Caxias do Sul 14/06/2026

O peso e a voz do ponto final

O legado passional das escritoras que decidiram colocar um ponto final em suas vidas
Produzido por Marilia Frosi Galvão, 14/06/2026 às 10:53:56
O peso e a voz do ponto final
Leitura das obras de duas grandes autoras universais unidas pelo mesmo destino ressignificam o viver
Foto: Marilia Frosi Galvão

POR MARILIA FROSI GALVÃO

Ventos de outono me empurram para dentro de casa. E para dentro de mim, sou a minha casa. Ler torna-se a melhor opção para esse aconchego. Pois, nem sempre vivemos a vida que sonhamos. Pela leitura, vivemos outras vidas. Aprendemos sobre felicidades e dores vividas por outros, as quais podem ser as nossas.

Assim, me emocionam as escritoras que escrevem em estado de paixão. Que partilham as experiências vividas, com verdades subjetivas, inexatas, posto que humanas. E, nesse reino de ambiguidades... clandestinamente... eu, como leitora enxerida, mergulho em obras literárias e biografias. Detecto sinais (expressos ou não) que sejam pistas, os possíveis motivos que fizeram escritoras de renome dar um fim às suas próprias vidas: Virginia Woolf e Sylvia Plath.

Imagino que elas tenham decidido: “Vim até aqui!” Esta pequena frase poderia ser um microconto – ou – o muito dito em poucas palavras – dá ao ouvinte ou leitor a liberdade de imaginar o que aconteceu antes do final abrupto – não há um depois. “vim até aqui!” – o aqui seria o “antes” do ato final.

Sem julgamentos. Elas sofriam pela depressão. Isso é muito sério. É doença – uma combinação complexa de fatores. Ninguém gosta de estar triste persistentemente, de perder o interesse pela vida e ter falta de energia. Desesperança. Não, não é sinal de fraqueza. O sofrimento psíquico desestabiliza a mente e o corpo.

Nesse viés, faço uma provocação: quem nunca pensou, em momentos loucos, em pôr um fim a tudo? Entrego ao meu leitor – eu pensei... por pura imaginação, supondo, se não houvesse outra saída e fosse “obrigada a...”, como faria? Nessa entrega, na desistência do “Vim até aqui!”, estou no “continuo aqui”. Mas uma dúvida me persegue – sem resposta. É sinal de coragem ou covardia encarar o “Vim até aqui!”?

Enquanto meu leitor pondera sobre isso, dirijo meu olhar para a obra dessas escritoras – Virginia Woolf e Sylvia Plath – dignas de serem lidas e apreciadas em seu potencial enorme. São obras que romperam as barreiras do tempo, ainda tocam os espíritos de quem as lê, especialmente nos dias de hoje, a despeito das tantas futilidades expostas em redes sociais, Internet e outras. Expresso minha fidelidade incondicional a essas leituras clássicas.

De forma honesta, confidencio aos meus leitores as emoções e os sentimentos aflorados em meu ser - em meu mundo feminino - pela escrita delas.

Virginia Woolf

Leio Virginia como quem incorpora o espírito do Tempo – há anos me conecto com os pensamentos e sentimentos desta época (final do século XIX e primeira metade do século XX) – a da Virginia Woolf – nascida em 1882 – na Inglaterra. Deixou um riquíssimo legado literário. Essa escritora surpreendeu-me a cada obra lida: romances, ensaios, contos, artigos, diários, cartas... escritos de uma forma intimista, que me cativou. Como mulher e leitora, me reconheço em alguns aspectos da obra de Virginia.

Além disso, muitas das questões da abordagem de Virginia ainda palpitam em nossos dias. Ela defendia o espaço e o sossego necessários para a escritora concentrar-se – “Um teto todo seu” – publicado em 1929 – ensaístico – discute o respeito desse espaço em um universo dominado por homens. A escritora propõe uma hipótese: se Shakespeare tivesse tido uma irmã de igual talento, teriam os dois as mesmas possibilidades de trabalhar com seu potencial criativo? Ah, pois, nos dias de hoje, as grandes editoras têm um maior número de publicações de escritores masculinos, embora tenhamos escritoras ótimas fazendo sucesso. Então, a tese de Virginia ainda ecoa na atualidade. Há diferenças, sim.

