Caxias do Sul 18/05/2021

O centenário de um GRANDE CRONISTA

Escritor pernambucano Antônio Maria, nascido em 17 de março de 1921, terá a vida e a obra lembradas em biografia
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 19/03/2021 às 14:30:42
O centenário de um GRANDE CRONISTA
Foto: Portal da Crônica

POR MARCOS FERNANDO KIRST

Os leitores brasileiros vimos passar (ou, conforme a maioria de nós, deixamos passar), esta semana, o centenário de nascimento de um dos grandes cronistas nacionais.

Antônio Maria Araújo de Morais, mais conhecido como Antônio Maria, nasceu em 17 de março de 1921 no Recife, mas foi no Rio de Janeiro, para onde se mudou, que estabeleceu sua carreira como homem de rádio, compositor musical, publicitário e cronista de jornal. Chegou a ser considerado o rei do samba-canção na década de 1950.

Morreu em 15 de outubro de 1964, com apenas 43 anos, em Copacabana, fulminado por um enfarte do miocárdio. Era um boêmio típico das noites cariocas, nas quais mesclava sua biografia própria com os tipos da noite, de onde tirava inspiração para seus textos.

No final deste ano, sua memória será devidamente resgatada com a publicação de uma biografia produzida pelo escritor Guilherme Tauil, intitulada “Vento Vadio”, pela Editora Todavia.

Até lá, vamos sanando a nostalgia de seus textos, relembrando uma de suas crônicas:

CAFÉ COM LEITE

(Por Antônio Maria)

É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.

Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros! Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com o que empresta as chaves.

Para os chamados “grandes homens” a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; esse crispa, ao ser tocada e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.

Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do dever cumprido.

No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo o asceticismo da ioga… tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.