temporadas, foi sucesso na década de 90. Os agentes do FBI, Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson) investigavam ocorrências que envolvem alienígenas, conspirações e casos paranormais.

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

e-mail: bibacoelho10@gmail.com

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