Caxias do Sul 29/06/2022

A fantasia do Natal em trama literária

As nuances do espírito natalino também não escapavam do olhar multifacetado do saudoso poeta, fotógrafo e cronista Ary Trentin
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 19/12/2021 às 09:13:36
A fantasia do Natal em trama literária
Ary Trentin, artista multifacetado, terá vida e obra resgatadas em biografia a ser lançada em 2022
Foto: ARQUIVO PESSOAL

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Ary Nicodemos Trentin (1942 – 2002) foi um poeta, cronista, fotógrafo, artista plástico e professor serrano que marcou época e gravou com relevância seu nome em todas as áreas em que atuou durante sua breve e significativa vida.

Integrou o hoje icônico grupo de então jovens poetas que, em 1967, lançou o livro “Matrícula” (juntamente com então outras promessas literárias como José Clemente Pozenato, Jayme Paviani, Oscar Bertholdo e Delmino Gritti), redefinindo, ressignificando e reposicionando a poesia produzida na Serra Gaúcha e revelando-a ao país.

Prolífico, workaholic e multitalentoso, Trentin se destacava pelo olhar artístico e poético que lançava sobre a vida, o viver e os viventes que o cercavam, transfigurando esses elementos nas artes que produzia.

Entre elas, a crônica literária publicada em jornal, como a que reproduzimos a seguir, publicada no periódico caxiense “Folha de Hoje” às vésperas de algum Natal no início da década de 1990. Uma degustação saudosista de seu estilo marcante, preparando os espíritos para a biografia do multiartista que está sendo gestada para ser lançada em 2022.

CARA FANTASIA

(Ary Nicodemos Trentin)

Pensar é bom e não custa nada. De tudo, o pensamento talvez seja o ato mais gratuito. Não ocupa espaço e o tempo é uma perspectiva incomensurável. Não há limites de nenhum tipo. É o único exercício que as pessoas podem fazer com liberdade completa. Nada impedirá alguém de pensar que a lua é quadrada ou que a luz do sol é verde.

Mas aí já se entra no campo movediço da fantasia, dirão alguns. Acho que não. Qual é o limite entre o pensamento e a fantasia? Não seria possível dizer que todo o pensamento é fantasia e que toda a fantasia é pensamento? Sem muitas confusões. De fato, o limite entre os dois não parece muito claro, se é que existe. Outros dirão: o pensamento tem lógica, a fantasia não. E esse já é um razoável divisor.

Quando falamos em ciência, estabelecemos com ela uma relação de pensamento. A ciência adquire, assim, e aparentemente, confiabilidade e respeito de peso maior. Ou melhor: conquista o status de ciência. Já quando falamos em literatura, aplicamos a ela uma estreita relação de fantasia. Isso quer significar que a ciência é produto do pensamento e a literatura, da fantasia. Trata-se de uma bobagem evidente.

É difícil encontrar uma linha divisória tão nítida, mesmo porque é possível afirmar que a ciência, quase sempre, começa como uma grande fantasia. Na verdade, para começar, a literatura precisa mais do pensamento. Evidentemente, há que ser feita, com rigor, uma avaliação da qualidade tanto do pensamento, quanto da fantasia. Aí, é outra conversa.

Estou falando de pensamento fantasia, não de fantasia versus realidade. Ou de fantasia e imaginação como polo oposto à realidade. Mesmo porque talvez seja a realidade a maior das fantasias. Mostrar isso é relativamente fácil. É só estarmos atentos ao que acontece, ao nosso redor, todos os dias.

A época fantasiosa de Natal é propícia para mostrar exemplos. Todos nós temos algumas coisas a ver com histórias de Papai Noel. O velhinho, presente nas memórias dos meus três ou quatro anos, era feio e magro. Não tinha barbas brancas e nem se vestia de vermelho. Seu rosto ficava meio escondido por um capuz marrom. Uma voz fraca, porém sibilante. Não era bonachão. É difícil um magro ser bonachão. Essa palavra está inexoravelmente destinada aos gordos. O que é um volumoso elogio, nem sempre verdadeiro. Há obesos que exercem uma tirania proporcional ao seu volume.

Meu Papai Noel de menino vinha sempre muito severo, uma vara na mão ameaçadora. Eram outros tempos, era uma infância mais doméstica. Ninguém sabia donde vinha aquele ser estranho e assustador que, uma vez por ano, inventava alguns brinquedos e, principalmente, balas e chocolates em abundância. Ele batia forte na porta. Meu pai dizia: “Entra!”. E todos nós, crianças, sentados no chão, encolhidos de medo e de expectativas, aguardávamos a chamada. Mas havia alegria e um saco de poucos presentes.

Enquanto Papai Noel permanecia na sala, o clima era tenso e escuro. O velho sempre começava por uma sessão de repreensões, ligadas a possíveis pequenos maus comportamentos, todos recentes, nada acontecido há muito tempo. Ninguém se atrevia a esboçar uma palavra. Quando muito, desenhava algum sinal de sim, com a cabeça. Rir, nem pensar. Era uma ofensa, sinal de malandragem.

Quando aquela magra fantasia ia embora, o que ficava, por um bom tempo, era um pinheirinho, singelamente enfeitado, e um pequeno presépio com um Menino Jesus todo sorridente. Essa alegria durava mais tempo e não assustava.

Hoje, os tempos são outros. A infância já não é mais tão doméstica. Tem Papai Noel em todos os cantos do planeta, fingindo uma gigantesca alegria. Virou um produto como outro qualquer.

O Papai Noel da minha infância é um pensamento, o de hoje é uma fantasia. O que mostra ser difícil estabelecer um limite entre os dois. Mas há uma diferença: pensar não custa nada. Uma fantasia pode ter um preço muito alto.