Por MARILIA FROSI GALVÃO
Se o escritor turco Orhan Pamuk me perguntasse a respeito dos objetos por mim guardados ao longo da vida, inclusive os que perderam a utilidade na poeira do tempo, e por que não os descartei... eu teria deparado com algo que não saberia como responder imediatamente. Eu me sentiria envolvida e apanhada em uma cilada. Pediria um tempo para pensar.
Se os objetos pudessem falar... Eles falam, sim.
Como ele não se dirigiu diretamente a mim, mas pela obra, minha atenção de leitora-espectadora – a princípio nebulosa, foi, aos poucos, sendo esclarecida por pequenas iluminações até que... desvencilhei-me da cilada com o entendimento, em detalhes, de minha vida, os quais estavam imersos nas águas profundas de meu ser. E, sendo detalhes ou lembranças de momentos “presos” nos objetos – como o gênio da Lâmpada de Aladim.
A cilada – e o escape final - aconteceram por uma coincidência de fatos. A saber: o que fazer no tempo ocioso dos feriados de Carnaval? Ora, por vezes o Destino nos apresenta sugestões: a querida amiga-enfermeira Rosa Capellaro Andreazza presenteou-me com uma sacola – enorme - de berinjelas recém-colhidas... além do mais - outra amiga-escritora – Rejane Rech, comunicou a mim e à Biba Coelho, amiga-poeta, em um café, que haveria, no sábado de Carnaval, a estreia da série “O Museu da Inocência” – baseada em um dos livros de Orhan Pamuk com este mesmo título. Ora, para mim, dias de Carnaval são dias para ficar em casa, em paz. As berinjelas e os capítulos da novela me ocupariam de forma prazerosa. Porém, ainda não sabia das descobertas que viriam à tona.

Berinjelas presenteadas por amiga viram insumo para a arte da gentileza
(Foto: Marilia Frosi Galvão)
Administrei essas possibilidades de modo a tirar o máximo proveito do tempo disponível. Hummmm!! As berinjelas renderam uma ótima caponata, e também surpreendi a família com algumas delas recheadas com guisado e champignons gratinadas no forno. As berinjelas são um prato tradicional na Turquia, empanadas, assadas, cozidas, inúmeras formas criativas. Quanto à novela turca sugerida, me encantei por certo, pois “dei” de me apaixonar por Istambul, pelas histórias de amor que são filmadas lá e pelos atores turcos, pela cultura, pela história.
Costumo guardar vidros de geleia ou outras compotas, porque tenho uma síndrome de acumuladora, mas dentro do limite. Sofro ao descartar embalagens tão bonitas. Penso que sempre serão úteis. Desta vez, utilizei-os para abrigarem uma CAPONATA DE BERINJELAS – feita por mim – obviamente – para presentear alguns amigos. A caponata é um modo de dizer a eles – aqui contém uma parte do tempo de minha vida dedicada a ti e o ingrediente principal é muito raro: chama-se amor... em tempo, o amor requer grande atenção e afeição.

O capricho das embalagens espelha a qualidade das caponatas
(Foto: Marilia Frosi Galvão)
Sou uma mulher comum. Como a maioria de nós, mulheres. Penso. É um traço de minha personalidade romantizar o passado. E também carrego dentro de mim um mundo – oculto a muitos – desvendado a poucos. Como aqui é o caso. Aos que me leem. Minha casa é o museu que conta a história de minha vida. Aqui, o tempo me abraça. E, o autor turco afirmou que “todo encontro de um homem com um objeto é uma história”.
Pois, os objetos têm um poder, falam por si, e resgatam a memória. Intimistas totalmente. Nossas casas são pequenos museus. E eles, os objetos, contêm a energia e a emoção de momentos marcantes. Tocá-los é como um re-viver momentos – agradáveis ou não.
Esterilizados os “potinhos” – vamos colocar a “mão na massa” – com os ingredientes picados com capricho - é a etapa em que podemos refletir (picando), chorar por causa das cebolas e alhos (picando), tudo é boa desculpa. Ahhhhh!!! (picando)
4 berinjelas suculentas – 1 pimentão vermelho – 1 amarelo e 1 verde. 2 cebolas. Vários alhos. Azeitonas. Passas. Salsa e cebolinha. Orégano. Sal. Pimenta do reino. Aceto balsâmico. Azeite de oliva.
Orhan Pamuk em “O Museu da Inocência” criou uma história de amor obsessivo. Em Istambul – cidade da Turquia - nos anos 1970. Um romance de ficção. Porém, o dado que me fascinou foi o fato de que o Museu da Inocência realmente existe em um bairro da cidade. O prédio escolhido foi reformado e montado pelas custas do próprio Orhan Pamuk. Com o milhão e meio de dólares que recebeu pelo Prêmio Nobel de Literatura em 2006! E também com os objetos coletados por ele em anos, que representam Istambul entre as décadas de 1950 e 2000, como bitucas de cigarro, chaves, relógios, roupas. Assombroso. Assim como um livro, um museu pode contar uma história íntima e pessoal.
O Museu da Inocência – em turco, Masumiyet Müzesi – é uma das experiências mais singulares de Istambul, diferente de museus tradicionais. O local não é apenas o espaço de uma exposição, mas uma extensão física da história de amor entre os personagens Kemal e Füsun. Na história, a trama que acompanha essa paixão começa em 1975, quando Kemal, um homem rico e privilegiado de Istambul, conhece a prima distante Füsun em uma boutique. Ela havia acabado de completar 18 anos, e a “inocência” que ele enxerga nela se transforma em fixação. Surpreende do início ao fim. Todavia, como sou “famosa” por dar spoilers – ahhh – por “ inocência” – não contarei mais nada. Soubessem os leitores as caras feias para mim – por causa disso. Ah, será assunto para outra crônica.