“Mrs. Dalloway” foi o seu segundo romance – publicado em 1925. Uma obra de arte emocionante e revolucionária. Na leitura desse livro, vivi, em minha mente, outra vida: a vida de Clarissa Dalloway. A ação se passa em um dia apenas. Inicia quando Clarissa sai de casa para comprar flores – daria uma festa em sua casa à noite. Sutilmente, de uma forma introspectiva, a narrativa segue dando ênfase a aspectos psíquicos – percepções – memórias e sensações vivenciadas pela personagem de um modo intenso. Em um tempo não cronológico, mas psicológico, acompanhamos Clarissa pelas ruas de Londres – com o surgimento de outros personagens e somos levados a acompanhar o que se chama “fluxo de consciência” – tão presente na obra de Virginia. Ficamos reféns dos pensamentos e lembranças de Clarissa Dalloway – de sua infância e adolescência. De suas dores – dilemas – e até remorsos. Impossível não constatar – ah, eu também – ah, que bacana – ah – e agora?

Esse fluxo de pensamentos acontece conosco o tempo todo. Comigo, pelo menos, por vezes, gostaria de parar de pensar... ao menos por... alguns segundos... ahh !!

As Horas foi o título provisório que a Virginia havia dado antes de formalizar o definitivo Mrs. Dalloway. E o gênio do escritor Michael Cunningham inspirou o livro intitulado As Horas – ou – o mundo de Mrs. Dalloway, porém, situado no final do século XX. Muito interessante. Essa obra excepcional recebeu vários prêmios, inclusive o Pulitzer de 1999.

O suicídio da escritora – cena inaugural desse livro, logo se revela um mistério a ser revelado em destinos cruzados entre a própria Virginia e duas personagens fictícias: Clarissa Vaughn e Laura Brown – mas que são marcadas em suas vidas de alguma forma pelo romance Mrs. Dalloway na história concebida por Cunningham. Uma trama paralela de um dia na vida dessas três mulheres. Sem dúvida, foi um grande filme também na arte do cinema – The Hours – As Horas – de 2002 com elenco de primeira linha: Meryl Streep – Julianne Moore e Nicole Kidman (premiada com o Oscar de melhor atriz – interpretou Virginia).

Não foi fácil me aproximar de Virginia. Ela ousou a experimentação em seus textos, Ler Virginia não é um trajeto linear, há avanços lentos, surgem dúvidas, precisei fazer releituras e pausas, porém, o que ela dividiu com as mulheres que a ouviram (e comigo, ahhh) atinge os recessos da alma e ali permanece.

Infelizmente para o mundo literário, no dia 28 de março de 1941... ao encher os bolsos com pedras e adentrar no Rio Ouse, próximo à sua casa, em Sussex, na Inglaterra, foi seu modo de sair da vida. Ela decidiu e o fez – “Vim até aqui”, aos 59 anos de idade.

Sylvia Plath

Sylvia Plath – (1932-1963) foi uma das poetas mais aclamadas do século XX – cuja obra é composta sobretudo por poemas, mas também por contos, crônicas, correspondências, desenhos e um vasto diário. Norte-americana, nascida em Massachusetts. Foi casada com o também poeta Ted Hughes, considerado pela crítica um dos melhores poetas de sua geração. Com ele teve dois filhos. Sylvia Plath se suicidou aos trinta anos em Londres.

Sylvia admirava profundamente Virginia Woolf. Considerava-a uma grande mentora literária e uma de suas maiores inspirações. “Sinto minha vida ligada a ela, de alguma forma”. Para ela, Virginia era uma alma gêmea. Virginia não a conheceu, porque as publicações de Sylvia só foram efetuadas após a sua morte.

