Caxias do Sul 30/10/2020

O último dos MOICANOS MUSICAIS

À frente da loja “Discoteka”, Chico Zottis não deixa morrer a trilha sonora dos amantes da música em CD e LP
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 10/10/2020 às 16:14:46
O último dos MOICANOS MUSICAIS
Francisco Zottis, o Chico, mantém-se fiel à sua paixão pela música há décadas
Foto: Milton Grando

POR MARCO FERNANDO KIRST

Sair de casa e cruzar as ruas da cidade rumo à meca local que disponibiliza para venda os álbuns das suas bandas e cantores preferidos era um ritual que mobilizava legiões de apaixonados por música no mundo inteiro... até o final do século passado.

Com o advento do streaming e da música disponibilizada em formato digital, as plataformas físicas de mídia foram caindo em desuso e as lojas de discos foram fechando as portas, relegando ao passado um tradicional ponto de encontro entre pessoas com interesses afins.

O vinil se transformou em peça de museu (apesar de um incipiente movimento de retomada, mesmo assim, restrito a poucos saudosistas); as fitas K-7 restaram esquecidas dentro dos aparelhos de som dos Chevettes, Opalas e Passats; os CDs riscaram e pulam, desmentindo a propaganda da indústria fonográfica na época de seu surgimento. E os lojistas, para sobreviver, precisaram se reinventar, o que, na quase totalidade dos casos, significou simplesmente fechar as portas e migrar para algum outro ramo de negócio.

Mas há os estoicos! Felizmente, sempre existem os estoicos, os românticos, os apaixonados passionais que, tal qual um Dom Quixote empunhando sua lança contra indefectíveis moinhos de vento, miram a agulha e os feixes de laser contra a ditadura do tempo e do destino e seguem firmes com as portas abertas de suas raras, raríssimas lojinhas vendedoras de LPs e CDs, teimosamente atendendo a um público fiel, que mingua a olhos (e ouvidos) vistos.

Em Caxias do Sul, esse último bastião (ou um dos últimos, em termos de estabelecimento voltado exclusivamente à venda de discos) que acolhe os raros moicanos ainda compradores de música em mídia física localiza-se no centro da cidade, na sala 5 da Galeria Central, com acesso pela rua Os Dezoito do Forte, 1929.

Com as portas abertas desde 2016, a “Discoteka” segue fazendo brilhar os olhos (e retumbar os ouvidos) dos clientes que ingressam no pequeno estabelecimento dispostos a se dedicar ao ato de dedilhar as filas de LPs e CDs em busca de surpresas que precisem ir para suas casas engordar as coleções e inundar com boa música os ambientes e os espíritos.

Quem entra ali é atendido pelo sempre solícito e bem informado proprietário, Francisco Zottis, o Chico, que acumula décadas de experiência e de carreira enquanto lojista de música. Natural de Nova Bassano, onde nasceu há 54 anos, construiu sua carreira profissional sempre girando em torno de sua paixão pelo universo musical.

Antes de migrar para Caxias do Sul (o que fez em 1984), Chico tinha uma empresa de sonorização de festas e eventos que animava o lazer da juventude em Nova Bassano e cidades da região.

Quando decidiu mudar-se de mala, cuia, toca-discos e álbuns para Caxias, passou a trabalhar na loja Discomania, situada na rua Dr. Montaury, nas proximidades do antigo Cine Ópera. Ficou ali por cinco anos e abriu a loja Virtual Music no Shopping Prataviera. O mercado era tão favorável que inaugurou uma filial no Shopping Iguatemi em 1996.

O advento do novo milênio trouxe o arranhão fatal nas faixas de seu negócio e Chico fechou, primeiro, a filial do Iguatemi, em 2012, e, por fim, a matriz no Prataviera, em 2015. Mas como a trilha sonora só se encerra quando o disco acaba, Chico segue amplificando a sua paixão à frente da Discoteka, sempre à espera dos velhos e novos clientes.

Ao site, Chico Zottis concedeu entrevista exclusiva que você confere a seguir:

Como começou essa sua paixão pelo universo da música?

A paixão pela música foi surgindo naturalmente ao frequentar festas. Ficava admirado ao ver DJ´s sonorizando ambientes lotados. Daí surgiu a ideia, juntamente com amigos, de criar uma equipe de som, chamada “Raízes”, realizando eventos em toda a região de Nova Bassano.

O que motivou sua vinda a Caxias do Sul, na década de 1980, para colocar loja de discos?

A vinda para Caxias do Sul foi motivada pela busca de aprendizado. Ao mesmo tempo, comecei a trabalhar na loja “Discomania”, o que me deixou muito feliz em poder conciliar estudos e trabalho na área da música.

Como avalia a mudança que vem ocorrendo nesse mercado da venda de plataformas físicas para o consumo de música (vinil, fitas K-7, CDs e DVDs)?

O surgimento de aparelhos copiadores de CDs fez com que o produto fosse pirateado em larga escala. E não se tratava mais das fitas caseiras, que eram feitas para os amigos. Era uma produção exponencial, perdendo o charme de se ter o produto físico. Acredito que, hoje, a culpa por essa mudança é da indústria fonográfica, que preferiu investir nas plataformas de streaming, que permitem ter tudo à disposição quando o ouvinte quiser, sem ocupar espaço físico.

Que alterações você percebe no perfil do público que compra música?

Temos dois públicos bem distintos. O primeiro está na faixa etária de 40 anos, que tem alguma dificuldade de se adaptar à nova tecnologia. O segundo são os fãs de determinada banda, que preferem o formato físico ao download ou streaming.

O que o motiva a prosseguir nesse mercado?

Acredito que a paixão pela música e o gosto pelo atendimento presencial são os fatores que me fazem prosseguir.

Que tipo de música (bandas, gênero, cantores) é mais procurado em sua loja hoje?

Hoje em dia temos o público que gosta da música gaúcha e sertaneja raiz e o público fiel ao rock. Esses gêneros são os mais procurados atualmente.

O que você escuta? Quais seus artistas e gêneros preferidos?

Eu particularmente aprecio o estilo pop rock nacional e internacional.

Fotos de Milton Grando