Caxias do Sul 19/09/2020

Um delírio fugaz resgatado no túnel do tempo

Cronista caxiense Aldo Mora retratava delicada cena do cotidiano nas páginas de “A Tribuna”, 100 anos atrás
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 15/09/2020 às 15:32:38
Um delírio fugaz resgatado no túnel do tempo
Foto: Reprodução/Divulgação

Por Marcos Fernando Kirst

Não é preciso viajar muito além das fronteiras de nossa aldeia para encontrar cronistas talentosos e sensíveis que saibam revestir em poesia e graça os pequenos dramas humanos que habitam o cotidiano da cidade. Às vezes, porém, vale fazer um passeio longe no passado, mas sem sair do lugar.

É assim que deparamos com esse saboroso, sutil e delicado texto de autoria de Aldo Mora, publicado um século atrás na capa do jornal caxiense A TRIBUNA, em 13 de setembro de 1920, intitulado “Delírio”. Mora desempenhava a função de secretário no jornal dirigido por Agnello Cavalcanti, e que circulava com suas quatro páginas às segundas e quintas-feiras.

Saboreie:

DELÍRIO

(Por Aldo Mora)

Fez-me curiosidade aquela figurinha esguia, esgalga, de enferma palidez delicada que, todas as tardes, passava sob a minha janela, humilde e apressada, desatendida do ambiente, de todos.

Nem bonita, nem feia, mas um tipo invulgar, fino, sem expressão terrena, exilado do paraíso...

Fez-me curiosidade... e, ontem, como ela me aparecesse num estranho fulgor, espiritualizada mais intensamente na sua palidez enferma e delicada, decidi acompanhá-la, ansioso por saber quem era aquela criatura com quem tanto a minha sensibilidade se preocupava...

Afigurou-se-me logo uma profanação segui-la, como quem segue uma mulher qualquer que nos desperta a volúpia, mas segui-a, segui-a, como se seguisse a minha própria alma, fugitiva, para o Mistério... Um pressentimento de que ela devia ser muito infeliz sangrou-me o coração, mas segui-a, arrastado por uma força estranha, na ânsia de tudo saber, amando-a, quase...

Já a luz do sol morrera completamente, o crepúsculo, dorido, harmonioso, descia à terra desfalecida na última carícia do Astro Rei; e ela, a misteriosa criatura caminhava, caminhava, humilde e apressada, desatendida do ambiente, de todos... Eu seguia-a, guardando distância, temendo que ela me visse, que a maculasse a minha curiosidade. Eleita do Martírio eu já a via, a sagrada, e o lírio florindo num jardim encantado, longe dos olhares profanos do mundo, Única e Intangível! Sonhava em plena realidade; via-a, desfeita em luz, subir, subir ao Infinito, deixando na terra uma estranha e eterna radiosidade!

Caminhava, caminhava, humilde e apressada, desatendida do ambiente, de todos...

Afinal, quase ao termo da longa rua, ela desapareceu, numa esquina. Apressei o passo e pude vê-la ao momento em que, nervosa, abria a porta da pobre mansarda. Uma vez no interior, porta e janela fecharam-se completamente.

Cresceu-me, doentiamente, a curiosidade. Aproximei-me da casa e, logo, uma melodia suavíssima, como vinda de celeste instrumento, chegou-me aos ouvidos.

Era uma música estranha, estorcendo-se em estrangulamentos de ais, exprimindo toda a angústia humana, num ritmo bárbaro, nos estos desesperados de uma dor suprema!

E remoía alucinadamente, e enchia a sala, como um gemido, agora; violenta, arrebatada, depois...

Disseram-me, na vizinhança, que era todas as noites aquilo, que Helena, com dezoito anos e com a tuberculose, vivia ali com o seu violino, e que enlouquecera de harmonia...