Caxias do Sul 23/10/2021

Dizem os boatos que é primavera!

Poema de Carlos Drummond de Andrade evoca as sensações emanadas pela mais poética estação do ano
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 26/09/2021 às 09:19:55
Dizem os boatos que é primavera!
Foto: DIVULGAÇÃO

Poetar sobre a primavera, a estação mais romântica de todas, é tentação difícil de ser evitada por quem tem a alma afeita às brisas da inspiração que ela sopra, como os poetas. Muitos foram aqueles e aquelas que se debruçaram sobre o tema, abordando a estação sob os mais variados prismas da alma.

O site escolheu a dedo este poema de Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) para representar a poesia que emana da nova estação que aos poucos vai se estabelecendo no calendário e adocicando os climas da paisagem e das almas.

A nostalgia hoje é pela crônica humana contida em um exemplo do melhor da poesia nacional.

Com vocês, o “Boato da Primavera”, de Carlos Drummond de Andrade, para saborear olhando pela janela (faça chuva ou faça sol, é primavera igual):

Boato da Primavera

(Carlos Drummond de Andrade)

Chegou a primavera? Que me contas!

Não reparei. Pois afinal de contas

nem uma flor a mais no meu jardim,

que aliás não existe, mas enfim

essa ideia de flor é tão teimosa,

que no asfalto costuma abrir a rosa

e põe na cuca menos jardinília

um jasmineiro verso de Cecília.

Como sabes, então, que ela está aí?

Foi notícia que trouxe um colibri

ou saiu em manchete no jornal?

Que boato mais bacana, mais genial,

esse da primavera? Então eu topo,

e no verso e na prosa, eis que galopo,

saio gritando a todos: Venham ver

a alma de tudo, verde, florescer!

Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.

Na hora de mentir, meu São Genaro,

é preferível a mentira boa,

que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,

e cria uma verdade provisória,

macia, mansa, meiga, meritória.

Olha tudo mudado: o passarinho

na careca do velho faz seu ninho.

O velho vira moço e na paquera

ele próprio é sinal de primavera.

Como beijam os brotos mais gostoso

ao pé do monumento de Barroso!

E todos se namoram. Tudo é amor

no Meier e na Rua do Ouvidor,

no Country, no boteco, Lapa e Urca,

à moda veneziana e à moda turca.

Os hippies, os quadrados, os reaças,

os festivos de esquerda, os boas-praças,

o mau-caráter (bom neste setembro)

e tanta gente mais que nem me lembro,

saem de primavera, e a vida é prímula

a tecnicolizar de cada rímula.

(Achaste a rima rica? Bem mais rico

é quem possui de doido-em-flor um tico.)

Já se entendem contrários, já se anula

o que antes era ódio na medula.

O gato beija o rato; o elefante

dança fora do circo, e é mais galante

entre homens e bichos e mulheres

que indagam positivos malmequeres.

E prima, é primavera. Pelo espaço,

o tempo nos vai dando aquele abraço.

E aqui termino, que termina o fato

surgido, azul, da terra do boato.