Caxias do Sul 27/05/2022

Tiago é livre, livreiro e livrariano

Aos 29 anos, o livreiro caxiense Tiago Meira sabe que a leitura literária é um braço erguido contra a passividade, a sujeição e o adestramento
Produzido por Marcos Mantovani, 09/05/2022 às 09:14:17
Tiago é livre, livreiro e livrariano
Foto: Marcos Mantovani

Por Marcos Mantovani

Antes de começar a viver com a introspecção dos livros, Tiago viveu com duas baquetas, uma bateria e muita extroversão sonora. Rock progressivo, The Doors, Mutantes. Ele se mostrava como músico e, com as bandas Tom Pastel e Jardim Cósmico, chegou até a compor algumas letras.

Só que esse tipo de letra não vingou por muito tempo. Elas falavam alto demais, impunham-se no grito, algo que passou a incomodar de leve o baterista Tiago. Na época, ele não soube explicar essa sensação aos outros integrantes da banda. Não soube explicar nem para si mesmo.

As letras tocadas estavam cedendo território às letras lidas. Em silêncio, na privacidade do tempo livre, Tiago se aproximou mais da leitura literária. Ia ao encontro de paisagens mentais que lhe permitiam trânsitos fazedores de personalidade, trânsitos cujas ruas não podiam ser acessadas nem pela música nem pelo cinema nem pelas trocas sociais.

Até que o pacto enfim foi selado. Aconteceu no bairro Kayser, dentro do ônibus, num início de noite em que Tiago estava chegando à sua parada. Sentado, ele terminou a última página do livro 1984 e, quando girou o olhar para a janela, notou que a realidade era mais complexa do que diziam, mais fragmentada, mais triste. Naquela hora, o baterista virou fotografia e o futuro livreiro mandou um sinal de fumaça.

cuecas, demissão, atitude

Tiago não iniciou a sua vida profissional como livreiro. Aos 17 anos, a primeira experiência foi um estágio de auxiliar de faturamento numa indústria de cuecas, o que lhe rendia uma ajuda financeira e algumas peças íntimas de graça. “Pode rir”, ele diz.

Logo depois, foi auxiliar de controle de qualidade numa empresa em que um dos seus irmãos trabalhava – Tiago foi setorizado para ser ajudante do irmão. Mas pediu demissão após três meses, já que trabalhar em família é uma arte à qual nem todos têm acesso. Valeu pelo aprendizado e pela tomada de consciência daquilo que Tiago não queria.

A idade adulta abrindo a porta e com ela a dúvida sobre a carreira. Nesse meio-tempo, ele havia começado a cursar História, sem convicção de que essa escolha seria realmente o seu futuro. Até que um dia uma amiga disse que iria entregar o currículo no sebo Só Ler. Tiago achou bonito, marcou uma reunião privada consigo mesmo e acabou tomando uma atitude idêntica, só que em outra livraria: O Colecionador.

50%, mediação, sci-fi

A vaga na livraria O Colecionador deu a Tiago aquilo que muitas pessoas passam a vida toda sem conseguir alcançar: identificação e prazer. A função, o ambiente e os chefes eram bons, particularidades que fizeram com que Tiago permanecesse oito anos lá, sem desconfiar ainda que, como livreiro, ele havia explorado só 50% do próprio potencial.

Os outros 50% iniciaram o encaixe em fevereiro de 2021, quando Tiago se inseriu na Do Arco da Velha Livraria & Café. Ali, mais do que vender livros, ele passou a oferecer histórias, uns oferecimentos que hoje Tiago faz sem ser intrusivo nas preferências de quem pede ajuda — ele é um mediador, um contextualizador de autores, de atmosferas, de gêneros literários.

Livre, livreiro e livrariano. Uma livronice que levou Tiago a criar o podcast de ficção científica chamado @vivascifi, cujo objetivo é sacudir um pouco o cânone da science fiction e abrir espaço para autores mais laterais desse gênero literário, “que na verdade não trata do futuro, mas sim do presente”, ele diz, talvez se referindo à equivalência entre o livro 1984 e a distopia real do agora.

misturas

Tiago também é japonês, russo e latino-americano.

Japonês por causa de Murakami, cujos livros (sobretudo Kafka à beira-mar) entregam a Tiago um híbrido de realismo e surrealismo, que, no fundo, bate com o que existe na vida de todos nós, essas parcelas misturadas de concretude e miragem, de factualidade e devaneio.

Tiago é russo devido a Dostoiévski, especialmente por Crime e Castigo, que aturdiu, bagunçou e depois abasteceu a sua cabeça. É russo também porque estuda a língua russa e porque admira a cultura de lá, que é bem maior e mais poderosa do que o homem Vladimir Putin.

Tiago é latino-americano graças (1) à sua tatuagem “soy América Latina: um pueblo sin piernas pero que camina” e (2) à sua admiração por Che Guevara, que, além dos atributos tão conhecidos, foi um leitor exigente e constante, descoberta que Tiago fez no curso de Letras da Unisinos, sua faculdade atual.

Em novembro, junto com esses eus agregados, Tiago fará 10 anos como livreiro, como partidário do livrismo — haverá abraços presenciais e abraços online, haverá bolo, mas nada tão fundo quanto o olhar de autoparabenização que Tiago dará em privacidade ao espelho, uns olhos meio verdes que, discretamente, levam nas pupilas milhares de páginas já lidas.