Caxias do Sul 29/06/2022

Vida e obra do filósofo caxiense GERD BORNHEIM em debate

Curso de extensão promovido pela UCS analisa aspectos da trajetória do grande pensador que dá nome à Galeria Municipal de Arte em Caxias do Sul
Produzido por redação, 23/05/2022 às 08:52:07
Vida e obra do filósofo caxiense GERD BORNHEIM em debate
Filósofo Gerd Bornheim deixou marcas profundas no pensamento filosófico contemporâneo
Foto: ARQUIVO PESSOAL

Aspectos da vida e da obra do filósofo caxiense Gerd A. Bornheim serão o foco de um curso de extensão universitária oferecido pela Universidade de Caxias do Sul ao longo do mês de junho de 2022. "Gerd Bornheim: uma introdução à vida e à obra" será apresentado e coordenado pelo professor Lucas Taufer, doutorando e pesquisador vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Caxias do Sul.

Em sua dissertação de mestrado, defendida no ano passado, Taufer estudou a interessante e provocadora concepção do filósofo caxiense Gerd Bornheim sobre reflexões, questões e problemas de ética filosófica. A partir disso, organizou um curso de extensão para apresentar e introduzir uma discussão sobre alguns aspectos da vida e da obra deste importante, prolífico e reconhecido pensador, difundindo a pesquisa para a comunidade e também como homenagem nos 20 anos de seu falecimento, ocorrido a 5 de setembro de 2002. Gerd Bornheim dá nome à Galeria Municipal de Artes de Caxias do Sul, situada junto ao prédio da Casa da Cultura, na Rua Dr. Montaury, 1333.

O curso, gratuito e com vagas limitadas, já está com as inscrições abertas e será ministrado nas segundas-feiras à noite, das 19h às 21h, nos dias 6, 13, 20 e 27 de junho de 2022. Os quatro encontros serão virtuais ao vivo (por meio do Google Meet), com carga horária total de oito horas. O público-alvo são estudantes, pesquisadoras/es e professoras/es de ensino básico, de graduação e de pós-graduação da Área de Humanidades, em especial de Filosofia, História, Letras, Artes, Educação e em Estética, Filosofia da Arte, Teoria do Teatro, História da Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia Brasileira e Latino-Americana etc. e demais interessadas/os.

O programa consta dos seguintes temas: “Filosofia teórica: crise da metafísica e ontologia dialética” (dia 6/6); “Estética, filosofia da arte e teoria do teatro” (dia 13/6); “Filosofia prática: drama burguês e crise da normatividade” e uma Sessão em homenagem a Gerd Bornheim nos 20 anos de seu falecimento, com o Professor Dr. Gaspar Leal Paz (UFES) e o Professor Dr. João Carlos Brum Torres (UCS), no dia 27/6.

As inscrições podem ser feitas até o dia 3 de junho no link AQUI

O curso é uma promoção do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Área do Conhecimento de Humanidades da UCS.

QUEM FOI GERD ALBERT BORNHEIM

(Por Marcos Fernando Kirst, publicado no livro “Casa da Cultura: 30 Anos Irradiando Arte", de 2012, Editora Modelo de Nuvem)

Um cidadão do mundo, tanto física quanto intelectualmente, é como poderia ser definido, em curtas palavras, o filósofo, professor, ensaísta e crítico teatral Gerd Albert Bornheim, cujo nome batiza a Galeria Municipal de Arte desde 19 de outubro de 2006. Curtas palavras, no entanto, não bastam para abarcar toda a amplitude da atuação intelectual deste que foi um dos mais produtivos e influentes pensadores já nascidos em solo caxiense. Apesar de ter vivenciado praticamente toda a sua formação profissional e pessoal fora de Caxias do Sul, e de ter também pautado suas atividades muito além das fronteiras da Serra Gaúcha, Bornheim sempre se preocupou em manter vivas, estáveis e ativas as ligações que possuía com sua terra de origem, justificando-se assim a homenagem prestada a ele e que tanto engrandece a Galeria.

