Caxias do Sul 18/05/2021

Inspiração e trabalho criam matizes na palheta de um artista das tintas

Aquarelista caxiense ANTONIO GIACOMIN analisa o papel das artes frente a um mundo lutando contra uma pandemia
Produzido por Silvana Toazza e Marcos Fernando Kirst, 21/04/2021 às 13:01:01
Inspiração e trabalho criam matizes na palheta de um artista das tintas
Premiado artista visual Antonio Giacomin tem obras reconhecidas em vários países
Foto: Fotógrafo Eriel Giotti

POR SILVANA TOAZZA E MARCOS FERNANDO KIRST

Um cronista das tintas. Essa é apenas uma entre as múltiplas formas como pode ser apresentado o artista visual caxiense Antonio Julio Giacomin, conhecido em toda a Serra Gaúcha e além-fronteiras (internacionais, inclusive) por seu talento na administração das tintas para a produção de aquarelas impressionantes, dotadas de vida, cor e sensibilidade, frutos de seu olhar singular sobre a vida e o mundo.

A assinatura de Giacomin tem conquistado várias partes do mundo, endossando telas que versam sobre temas variados, universais, com especial destaque para as coisas que remetem às especificidades da Serra Gaúcha. Dedicado exclusivamente ao fazer artístico, que se transformou em sua forma de viver nos últimos dez anos, Giacomin cultiva ideias e compreensões bem definidas sobre o papel e o lugar da Arte em sua vida, na comunidade em que atua e no planeta.

Conheça um pouco de sua biografia, seu talento e seus pensares nas pinceladas que ele concedeu ao site na entrevista a seguir:

Dê umas rápidas pinceladas no início de sua história profissional?

O sonho adolescente de ser designer de produtos acabou não se concretizando por dois motivos: primeiro, por não ter suporte financeiro para investir em matrizes para as criações e, segundo, pela falta de parcerias para investir nas ideias da época.

A arte estava presente como hobby ou passatempo e andava em paralelo com o trabalho de desenhista de arquitetura. Com a experiência na área de design de móveis e formação em desenho técnico arquitetônico, trabalhei alguns anos em uma construtora, com arquitetos e engenheiros. Depois desse período, atuei como designer de interiores por 25 anos e há dez anos venho trabalhando como artista full time.

Temas universais ganham vida e cor nas telas de Giacomin (Foto de Eriel Giotti)

Como começou a pintar aquarelas?

As primeiras pinceladas em aquarela nasceram ainda na escola do Senai, quando coloria alguns dos desenhos que fazia com o anil com que minha mãe lavava as roupas e com sobras de café solúvel. Eram aguadas de uma simplicidade extrema, porém, muito importantes para a minha vida artística, pois foi em 1980 que iniciei a pintura em acrílico sobre tela, mesmo que de forma tímida. Dois anos depois, surgiu a aquarela com tintas específicas, o início daquilo que seria a minha grande produção e manteria a chama dos meus sonhos acesa. Ela veio por necessidade de colorir os projetos que detalhava juntamente com arquitetos e engenheiros. A partir daquele momento eu vi que, além de colorir os projetos elaborados por outros profissionais, podia embarcar numa nova viagem na criação dos meus próprios temas, que vivem e se fazem presentes nas exposições temáticas até o presente momento.

É técnica ou dom?

Acho que as duas coisas andam juntas. Valorizo muito o que Deus me deu e acho que pude agregar um pouco da técnica que o mundo colocou à minha disposição.

É trabalho ou inspiração?

As duas andam concomitantes. Quando você se dispõe a fazer aquilo que mais gosta na vida, as duas fórmulas se entrelaçam e formam a fluidez que a arte deve ter, ora com mais inspiração, ora com mais trabalho, mas sempre equilibrando o resultado para o trabalho final ter mais sensatez e trazer um pouco do lado lúdico que a arte deve ter.

Quais elementos servem de inspiração para o seu trabalho?

Situações e objetos que passam desapercebidos, em geral, pelo ser humano, podem resultar em grandes produções e podem dar vida a aquilo que o mundo não daria a menor importância e serventia. Através desses elementos, que vão desde tonéis enferrujados, uma cerca caída, uma porta velha e desgastada com o tempo, a sombra de uma bicicleta apoiada em uma parede, uma grande metrópole com engarrafamento de automóveis e um céu encarvoado de neblina, pode surgir um grande fomento para o meu olhar. A partir desses elementos insólitos e inóspitos, começo o processo de transformação ao meu modo, em que a criação do belo imaginário resultará em grandes obras de arte que ganham vida e diálogo para quem adquirir a criação em forma de aquarela ou acrílico sobre tela.

Em quais países já expôs?

Chile, Argentina, México, Portugal, Espanha, França, Itália, Canadá, China e Alemanha.

Qual (ou quais) o prêmio ou o trabalho de que mais se orgulha?

As duas obras que mais marcaram foi uma aquarela para a bienal de 1998, obra selecionada para o Museu de Aquarela da Cidade do México. E a outra foi a bienal de Fabriano, na Itália, em 2016.

Como o mercado da Serra recebe a questão artística?

