Caxias do Sul 17/04/2026

Por que ainda devemos ler clássicos? (Parte 2)

Obra ‘O Fantasma da Ópera’ vai muito além de um romance gótico
Produzido por Fabiana Zanella Fachinelli, 13/04/2026 às 09:20:06
Por que ainda devemos ler clássicos? (Parte 2)
Adaptação cinematográfica sem áudio, de 1925, foi uma das primeiras a levar o clássico enredo às telonas
Foto: Divulgação

POR FABIANA ZANELLA FACHINELLI

Quanto mais se lê e se descobre sobre “O Fantasma da Ópera”, mais a história deixa de ser apenas um romance gótico para se tornar uma narrativa profunda e misteriosa, capaz de provocar reflexões sobre o comportamento humano.

Escrito por Gaston Leroux (França, 1868 – 1927) e lançado em 1910, o livro se passa na icônica Ópera de Paris (Palais Garnier), onde eventos inexplicáveis acontecem. No centro da trama está Erik, o “Fantasma”, que vive escondido nos bastidores da Ópera e se apaixona pela jovem cantora Christine Daaé. Ao seu lado surge Raoul, o visconde que representa o contraponto racional e afetivo à escuridão de Erik, formando um triângulo que intensifica o conflito.

Uma história que vai além do romance

A história é conhecida pelos livros, adaptações em filmes e pelos extraordinários musicais, mas a obra é muito mais complexa do que parece por misturar romance, suspense e investigação. O leitor é constantemente levado a questionar: afinal, quem é o “Fantasma”, qual o seu papel na história?

Diferente de um vilão tradicional, ele é um personagem profundamente humano, com uma história no passado que ninguém conhece, e com uma trajetória marcada desde a sua infância devido à sua aparência, que o levou ao isolamento. Ele não só busca amor, mas ser amado, busca aceitação e pertencimento, e nisto o trágico se une ao sensível. Nesse contexto, surge o amor de Erik por Christine, e que pode ser entendido como um amor obsessivo e carente.

O “Fantasma” nos mostra que não se nasce sendo aquilo que parece, muitas vezes é a dor, a rejeição e a falta de pertencimento que moldam quem nos tornamos, e talvez por isso a verdadeira questão não seja quem o “Fantasma” foi, mas o que buscou em silêncio para ser visto e aceito.

Um gênio incompreendido?

Um dos pontos fascinantes da história é que o “Fantasma” não é apenas uma figura sombria. Ele é um verdadeiro gênio: domina a arte da música e ensina canto a Christine Daaé de uma forma brilhante, é um gênio da arquitetura e engenharia que nos é revelando aos poucos durante a narrativa. Foi ele quem construiu passagens secretas, salas escondidas e até um lago subterrâneo dentro da ópera. Sua inteligência contrasta com sua solidão, um tema extremamente atual, quando pensamos numa sociedade onde muitas pessoas também enfrentam exclusão, seja por aparência, comportamento ou dificuldade de adaptação social.

Livro foi lançado na França em 1910

Camarote nº 5 e outras simbologias: o poder do desconhecido

O famoso camarote nº 5 aparece como um dos elementos emblemáticos da história. Mais do que um assento na ópera, simboliza a presença invisível do “Fantasma”. É um espaço que ninguém ousa ocupar, mesmo sem ver quem está ali, representa o medo do desconhecido, ou a ideia de que alguém pode controlar as coisas sem ser visto. É como se Erik existisse em dois mundos.

Além do camarote nº 5, temos o anel entregue por Erik a Christine, o lustre que cai durante a apresentação na ópera, os espelhos presentes nos corredores, o subterrâneo onde Erik vive escondido e a máscara que ele utiliza para se ocultar do mundo. Estes símbolos dão voz ao que não pode ser dito.

Christine: mais forte do que parece

Outro ponto importante é a personagem Christine Daaé, que parece uma personagem conduzida pelos acontecimentos e muitas vezes pode até ser vista como frágil, porém ela demonstra coragem e empatia em momentos decisivos da história. Sua relação com o “Fantasma” vai além do medo, ela é uma das poucas personagens capazes de enxergar a dor por trás da máscara, reconhecendo em Erik algo que o mundo se recusou ver: sua humanidade.

Sua compaixão é fundamental para o desfecho da narrativa, mostrando que mesmo diante do medo a humanidade ainda pode prevalecer.

Curiosidades que tornam a história ainda mais intrigante

A obra também chama a atenção por elementos reais que inspiraram sua criação: existe, de fato, um reservatório de água sob a Ópera de Paris, que inspirou o lago subterrâneo da história. Um acidente real em 1896, com a queda de um lustre no teatro, teria influenciado a narrativa. O autor, Gaston Leroux, investigou profundamente o local como jornalista para escrever o livro. O famoso camarote nº 5 existe e se tornou símbolo da presença invisível do “Fantasma”.

Esses detalhes reforçam o caráter quase investigativo da obra, tornando a experiência de leitura ainda mais envolvente.

Do livro aos acordes do musical e do cinema

A canção The Phantom of the Opera, do musical de Andrew Lloyd Webber, já foi interpretada por diversos artistas ao longo dos anos, tornando-se um verdadeiro clássico dos palcos. Entre as versões mais conhecidas estão as de Sarah Brightman, que participou da gravação original, e Michael Crawford, além de Emmy Rossum e Gerard Butler na adaptação cinematográfica. A música também ganhou versões fora do teatro, como a interpretação da banda Nightwish, mostrando como sua força atravessa estilos e gerações.

A canção que ajudou a eternizar a obra clássica para além dos palcos envolve o público em uma atmosfera quase que hipnótica. Entre a voz feminina e masculina, e com uma melodia dramática e crescente, ela provoca uma inquietação e nos remete para dentro do “Fantasma”, onde beleza e escuridão coexistem, e ecoa aos ouvidos mesmo após seu término.

No Brasil, essa influência também se fez presente por meio da música Tudo o que se quer, interpretada por Verônica Sabino e Emilio Santiago, que inclusive integrou a trilha sonora da novela Tieta. A canção é uma versão em português de All I Ask of You, preservando a essência romântica e a atmosfera dramática da obra original.

Nos palcos brasileiros, especialmente na montagem da peça teatral de “O Fantasma da Ópera” de 2018-2019, a letra da canção foi ajustada para o contexto teatral sob o título Preciso Ouvir de Ti.

A história dialoga com o mundo atual

Apenas por reflexão, poderíamos transcender da Ópera de Paris para o mundo atual e pensar que o “Fantasma” nunca desapareceu, e sim que apenas mudou de palco e que alguém (humano ou não) pode estar nos observando, influenciando e controlando em silêncio.

Podemos também nos questionar e perceber que muitas pessoas se escondem “por trás de máscaras”, criando versões de si mesmas para serem aceitas, assim como o “Fantasma” fazia em seu mundo subterrâneo.

Afinal, “O Fantasma da Ópera” não é apenas sobre mistério ou romance, é a força atemporal de uma obra clássica. O “Fantasma” segue atual num reflexo silencioso das inquietações e buscas do nosso tempo.

Fabiana Zanella Fachinelli é professora e escritora, autora do livro de poesias “Elogio à Mulher".
Tem participação em antologias de contos, crônicas e poesias, além de publicação de artigos na área da educação digital.

(Foto Studio Italia/ Divulgação)

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