Escritor Orhan Pamuk e seu "Museu da Inocência"
(Foto: Divulgação)
Uma vez que todos os ingredientes estejam picados, devem ser colocados em uma forma e cobertos com azeite de oliva – muito azeite. E permanecerão no forno a 180 graus por 40 minutos. Entre o assar e o ferver na forma, os sabores se diluirão para dar origem a uma iguaria, ótima para ser servida em um happy – sobre uma torradinha. Ah, o “moroso” deve abrir um espumante ou um vinho branco para acompanhar.
Nesses quatro dias de Carnaval, com um olho na culinária e um olho no namoro de Kemal e Füsun, pelo streaming, e nos intervalos “ligando pontos”, tive “iluminuras” – segredos revelados pelo meu inconsciente. Entendi o porquê de meu fascínio por Istambul. Concluí que, na verdade, pelos livros de Orhan Pamuk e de outros autores turcos – pelos filmes e séries turcas –, o que me enfeitiçava não era primordialmente a história - o desempenho dos atores, mas... era, é, a personagem principal acima de tudo: a cidade de Istambul. Ela é o encanto para mim. Em suas ruas, bairros, casas, os gatos, as vielas tortuosas, tudo isso me encantava e eu não sabia por quê... mas eu captava uma nostalgia. Sim, uma nostalgia – as ruas me repassam esse sentimento delas expresso pelo seu passado nos dias de hoje. Há sentimentos inexplicáveis em palavras, posto que... são sentimentos. Esta cidade cuja alma está nas ruínas é amada por Orhan Pamuk exatamente pelas ruínas, pela sua “hüzün” – pelas glórias que um dia possuiu e mais tarde perdeu. ?
A caponata de berinjelas é um mimo para dar aos amigos. Os charmosos vidrinhos, que não descartei, tiveram uma sobrevida, preenchida com afeto puro. Após esfriar os ingredientes (no forno cozidos-fervidos-assados), colocar nos potinhos esterilizados, com uma folha de louro para dar um toque, cobrir com azeite de oliva, selar com a tampa, e cobrir com um tecidinho, uma fita para dar um acabamento. Iste bu!
("Aí está": Iste bu! - Não foi possível colocar a cedilha sob a letra s de Iste).
Ao ler esse autor nos livros “Meu Nome é Vermelho”, “Neve”, “A Mulher Ruiva”, “O Livro Negro” e a Série da Netflix “O Museu da Inocência”, o charme de Istambul e arredores ali expressos me conduziu a devaneios em passeios pelos bairros, pelas grandezas e pelas ruínas. Nos recantos desconhecidos, deparei com enigmas, surpresas, armadilhas em histórias reais ou imaginadas. Meu Deus! O que a Literatura faz com o leitor!
Assim, por estes dias de Carnaval, entre a produção culinária e a obra de Orhan Pamuk – “O Museu da Inocência” -, finalmente saio da cilada que foi a hipotética pergunta feita no início desta reflexão-texto: “Se o escritor turco Orhan Pamuk me perguntasse a respeito dos objetos por mim guardados ao longo da vida, inclusive os que perderam a utilidade na poeira do tempo"...
Não diria nada em palavras – somente apresentaria os objetos e outros itens que guardam as minhas memórias:
Livros (os escritos por mim e os que me inspiraram); um certo perfume; um porta-joias; a caneta usada nos autógrafos; um brinco apenas – cujo “par” se perdeu –; uma pashmina turca; aquele colar; luvas; lembranças de viagem; cadernetas com anotações; um anel; uma xícara de chá; um vasinho de cristal vindo de Praga...
E ele, Orhan, também não me diria nada em palavras. O olhar e um sorriso me bastariam.

Marilia Frosi Galvão é professora, escritora e cronista. Tem dois livros publicados: "Fagulhas" e "Tudo é Momento".
(Foto: Severino Schiavo)