Caxias do Sul 30/07/2021

Um dia dedicado ao respiro da POESIA

Data de 21 de março é considerada pela Unesco como o DIA MUNDIAL DA POESIA
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 21/03/2021 às 08:52:56
Um dia dedicado ao respiro da POESIA
Delfina Benigna da Cunha, a precursora poeta cega gaúcha
Foto: DIVULGAÇÃO

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Poesia numa hora dessas? SIM! Exatamente em horas como estas é que a humanidade precisa visceralmente de POESIA, porque ela nos torna mais humanos, e a humanidade anda carente de humanidade, ultimamente.

Em 21 de março é celebrado o DIA MUNDIAL DA POESIA, data instituída pela Conferência Geral da Unesco, em 1999, com a intenção de difundir a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da poesia no mundo. No Brasil, existe ainda o Dia Nacional da Poesia, celebrado em 31 de outubro, por lei federal, evocando a data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987).

O Brasil é berçário de inumeráveis excelentes poetas. O Rio Grande do Sul, também. Aliás, vale lembrar que a publicação de livros de literatura no estado (na época ainda província do Império) iniciou-se com POESIA saindo pela primeira vez do prelo, no ano de 1834, em Porto Alegre. Naquela data, a Tipografia de Fonseca & Cia. imprimiu um pequeno livrinho de literatura (o primeiríssimo no gênero impresso nessas terras) intitulado “Poesias Oferecidas às Senhoras Rio-Grandenses”, de autoria de Delfina Benigna da Cunha (1791 – 1857).

A literatura gaúcha nasce, portanto, no seio da POESIA (e não da prosa), pelas mãos talentosas de uma POETA MULHER (e não de um homem escritor). Mulher, poeta, pobre, solteira e cega. Delfina contraiu varíola ainda no berço e viveu sem enxergar seus 66 anos de vida. Sem enxergar as formas, as cores e as luzes, porém, dotada de ampla, profunda e sensível visão interna, que a permitia vislumbrar, como poucos, os meandros nos quais reside a poesia, e deles a trazia à luz, para o enlevo das gentes enxergantes.

O site elenca a poesia de DELFINA BENIGNA DA CUNHA para homenagear as poetas e os poetas do mundo, do Brasil, do Rio Grande do Sul e de Caxias do Sul, que nos fazem constantemente lembrar dos elementos, tanto os belos quanto os dolorosos, que nos constituem enquanto seres humanos. De sua lavra, segue um soneto:

VINTE VEZES LUA PRATEADA

(Delfina Benigna da Cunha)

“Vinte vezes a lua prateada

Inteiro rosto seu mostrado havia,

Quando terrível mal, que já sofria,

Me tornou para sempre desgraçada.

De ver o céu e o sol sendo privada,

Cresceu a par de mim a mágoa ímpia;

Desde então a mortal melancolia

Se viu em meu semblante debuxada!

Sensível coração deu-me a natura,

E a fortuna, cruel sempre comigo,

Me negou toda sorte de aventura

Nem sequer um prazer breve consigo;

Só para terminar minha amargura

Me aguarda o triste, sepulcral jazigo!”