Caxias do Sul 28/11/2020

Um DISCO que não pode ser deixado para trás

Há 20 anos, U2 lançava um de seus últimos álbuns relevantes e inesquecíveis
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 21/11/2020 às 11:29:03
Um DISCO que não pode ser deixado para trás
Foto: DIVULGAÇÃO

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Naqueles tempos, o mundo analógico ainda encontrava bolsões para respirar e possuía frentes de protagonismo na vida cotidiana, cujas rotinas passavam a ser transformadas aparentemente pouco a pouco (mas na verdade, avassaladoramente rápido) pelo império do digital.

Era o segundo semestre do ano 2000, ainda viajava-se com tranquilidade e despreocupação para lá e para cá nos aeroportos, multidões se ombreavam em eventos artísticos e a vida fluía da forma como a conhecíamos até então, como se fosse imutável. Mas, daí, na sequência, século XXI adentro, vieram os atentados às Torres Gêmeas com sua consequente guerra ao terror e a pandemia do coronavírus e a face da vida em sociedade no planeta modificou-se profundamente.

Antes disso, no entanto, em 30 de outubro de 2000, duas décadas atrás (tanto tempo, a partir de certo prisma... tão pouco e tão rápido, sob outro ângulo), a banda irlandesa U2 lançava oficialmente um dos melhores álbuns de sua brilhante carreira: “All That You Can´t Leave Behind” (em tradução livre marcoskirstiana: “Tudo o que você não pode deixar para trás”).

O próprio título do álbum, analisado agora, em retrospecto, frente aos fatos mundiais que estavam por vir, parecia embutir uma profecia mesclada a uma forte sensação de nostalgia por um modo de viver que, naquele exato ponto de mutação, começava a ficar definitivamente para trás. Daí a reflexão que se torna atual até os dias de hoje: o que foi que deixamos ficar para trás ao longo desse período, e que nos está fazendo tremenda falta hoje? Ahá!

Falar sobre o disco já no findar do mês subsequente ao do lançamento, 20 anos depois, pode parecer descompasso aos olhos contemporâneos, acostumados ao imediatismo e à instantaneidade conferidos pelo império do universo virtual das internets 5G e dos onipresentes (e quase onipotentes e oniscientes) iphones. Mas faz jus ao ritmo das coisas daqueles tempos, nem tão remotos assim, pois somente passadas algumas semanas do lançamento é que os fãs do mundo inteiro começavam a ter contato com a sucessão de faixas inspiradíssimas com que a banda nos brindava.

O álbum, que agora celebra seus 20 anos, trazia faixas hoje icônicas do U2, cuja eventual ausência nos setlists dos shows da banda se configura em pecado musical imperdoável. Pecado que Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. se esquivam de cometer, naturalmente.

Chancelado somente pela condição de apreciador histórico da trajetória da banda, costumo identificar em “All That You Can´t Leave Behind” um marco divisor do período em que o U2 ainda era relevante em seus trabalhos, da mesma forma como o foi nos cinco álbuns imediatamente anteriores: “Pop” (1997), “Zooropa” (1993), “Achtung Baby” (1991), “Rattle and Hum” (1988) e “The Joshua Tree” (1987). Dos quatro que vieram depois, ao longo do século XXI, pouco se pode tirar (opinião minha, aberta a contestações educadas e fraternas, já que a civilidade e o respeito são dessas coisas que jamais se pode deixar para trás).

Por isso, vale revisitar, como homenagem, o álbum que, como um todo, pode ser posto a tocar do início ao fim, pois fornece um conjunto coeso de prazer estético bem moldado. A título de degustação, SENTE O SOM de algumas das faixas:

BEAUTIFUL DAY sente o som AQUI

ELEVATION sente o som AQUI

WALK ON sente o som AQUI