Caxias do Sul 30/10/2020

Realidade desfigurada, sonhos e cinema

No baralho do inconsciente não existem cartas marcadas, o aleatório faz o jogo e você decifra
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 07/06/2020 às 09:36:31
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

Os tempos de pandemia e isolamento social exigem de nós algo para o qual jamais nos preparamos. A incerteza de cada dia influencia nossos sonhos, os de ter um propósito e imaginá-lo na prática e os do inconsciente que, segundo Sigmund Freud (1856-1939), transitam entre desejos e medos reprimidos.

A elaboração onírica flerta com a realidade e abstrai dela elementos importantes durante a vigília. Nos sonhos, ao embaralhar real e ilusório, o inconsciente mascara e revela ao mesmo tempo o que se passa dentro da nossa mente.

A importância dos sonhos na pandemia é tanta que pesquisadores de três universidades brasileiras desenvolvem um projeto de captura de sonhos online, através do Instagram. Os estudiosos foram inspirados pelo ensaio “Sonhos no Terceiro Reich”, da jornalista alemã Charlotte Beradt, pela “Interpretação dos Sonhos” e “O Infamiliar”, ambos de Sigmund Freud. Participam a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O estudo busca mapear os medos e angústias coletivas. Na primeira fase, os pesquisadores descobriram que os sonhos têm sido mais vívidos, hipernítidos, e beiram o limiar do traumático. As pessoas acordam mais cansadas e angustiadas. Rose Gurski, do Departamento de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS, relata que perdas (materiais, de pessoas, de memória), sonhos persecutórios e intrusivos estão entre os mais partilhados.

O pesquisador Gilson Iannini, da Universidade Federal de Minas Gerais, explica que ainda estranhamos a nova realidade e temos dificuldade em processá-la. “É a sensação de estar dentro de um filme. É como se a gente perdesse as fronteiras nítidas da fantasia e da realidade”. Isso acontece, segundo ele, “porque nossa mente está trabalhando mais para dar conta de processar esses dados que são incongruentes”.

O cinema é por excelência um portal de sonhos. O cineasta francês Jean Cocteau dizia que “é um sonho que todos sonhamos ao mesmo tempo”. O diretor alemão Werner Herzog sugere abordagem semelhante, para ele “o cinema é capaz de expressar nossos sonhos coletivos como nenhuma outra mídia”.

Esse é o significado da Sétima Arte. Se antes íamos ao cinema para sonhar junto com outras pessoas, com o isolamento a sala de exibição ganhou status de aconchego em nossas casas.

Estamos atrás do oculto, do que se espreita, do que é quase visto, do que se expõe e do que se esparrama em significados. Fechamos as janelas, puxamos as cortinas, porque sonhar cinematograficamente exige o mesmo ritual que para adormecer.

É no escuro que nos rendemos às manifestações imagéticas do inconsciente. Nele estão questões que nem sempre compreendemos, pois os códigos oníricos exigem alguma destreza em sua decifração. Nos filmes temos o mesmo princípio de buscar significações, observar, descobrir, assimilar.

Quando, por exemplo, contamos ao psicanalista o que sonhamos, ele nos “acorda” para uma leitura simbólica. Sua figura representa, como afirmava Alfred Hitchcock, a de um “detetive dos sonhos”.

Assim é também em relação aos filmes, nos quais os mitos pessoais (a nossa visão dos fatos) influenciam nossa “leitura”. Metáforas e simbolismos aparecem nos sonhos e nos filmes. Encontrá-los pede sintonia, disponibilidade em vasculhar possíveis sentidos, curiosidade e entrega.

No cinema, os próprios cineastas são os tais detetives a prover imagens sobre o psiquismo humano. O estudioso Juan Droguett afirma que o “sonho é a malha em que o inconsciente se tece”. E, por essa razão, cinema e inconsciente se irmanam. O parentesco é tal que a primeira projeção cinematográfica dos Irmãos Lumiére, na França, acontece em 1895, mesmo ano em que Freud publica seu primeiro livro sobre psicanálise.

