Caxias do Sul 29/06/2022

A despedida de quem tinha muito a dizer

Zé do Rio morre nesta segunda-feira, deixando sua marca singular, que não pedia passagem para se expressar em qualquer ambiente público e cultural
Produzido por Marcos Fernando Kirst e Silvana Toazza, 07/03/2022 às 14:38:25
A despedida de quem tinha muito a dizer
Em 2010, Zé do Rio (esquerda) recebeu o título de Cidadão Caxiense da Câmara Municipal de Vereadores
Foto: Eloá Nespolo

Um dos personagens mais marcantes da cena cultural caxiense, José de Oliveira Luiz, 83 anos, conhecido como Zé do Rio, numa alusão à sua origem carioca, morreu nesta segunda-feira, em Portugal, onde estava morando, vítima das sequelas de um AVC hemorrágico.

Zé do Rio sai de cena de fininho, bem diferente da postura com que os moradores de Caxias do Sul eram acostumados a ver em suas aparições públicas, em que não se intimidava em fazer explanações, questionamentos e até declamar poesia em formato de crítica em eventos culturais. Sua voz forte, quase em tom de grito, se fazia notar e até surpreendia e amedrontava plateias.

Não por menos, sua figura marcante de incentivador das artes, com as facetas de ator, escritor, músico e produtor audiovisual, foi a inspiração para o curta-metragem “Deixa o Zé falar!”, lançado em 2011 pela Spaghetti Filmes, com direção de Lissandro Stallivieri. Zé do Rio mudou-se para Caxias do Sul em 1975 depois de vir à cidade para comandar um grupo de artes cênicas. Em 2010, pela sua relevante contribuição à cultura, recebeu o título de Cidadão Caxiense da Câmara Municipal de Vereadores.

Zé do Rio despede-se, deixando um legado de inquietude, de questionador e de artista multifacetado. Tinha uma vasta cultura. Deixa esposa, duas filhas e quatro netos, e quem o amasse ou questionasse. Não havia meio-termo. Zé do Rio era assim: intenso.

A seguir, o site republica uma crônica de autoria de Marcos Fernando Kirst, publicada em 2018 na imprensa caxiense. É uma singela homenagem do portal para quem soube viver de forma autêntica, deixando sua marca pessoal:

Voz a quem tem a dizer

“Cultura e alimentação saudável, sendo que, também, cultura é alimentação saudável”. O trocadilho repleto de significado, característica típica do autor da frase, é o mais recente mantra envergado por um dos mais expressivos batalhadores da cultura caxiense nas últimas décadas (que já somam quase meio século): o artista multifacetado conhecido como Zé do Rio. Nascido José de Oliveira Luiz em 21 de agosto de 1938 no Rio de Janeiro, o Zé vem vivenciando diariamente, desde dezembro do ano passado, a celebração dos seus 80 anos de vida, que culminam daqui a alguns meses, na data natalícia. A celebração da vida, segundo afirma, se dá desde o momento da concepção, que ele acredita ter sido, no seu caso, em alguma noite de dezembro, um idílio cujo resultado foi essa personalidade ímpar que vem fazendo a diferença na Serra Gaúcha desde que escolheu Caxias do Sul para viver, em 1975.

À beira de completar oito décadas de existência, Zé do Rio esbanja vitalidade física, mental, psíquica e cultural. Adepto de um estilo de vida saudável que inclui cuidados com a alimentação e também com a manutenção da saúde da mente e do espírito, o artista é o exemplo prático de que uma dieta temperada com cultura faz toda a diferença. “Envelhecer é uma sorte, é uma arte e é uma graça. Com saúde, é uma bênção”, decreta, sempre que reflete sobre a longevidade alcançada, marca que muitas vezes mede em minutos (quando a Câmara de Vereadores lhe outorgou o título de Cidadão Caxiense, em 2010, Zé do Rio, então aos 72 anos, contabilizava algo em torno de 37 milhões de minutos vividos). Minutos esses dedicados à causa da cultura, desempenhada por ele, de forma autodidata, talentosa e competente, em áreas como a publicidade, a fotografia, as relações públicas, o teatro, a escrita, a poesia...

Dono de concepções e ideias próprias, Zé do Rio não se cala e gosta de dizer em público, em alto e bom som, aquilo que pensa, exercendo na plenitude o direito inalienável de todo o ser humano de se expressar sem censura ou amarras. Quem questiona incomoda, em especial aos medíocres, que se autoprotegem por meio do artifício de tentar desmerecer os que lhes colocam o dedo na ferida. Zé é o Grilo Falante da cidade, a consciência que alguns preferem varrer para debaixo do tapete, ainda mais quando o assunto é cultura (“cultura é o saber fazer de cada um; cada um tem o seu cultivar”, reitera). Sorte da cidade que possui um Zé do Rio ativo entre seus cidadãos. Nós, aqui, ganhamos o presente de conviver com o quase octogenário Zé do Rio de Caxias. Deixa o Zé falar!