Bornheim nasceu em Caxias do Sul em 19 de novembro de 1929 e optou por uma vida dedicada ao cultivo da cultura, sem formar família. Ao morrer, em 5 de setembro de 2002, aos 72 anos, no Rio de Janeiro, contava como familiares as duas irmãs, Gerda e Irmgard, um filho adotivo (Romildo) e um neto (Anderson). Ao lado dessas pessoas, sua grande família eram o mundo, as artes e a cultura. Aos 16 anos de idade, em 1945, final da Segunda Guerra Mundial, já estava residindo em Porto Alegre, onde graduou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUC/RS, seis anos mais tarde, em 1951. Familiarizado com a leitura dos filósofos clássicos e com línguas como latim e grego, recebe uma bolsa de estudos do governo francês e muda-se para Paris em 1953, para estudar na conceituada Universidade de Sorbonne. Passa a conviver e a aprender com filósofos contemporâneos conceituados como Maurice Merleau-Ponty, Jean Piaget e Gaston Bachelard, e mergulha no estudo aprofundado da obra de Martin Heidegger. Plenamente integrado no ambiente universitário europeu, muda-se em 1954 para Londres onde, na Universidade de Oxford, frequenta os cursos de Filosofia Política e Literatura Inglesa. Sem perder tempo, no ano seguinte, vai para a Alemanha estudar Arte e também Cultura Gótica, na Universidade de Freiburg im Breisgaus.

Aos 26 anos de idade, já detinha uma sólida formação acadêmica, tecendo em si um perfil pessoal característico que o acompanharia dali em diante, no moldar de sua carreira. Quando de sua morte, colegas eruditos chegaram a classificá-lo como detentor da imagem clássica do professor de Filosofia, aliando características de tranquilidade, reflexão e racionalismo, sem, no entanto, estacionar na atitude fria. Sabia, conforme quem o conhecia, unir rigor intelectual com absoluta simplicidade.

Terminada essa sua primeira turnê de estudos pela Europa, que pode ser classificada como seus anos de formação, Bornheim retorna ao Brasil em 1955 para assumir uma cadeira de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Apenas um ano depois, já está integrado ao corpo docente da PUC/RS. A partir dessa época, começa a publicar artigos em suplementos literários de periódicos da imprensa, dando início a uma produção intelectual que lhe transformaria em referência nas áreas de filosofia e crítica teatral.

Em dezembro de 1957, a Ufrgs efetiva o Curso de Estudos Teatrais da Faculdade de Filosofia, que entra em funcionamento já no ano seguinte, sob a direção do dramaturgo italiano Ruggero Jacobbi (1920-1981), convidado especialmente para vir coordenar o novo curso e ministrar as disciplinas de Teoria e História do Teatro, além de assumir a direção teatral. Já na chegada, Jacobbi decide desmembrar o Curso de Estudos Teatrais em dois setores: o Curso de Cultura Teatral, voltado a professores, intelectuais, estudantes e interessados nas questões teóricas relativas ao teatro; e o Curso de Arte Dramática (CAD), destinado à formação de atores. É a partir do contato com o dramaturgo que Bornheim vê despertar em si o interesse pelo universo do teatro. Os dois tornam-se amigos e começam a desenvolver trabalhos juntos, com o diretor italiano produzindo montagens teatrais e o filósofo brasileiro ministrando conferências sobre os autores das peças que ele montava, além de passar a produzir ensaios sobre as artes cênicas. Quando, em 1960, Jacobbi decide súbita e inexplicavelmente regressar a Roma, Bornheim se vê obrigado a assumir as disciplinas que ele ministrava junto aos cursos de Teatro e acaba também herdando a direção geral da escola, aprofundando seu mergulho na área teatral. Bornheim responderia pela direção do Curso até o ano de 1969, tendo assumido as disciplinas de Teorias do Ator: Estética e Poética da Encenação e História e Estética do Teatro.

