Caxias do Sul 20/04/2021

Um artista múltiplo movido a SENTIMENTO

Jonas Piccoli desdobra seu cotidiano em diversos papéis para seguir mantendo de vento em popa as bandeiras das artes e da cultura em Caxias do Sul e na região
Produzido por Marcos Fernando Kirst e Silvana Toazza, 06/04/2021 às 09:15:13
Um artista múltiplo movido a SENTIMENTO
Foto: Grupo Ueba/Divulgação

POR MARCOS FERNANDO KIRST E SILVANA TOAZZA

Dramaturgo, ator, escritor, diretor, produtor, editor... O sobrenome agregado ao nome completo de Jonas Marcel Piccoli poderia ser “ARTISTA”, assim mesmo, em letras maiúsculas, para bem representar a essência do sumo que corre pelas veias desse jovem veterano do cenário artístico e cultural de Caxias do Sul e região.

Aos 43 anos de idade, ele já avoluma um currículo de décadas dedicadas ao fazer artístico, em que se destacam mais de 50 textos dramatúrgicos encenados, sete livros publicados e muita atividade preenchendo a agenda, da manhã à noite, oito dias... ops... sete dias por semana.

Jonas inspira arte e expira arte, que compartilha em forma de produtos culturais ao seu público, formado por apreciadores de cultura de 8 a 80 anos, de 7 a 77, de 5 ou menos a 95 ou mais. Graduado em Produção Cênica, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil, ele atualmente se divide em múltiplos papéis: coordena o Centro Cultural Moinho da Cascata; dirige, junto à companheira Aline Zilli (atual secretária municipal da Cultura de Caxias do Sul), o Grupo Ueba Produtos Notáveis e é editor da Editora Ueba Ltda.

Em meio a tantas atividades, ainda encontra tempo para ler, assistir às peças teatrais dos colegas de atividade, conversar com os amigos (agora de forma online) e cozinhar, uma de suas tantas especialidades, na qual demonstra talento inconteste (atestam os amigos, público privilegiado dos sabores e temperos de suas panelas).

Protagonista em um setor da economia que foi profundamente abalado desde o início da pandemia, com as regras de distanciamento social, Jonas evoca a criatividade para seguir criando alternativas de levar o teatro, as artes e a cultura à população, não esmorecendo no front do bom combate. Afinal de contas, quem sabe, faz a hora, não espera acontecer...

Confira a entrevista exclusiva que Jonas Piccoli concedeu ao site, na seção PAPO CULT:

O que significa arte para você?

Em um contexto geral, arte é um respiro, aquilo que nos dá uma capacidade de nos diferenciarmos de todas as formas de vida. Somente o ser humano produz arte. Pois a arte é intrínseca e nata da humanidade. Talvez seja a forma mais plausível de expressar a mescla de sentimentos e emoções que nos invadem durante toda a vida. A arte nos eleva, nos faz pensar, nos faz evoluir. Nos cura e nos leva para algum lugar, mas não nos deixa impassíveis diante da vida.

Como ingressou na dramaturgia e atuando como ator?

Sempre gostei de ambos. Desde os tempos de escola, para mim, os dois sempre caminharam juntos. Amo criar histórias e cenas, logo, a dramaturgia vem de quebra com a atuação. A única diferença é o tipo de mídia que uso para escrever.

Em 1999, escrevi uma peça-empresa para a empresa em que trabalhava na época – Mutirão. A peça foi muito celebrada e convidada a apresentar várias vezes. Na época, eu tinha 19 anos e não imaginava que seria o “start” da minha carreia hoje.

Mas comecei a vislumbrar o viver de arte quando lancei minha primeira obra infanto-juvenil, “Ethel Druhn e o Segredo da Pirâmide”, em 2003, pela Editora Ueba. Na época, vendeu muito e acabei sendo convidado a lançá-lo nacionalmente na Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Praticamente na mesma época, resolvi fazer teatro mais profissional, na escola Tem Gente Teatrando. Claro que a decisão foi motivada por curiosidade, pois minha casa antiga era o local onde se instalou a escola. Então, eu queria ver como tinha ficado e achei a desculpa de fazer uma aula teste. Nunca mais parei.

Depois, as coisas foram acontecendo de forma muito fluida. Claro, por óbvio, com todas as dificuldades que encontramos em viver de arte no país, mas ressalto que, quando começamos a profissionalizar o grupo Ueba, era muito mais fácil que nos últimos tempos. Tínhamos mais efervescência cultural motivada por prêmios, festivais e grandes circulações pelo país.

Hoje, o grupo atinge uma marca de já ter se apresentado em todas as regiões do Brasil, além de outros quatro países: Chile, Venezuela, Uruguai e Itália.

Na dramaturgia, já são mais de 50 textos encenados e, na literatura, são 7 livros publicados.

Jonas (no alto do fusca) e a trupe do Ueba em cena, ao ar livre, no palco da rua (Foto: Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre)

O que você precisa para criar?

Sentimento. Sejam quais forem. Às vezes, raivosos e indignativos com algo; às vezes, amorosos e carinhosos. Independentemente do lado da moeda em que estão, são sentimentos que sempre me motivam.

Como o Moinho da Cascata tem conseguido se manter durante o longo período de pandemia?

Com muito esforço e apoio de várias formas. Tanto da proprietária do espaço, que nos foi muito gentil em amenizar o aluguel, quanto em relação aos colaboradores e administração, que reduziram seus ganhos, porém, se mantiveram firmes e fortes, assim como a administração, que também reduziu e cortou gastos. Outro motivo foram os prêmios de auxílio que vieram para a área da cultura, pois recebemos a ajuda de espaços culturais advindos da Lei Aldir Blanc na esfera municipal, e podemos equipar o espaço com recursos advindos da premiação da esfera estadual.