Os filmes são persianas que se abrem e nos convidam a olhar para fora. Um fora que também é dentro. Esse lugar/não lugar em que acontecimentos misteriosos tomam conta e os arquétipos se anunciam nas figuras do herói, do vilão, do sábio, do andarilho... O pensamento compartido de modo não consciente é a alma do cinema.

Os temas e padrões universais de que nos fala Gustav Jung (1875-1961), discípulo e contemporâneo de Freud, estão dispostos nos filmes que assistimos. Somos anfitriões do imaginário criado por outros (os cineastas).

É a nossa festa, planejada por quem entende do assunto. É o sonho coletivo a despertar-nos para oráculos próprios. Cada um de nós acorda outro depois da carga onírica descarregada na tela. Muitas vezes ela nos incomoda, em outras tantas é revelação, em algumas, arrebatamento.

O fato é que não somos imunes às imagens, em particular as cinematográficas. Elas ficam como um relevo, uma tatuagem ou até uma cicatriz. É isso que o cinema faz, nos conforta, instiga, ameaça, reitera, celebra, ignora e tantas coisas mais. E é o sonho, impregnado nele, que nos transporta a um patamar de sensações, desequilíbrios e espelhamentos.

MINHA CLAQUETE

Um dos mais emblemáticos filmes em que os sonhos são tema é “Quando fala o coração” (1945), de Hitchcock. Uma psiquiatra (Ingrid Bergman) apaixona-se por um homem desmemoriado (Gregory Peck) que acredita ter cometido um crime. O diretor levou a coisa tão a sério que chamou o pintor surrealista Salvador Dalí para criar a sequência dos sonhos. A obra aborda como o inconsciente imprime simbolismos em imagens delirantes.

Hitchcock esclareceu em entrevista a François Truffaut, nos anos 1960, que gostaria das sequências oníricas bem vívidas. “Eu queria expressar o sonho com extrema acuidade visual e clareza, mais aguçado do que o filme em si. Eu queria Dalí por causa da acuidade arquitetônica de seu trabalho”.

O encontro dos dois gênios resultou em 20 minutos de filmagens, cortados pelo produtor por achá-los complexos demais. O restante se perdeu na sala de edição.

É interessante lembrar que Dalí era leitor de Freud. As teorias sobre sonhos e inconsciente marcaram profundamente o seu trabalho. A leitura de “A interpretação dos sonhos” causou-lhe grande impacto: “O livro se apresentou para mim como uma das descobertas capitais da minha vida”, revelou.

Ainda no terreno do surreal, Dalí filmou com Luís Buñuel, seu grande amigo. Muitas das cenas de “Um Cão Andaluz” (1929) surgiram dos sonhos do artista. E, claro, o movimento surrealista teve em Freud um ícone.

Assista AQUI à sequência dos sonhos em “Quando fala o coração

Hitchcock e Dalí nos sets de filmagem

NOS FOTOGRAMAS

Indico aqui filmes com a temática dos sonhos dispostos em ordem cronológica. Alguns bastante conhecidos e outros a serem descobertos.

O Gabinete do Dr. Caligari (1920), Robert Wiene

O Magico de Oz (1939), Victor Fleming

Alice no País das Maravilhas (1951) e demais versões

A Hora do Pesadelo (1984) de Wes Craven e todas as incontáveis sequências

Dreamscape – A morte nos sonhos (1984), Joseph Ruben

Sonhos (1990), Akira Kurosawa

Episódio “A Raposa”, do filme “Sonhos”

Ladrão de Sonhos (1994), Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro

Abre los ojos (1995), de Alejandro Amenábar e a versão norte-americana intitulada Vanilla Sky (2001), de Cameron Crowe

A Cela (2000), Tarsem Singh

Jennifer Lopes em “A Cela”

Cidade dos Sonhos (2001), David Lynch

Acordando para a vida (2002), animação de Richard Liklater

Sonhando acordado (2007), Jake Paltrow

A Origem (2010), Christopher Nolan

“A Origem” com Leonardo DiCaprio

Páprika (2006), animação de Sakoshi Kon

Sonhos Lúcidos (2017), Jun-sung Kim

DE OLHO NO SET

Você pode participar da pesquisa sobre sonhos na pandemia AQUI

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

e-mail: bibacoelho10@gmail.com

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