Os tentáculos da ditadura militar que assolavam a vida política brasileira desde o golpe de 1964 se debruçam também contra filósofos e intelectuais que, em sala de aula, em público e por meio de sua produção intelectual, convidassem as pessoas a refletir por conta própria sobre o mundo que as cercava, atingindo também o professor e ensaísta Gerd Bornheim, cassando-o de seu cargo junto à universidade federal no final de 1968, na esteira dos desmandos ditatoriais efetivados com a edição do Ato Institucional Número 5, o AI-5. Fica impedido de trabalhar como professor em qualquer rede pública de ensino no país e, nos dois anos seguintes, ministra aulas em um curso pré-vestibular na capital do Estado. Todos os meses, no entanto, é chamado a depor na Polícia Federal, e acaba aceitando, em 1972, um convite para lecionar no Instituto de Filosofia da Universidade de Frankfurt, na Alemanha. Retorna, então, à Europa, dessa vez, no entanto, na condição de exilado pelo regime de exceção que vigorava em seu país natal. Ministra aulas na Alemanha durante um semestre letivo e muda-se para Paris, onde passa a ganhar a vida dando aulas de língua alemã e, concomitantemente a isso, respondendo pela organização de uma galeria de arte situada no elegante e cultural Boulevard Saint-Germain. O retorno ao Brasil acontece em 1976 e, três anos depois, recupera o direito de lecionar e retomar suas atividades em função do processo de anistia que começa aos poucos a aliviar o peso da ditadura no país. No mesmo ano, em 1979, aceita convite para lecionar Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e passa a viver na Cidade Maravilhosa até sua morte. Dá prosseguimento à carreira de professor junto à UFRJ até o ano de 1991, quando obtém a aposentadoria por tempo de serviço. Plenamente ativo e profícuo, segue trabalhando, agora como professor na Universidade do Rio de Janeiro (UERJ).

Pensador inquieto, deixou como legado também uma vasta obra escrita a partir de seus ensaios filosóficos e crítica teatral. É consenso entre os especialistas da área que hoje, no Brasil, qualquer discussão que se faça a respeito de teoria do teatro e várias outras questões estéticas passa, necessariamente, pelos escritos do intelectual caxiense. O primeiro livro que lançou foi ainda em 1959, intitulado “Aspectos Filosóficos do Romantismo”, abordando o romantismo alemão e o teatro ocidental do século XX. Em 1961, publica a tese que apresentou no concurso para livre-docência de Filosofia na faculdade da Ufrgs, intitulada “Motivação Básica e Atitude Originante do Filosofar”, relançada em 1970 como “Introdução ao Filosofar”. Ainda na década de 1960, reúne artigos de sua autoria sobre o teatro contemporâneo, o teatro de vanguarda, o expressionismo e o trágico na obra “O Sentido e a Máscara”, em 1969. Mais tarde, seleciona três ensaios sobre teatro direcionados aos estudantes e ao público leigo no livro “Teatro: A Cena Dividida”, de 1983. O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) sempre foi um dos temas de interesse e pesquisa de Bornheim, o que o incentiva a lançar em 1992 a obra “Brecht: A Estética do Teatro”. Uma de suas obras também marcantes data de 1998, “Páginas de Filosofia da Arte”, um conjunto de ensaios sobre os temas que sempre o seduziam: filosofia e teatro. Além dos já citados, diversos outros livros integram a vasta bibliografia teórica e conceitual deixada pelo pesquisador. Podem ser ainda citados, entre eles, “Dialética: Teoria e Prática”, de 1977, “O Idiota e o Espírito Objetivo”, de 1980, “O Conceito de Descobrimento”, de 1998, “Sartre: Metafísica e Existencialismo”, de 2001, e “Metafísica e Finitude”, de 2001.

Hoje, em Caxias do Sul, seu nome abriga um dos espaços fundamentais consagrados ao cultivo da Arte como um conjunto de ideias expressas a partir da união entre conceitos estéticos e filosóficos, da forma como ele próprio a compreendia e compartilhava. Ingressar no ambiente da Galeria Municipal de Arte para apreciar uma exposição ou algum evento que ela abrigue é estar em sintonia direta com o pensamento e a herança deixados pelo cultivo de uma vida protagonizada por Gerd Bornheim.