Criatividade nem sempre garante saúde financeira. Como equalizar arte e negócios?

Muito complexa essa questão. Acredito que já devem ter feito teses de mestrado referentes a isso. Pois viver de arte implica em equalizar seu fazer artístico com a possibilidade de viver dela. Sempre quando essa questão vem à tona, lembro do diretor e dramaturgo Bertold Brecht, que, quando se refere à arte, tem duas frases bem polêmicas no meio, mas que me causam uma grande reflexão:

“A arte, quando é boa, é sempre entretenimento”.

Bem – aí entramos na seara sobre o que é uma boa arte? Bueno, para mim, a arte que eu produzo, que as pessoas pagam ingresso e recomendam, é uma boa arte. Já tive espetáculos em que o público não se agradou muito, logo, não eram boa arte. E não devo tentar empurrar goela abaixo aquilo que o público não gosta, sabendo direcionar o material para o público com que quero falar. Sendo ele infantil, adulto, politizado ou não.

E a outra frase que me move é:

“A grande arte exige amor e ódio”.

Acho que é esse o sentimento. Não podemos viver só de amor, assim como de ódio. A equalização, o caminho do meio, sempre é uma opção que nos conduz mais rápido ao destino que buscamos.

Qual a expectativa em relação à retomada do setor?

Atualmente, é muito baixa. O tempo de efervescência cultural que já vivi, acredito que vai demorar muito para ser retomado. A cultura sempre teve um investimento baixíssimo, logo, quando há escassez no mercado, o investimento praticamente zera. Noto que as iniciativas locais serão a base de investimento. Pequenos teatros, escritores autônomos, esses têm uma chance bem maior de retomada, pois podem gerar sua renda, por óbvio, de maneira nada fácil, mas com mais chances do que grupos grandes que estavam pautados em grande circulações, nas quais tiravam seu sustento, assim como grande editoras.

Quanto ao fazer local, também vejo, não para este ano, um potencial em escolas e teatro de rua. Assim como casas e bares, quando a população se sentir segura, vai dar muito valor para eventos, para o “sair de casa”, então, vejo aí a retomada do setor.

Quais os grandes projetos dos quais se orgulha em sua carreira?

É difícil para mim responder, pois, como todo pai, acho lindos todos os meus “filhos”. Mas acho que dá para destacar alguns trabalhos que, para mim, apontam “o caminho certo” na aceitação do público. Um eles é o espetáculo e o livro “As Aventuras do Fusca a Vela”, que nos deu projeção nacional. O projeto de assumir e desenvolver o Centro Cultural Moinho da Cascata, que nos possibilitou trazer arte para esse lado da cidade, assim como receber e abrigar diversos grupos teatrais que não tinham sede, e hoje se prepara para mais um salto com a aquisição de materiais novos para a qualificação do teatro.

E várias peças, feitas “fora da caixa cênica convencional”, como “Vivita, a Noiva do Sol”, em que podemos utilizar todo o espaço do Moinho; “Fábulas do Sul”, em que trouxemos as lendas encenadas junto com teatro de objetos e um cavalo mecânico, além da simplicidade dos palhaços Zão e Zoraida, que nos levaram para todo o Brasil e Europa.

Quais os planos que pretende tirar da gaveta no horizonte?

Um espetáculo pronto, para teatro de rua, que questiona a ação do tempo tanto para a vida quanto para a arte; outro livro infanto-juvenil que fala da visão de duas crianças sobre o mundo adulto.

Que conselhos daria a outros artistas inseguros com o momento?

Resistência. Resistir, sempre! Já passamos, ao longo desses quase 20 anos de existência, por diversas crises. Essa é a pior de todas, porém, no futuro, espero que muito breve, seremos indispensáveis para trazer a alegria, o orgulho, o pertencimento de volta.

Jonas Piccoli: força vital movida pela dedicação diuturna às artes e à cultura (Foto: Grupo Ueba)

O que te move?

A arte me move. Cada passo é pautado pelo próximo projeto. Preciso ter uma obra nova no horizonte. Sendo um espetáculo, sendo um livro. Pois o simples fato de querer colocar isso para o mundo, mostra que ainda sou capaz de me indignar e amar algo.

O que te incomoda?

A prepotência. Aqueles que, independentemente de lado, se vestem de seu conhecimento e se acham superiores a todos. Odeio pessoas que buscam “serem superiores” a outro. Isso afasta, isso destrói qualquer movimento. Somos cegos vagando, fazendo uma alusão a Saramago. Não temos certeza de nada, aliás, nossa única certeza é a morte, então, para que fazer esse caminho até ela de forma amarga e ressentida? Pelo bem, pelo acolhimento, conseguimos muito mais convencer do que pelo rancor.

Jonas por Jonas...

Meu pai tinha 90 anos e, quando ele entrava em um elevador com espelho, ele sempre brincava comigo dizendo: “quem é esse velho aí do teu lado?”. Realmente, ele não se via velho. E hoje noto que vou pelo mesmo caminho. Às vezes, tenho 10 anos, olhando para o mundo com olhos de menino; às vezes, tenho 20 anos, olhando para o mundo com a rebeldia jovem, mas não me sinto mais velho com isso. As rugas e os cabelos brancos que hoje começam a habitar meu corpo fazem parte do envelhecimento celular. Meu pensar nunca envelheceu, ele só adquire experiência. Mas continuou o jovem que quer contar histórias, viajar, discutir e festejar esse caminho curto de existência que temos.