Caxias do Sul 05/12/2021

Para o resgate da arte vital de escutar

Texto de autoria de Rubem Alves reveste-se de atualidade importante nesses dias em que todos parecem estar surdos
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 24/11/2021 às 08:51:29
Para o resgate da arte vital de escutar
Escritor e psicanalista Rubem Alves (1933 - 2014) discorria sobre a necessidade de ouvir o outro
Foto: DIVULGAÇÃO

Por Marcos Fernando Kirst

A ânsia de dizer, de falar, de derramar sobre o mundo as reverberâncias de nossas verdades é o que pauta a maioria das relações sociais nos dias de hoje. Não ouvimos os outros e, por consequência, também não somos escutados.

Quando o outro detém a palavra, aguardamos ansiosamente (quando não o interrompemos) o encerramento de sua fala para enfim ventilarmos o que estávamos ávidos para dizer. Porque o que importa é o que dizemos, sem que tenhamos a sabedoria de buscar, na fala do outro, os estímulos para a reflexão e para a ressignificação daquilo que nós mesmos pensamos.

“Todos estão surdos”, já cantava o Rei Roberto, provavelmente sabendo que, ao mesmo tempo, esses surdos sociais não são nada mudos, mesmo que raramente tenham algo de proveitoso a dizer.

Para ajudar nessa reflexão, publicamos aqui o sensível e cirúrgico texto de autoria do psicanalista e escritor mineiro Rubem Alves (1933 – 2014), “A Escutatória”, lembrado e sugerido pela psicóloga florense Madeleine Ferrarini, diretora do Instituto Cultural Flávio Luis Ferrarini, de Flores da Cunha. Boa leitura, boa escuta!

A ESCUTATÓRIA

(Rubem Alves)

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as ideias estranhas). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto. Ouçamos os clamores dos famintos e dos despossuídos de humanidade que teimamos a não ver nem ouvir. É tempo de renovar, se mais não fosse, a nós mesmos e assim nos tornarmos seres humanos melhores, para o bem de cada um de nós.

É chegado o momento, não temos mais o que esperar. Ouçamos o humano que habita em cada um de nós e clama pela nossa humanidade, pela nossa solidariedade, que teima em nos falar e nos fazer ver o outro que dá sentido e é a razão do nosso existir, sem o qual não somos e jamais seremos humanos na expressão da palavra.