Apesar do momento em que vivemos, está em crescimento lento, porém, vejo que a nova geração de jovens executivos que viajam pelo mundo volta com outro olhar sobre a arte e cultura. Sendo assim, as portas da oportunidade estão abertas para o artista mostrar todo o seu talento, buscando uma forma de se vender ao mercado consumidor.

Qual o tipo de público para as suas telas? Há colecionadores? E de onde são?

O tipo de público é quem gosta da minha arte, especificamente em aquarela e acrílico sobre tela.

Sim, já temos colecionadores, são da Serra Gaúcha, de outros estados brasileiros e, principalmente, os asiáticos.

Em que projeto está empregando tintas, telas e talento, no momento?

Com o cancelamento ou adiamento de quase todos os eventos externos e internos, vieram oportunidades como: encomendas especiais, ilustrações de livros, trabalhos especiais para complementar o setor de marketing ou aniversários de empresas e, mais recentemente, trabalhando na criação de vídeos para alimentar as mídias sociais e, também, vídeos online pagos para quem quiser aprender a pintar aquarela.

Quem quiser conhecer sua obra, como deve proceder?

Em época de pandemia, estamos atendendo com agendamento para garantir total segurança. Basta entrar em contato pelo nosso telefone/whatsapp: (54) 99106-6711.

É importante ressaltar que estamos tomando todos os cuidados necessários para a prevenção da Covid-19.

Um desejo ainda não realizado?

Que a arte e o artista tenham de fato o valor que merecem e reconhecimento na sua própria cidade e país.

De que forma a pandemia impactou o seu trabalho?

Acredito ter sido uma provação para toda a humanidade. De fato, a pandemia nos deu uma rasteira e tanto, haja vista que, na arte, estamos no final da cadeia do consumo, mas o que mais nos afetou foi a falta de investimento no setor, ou seja, falta de dinheiro em caixa.

As exposições, workshops e encontros com artistas fora do país foram adiadas. Em 2020, tinha a programação para o lançamento de um livro didático/técnico editado em inglês e chinês, com lançamento na China... foi adiado. Três exposições em Caxias do Sul e mais três lançamentos de livros nos quais fiz as ilustrações, também foram cancelados. Workshops mensais no atelier e os demais fora da cidade, todos cancelados. Visitas a escolas para divulgação de livros e demonstrações em desenho e pintura, cancelados. Ações voluntárias, canceladas.

Materiais artísticos, principalmente os de aquarela, em que não temos nada produzido no Brasil, muitos dos quais em falta! Imagina com a cotação do dólar e euro nas alturas, como fica a situação.

Foi preciso se reinventar frente a esse quadro?

Como quase todos os setores, de uma forma geral, tivemos de aprender a viver com pouco e fazer uma reengenharia do modo de vida e de trabalho. Aliás, a produção durante a pandemia rendeu uma exposição que se encontra à disposição na galeria, denominada “Pintando Fora da Caixa”. Essa produção partiu da possível falta de material. A ideia foi repensar algumas das obras que, segundo minha percepção, não estavam boas. Então, resolvi cortar a folha ao meio e virar do outro lado, assim, iniciaria um novo processo de três pequenos formatos, que renderam aproximadamente 600 aquarelas. Criei, assim, formatos menores para contemplar todos os públicos, com valor de venda muito mais acessível e, ao mesmo, contemplando a possibilidade de a pessoa possuir uma obra original do artista.

Outros fatores que a pandemia colocou foi a necessidade de implantar uma página de e-commerce, ou loja virtual, propiciando assim a oportunidade de mais pessoas adquirirem obras de arte sem saírem de casa e, também, estabelecer um contato mais estreito por meio das mídias sociais, mesmo sabendo que, não estando frente a frente com o cliente e próximos às obras de arte, foi uma forma de estar presente na casa do cliente e mantendo a distância social recomendada.

No atelier, a inspiração do que foi visto e vivido se pereniza nas telas (Foto de Eriel Giotti)

Como vê a retomada do setor?

Lenta, sem uma perspectiva promissora, porém, com a grande demanda de reformas em residências, mudanças em setores corporativos, veio a oportunidade de valorizar a arte e o ‘feito no Brasil’ e, quem sabe, a ‘prata da casa’. Esse é o momento de estarmos preparados e atualizados para oferecer ao cliente novas possibilidades, novos formatos e experiências inovadoras, atendendo à necessidade do momento em que vivemos. Esta é, de fato, uma experiência mundial.

Um arrependimento...

Sem arrependimentos, tudo é aprendizado!

Um orgulho...

Fazer o que mais gosto na vida. Trabalhar com dedicação, com sentimento e saber que o admirador/comprador vai dar sequência aos cuidados, ao diálogo e respeito que toda obra de arte merece e enriquecendo cada vez mais a história da humanidade, ou seja, fazer com que se sinta parte da vida do artista.

Ser artista é...

Ser artista é ser tudo o que você quiser realmente ser! É, antes de tudo, ser um humano com vocação poética e alma sensorial e descobrir os prazeres que essa profissão te propicia.

É também descobrir o que mais gosta de fazer e ser feliz, pois estar num lugar que amamos merece estar emoldurado com criações artísticas e, de preferência, personalizadas. Rodeado com esse conceito, certamente seremos pessoas mais felizes.