Quando Virginia morreu, em 1941, Sylvia tinha apenas nove anos de idade, e começou a escrever diários e memórias aos onze anos de idade, manteve essa prática até morrer, aos trinta. Pensando bem, escrever diários é um constante exercício de disciplina, aprimoramento de estilo e também terapêutico. “É impossível ‘capturar a vida’ se a gente não mantém diários.” Tanto concordo, que até estou registrando “coisas”.

Pois, li, recentemente, Os Diários de Sylvia Plath – de 1950 a 1962.

Embora haja muito a desvendar, essa leitura deixou-me pasma diante do tanto que ela deixou na escrita, em tão pouco tempo de vida.

Pelos Diários, acompanhei os seus anos de universitária no Smith College, em Massachusetts, depois em Newnham, em Cambridge, o casamento com Ted Hughes e dois anos de sua vida como professora na Nova Inglaterra.

Sylvia é poesia o tempo todo. Para se ter uma ideia, os Diários, embora escritos em prosa, em linguagem aparentemente informal e intimista, são um deleite para o leitor sensível:

“A baía de Benidorm está colorida de listras: na linha do horizonte o mar é de um azul-da prússia-escuro, em contraste intenso com o céu distante, que parece quase branco contra a superfície escura da água. A faixa central de cor, mais perto da costa, é de um verde-pavão violento, passando a adquirir tons amarelados conforme a profundidade do mar diminui, até que, bem na beira, a areia marrom-clara tinge as ondas que quebram de um âmbar-esverdeado. Lá longe, no mar, a água azul-escura é constantemente quebrada pelas abruptas linhas de giz das ondas brancas. Sob a luz forte do sol, as ondas avançam como seda azul-clara...” (Diários – pág.662).

Somente um olhar poético como o de Sylvia pode nos arrebatar de tal forma à Baía de Benidorm, na Espanha, onde esteve com o marido na lua de mel. E assim, ela nos conduz aos lugares onde esteve, inclusive em Paris. Os Diários são plenos de descrições, de sentimentos, de sonhos. Pleno de alma, do espírito de Sylvia. Ela dizia:

“O que mais temo, creio, é a morte da imaginação.... Se me sento imóvel, sem fazer nada, o mundo segue batendo feito um tambor indolente, sem significado. Precisamos no mexer, trabalhar, criar sonhos e persegui-los: a indigência da vida sem sonhos é terrível demais de imaginar: é o pior gênero de loucura.”

Sylvia – Paixão além das palavras – é o título do filme produzido em 2003 – com a atriz Gwyneth Paltrow – na interpretação da poeta. Gostei muito e recomendo.

Agora, pondero a respeito da literatura melancólica de Sylvia e da literatura inovadora de Virginia. As duas tornaram-se escritoras de enorme valor pelo legado de suas obras.

Consagraram-nas como símbolos feministas, mas não as vejo assim, ao menos em relação aos radicalismos de hoje. Em meu sentir, ambas possuíam um extraordinário talento verbal, e, por meio de uma literatura pessoal, única, honesta, apresentaram a intimidade e as angústias de uma mulher – ou das mulheres, para universalizar. Elas lutaram contra a depressão em uma época em que a Medicina utilizava eletrochoques no cérebro. Que horror! Enfrentaram preconceitos, tabus, e desafiaram algumas regras.

Talvez, Virginia, Sylvia e outras... não lembraram que a vida esperava muito delas. E que, talvez, não viram os porquês para continuarem vivendo. E não enxergavam a contribuição de sua arte para o mundo. Talvez é muito vago, assim como o ser feliz é indefinível. Porém, elas ecoam na vida de quem as lê.

Precisamos nos entregar às leituras, no aconchego de nós mesmas. Aprendi com Virginia e Sylvia: com livros – a vida é revivida e ressignificada.

E, além do mais, continuo aqui.

Com muitos depois, no porvir.

Marilia Frosi Galvão é professora, escritora e cronista. Tem dois livros publicados: "Fagulhas" e "Tudo é Momento".

(Foto: Severino Schiavo)