Caxias do Sul 30/10/2020

“A vivência como rainha me mostrou que era possível empreender”

Ex-soberana da Fenavindima comanda o negócio da família, lança linha de espumantes, aposta no enoturismo e prepara novidades, como casamentos ao ar livre
Produzido por Silvana Toazza, 29/09/2020 às 13:33:29
“A vivência como rainha me mostrou que era possível empreender”
Foto: Ana Cris Paulus

Fabiane Veadrigo, 34 anos, tem no sangue a herança da colonização italiana e do “lavoro” como fonte de realização profissional e alavanca para o progresso.

A rainha da Festa Nacional da Vindima (Fenavindima) de 2007 agregou à tradicional vinícola familiar conhecimento especializado. Sua bagagem inclui formação em técnico em Enologia, superior em Agronomia, sommelier internacional e MBA em Gestão em Economia do Agronegócio.

Exibindo muita habilidade nas mãos e teorias na mente, a ex-soberana hoje é a linha de frente, ao lado da família, da Vinícola Veadrigo, de Flores da Cunha, que recém agregou ao portfólio de produtos sua linha de espumantes (brut e moscatel, nas versões branco e rosé). O reforço foi embalado pela excelente safra de uva 2019/2020, e vem atender aos pedidos dos clientes e do mercado, que reconhece a excelência do terroir serrano para a produção de borbulhas.

Com experiências na Itália, onde estagiou nas regiões do Vêneto e Piemonte, Fabiane atua ao lado do pai, Fernandes, e da mãe, Gabriela. Além da vinícola, a família também conduz o Restaurante Famiglia Veadrigo, especializado em culinária típica italiana, incluindo o famoso menarosto, e focado em reservas para eventos ou para grupos de, no mínimo, 20 pessoas.

Na entrevista a seguir, exclusiva para a seção “Conversa Afiada” do site, a jovem empreendedora fala do desafio de levar adiante um negócio (ou legado?) familiar, das oportunidades do enoturismo e das novidades das quais pretende tirar a rolha em breve:

Linha de espumantes amplia portfólio da vinícola (foto: Ana Cris Paulus)

Você vem assumindo o comando da Vinícola Veadrigo. Como tem sido a experiência?
É um desafio diário, pois, ao mesmo tempo em que quero trazer inovações para o negócio, desejo também continuar seguindo as tradições da nossa família. Faço parte da quarta geração a trabalhar e se dedicar à vitivinicultura. Trago comigo o exemplo da minha bisavó Maria Franzói, que sempre esteve ao lado do marido desde a implantação da pequena vinícola familiar, em 1927. Em 1944, após o falecimento do meu bisavô, João Veadrigo, ela assumiu o comando dos negócios. Eram anos difíceis, mas ela, com muita sabedoria e dedicação, soube balancear o trabalho nos parreirais, na vinícola e a educação dos quatro filhos. É nesse exemplo de garra, numa época de recursos escassos e nenhuma possibilidade de formação, que eu busco me inspirar.

Tem um legado de desafios a ser mantido...
Hoje eu tenho nas mãos uma vinícola que chegou até onde está porque teve à frente uma mulher sem medo do trabalho. E eu quero continuar o legado deixado pela minha bisavó. Quero fazer a vinícola crescer, não só com o vinho, mas também com o enoturismo. Estudei muito para isso e estou sempre em busca de conhecimento. Fiz Agronomia porque queria entender a terra, a melhor forma de trabalhar com a videira; Enologia para elaborar excelentes vinhos; e Sommelier para poder servi-los da forma correta. Mas eu não estou sozinha, tenho o apoio fundamental da minha família, especialmente dos meus pais Fernandes e Gabriela. Estar à frente dos negócios da família é também acreditar nas heranças deixadas pelos antepassados.

Quais as novidades?
Estamos lançando a nossa linha de Espumantes para celebrar a qualidade da safra 2020 e voltando os olhares da empresa para os vinhos finos também, que já faziam parte no negócio, mas com outro foco.

Qual a estrutura atual da empresa?
É uma vinícola familiar de pequeno porte. Trabalhamos eu, meu pai, minha mãe e temos a ajuda também das minhas duas irmãs, Fernanda e Francine, quando necessário, já que elas têm outras profissões. Meu pai é mais focado nos vinhedos e eu, na vinícola. Minha mãe ajuda ambos. Temos também três funcionários. Além da vinícola, na qual atualmente elaboramos 200 mil litros de vinhos, isso incluindo vinhos de mesa, finos e espumantes, e também o suco, possuímos um restaurante de culinária típica italiana que atende 60 pessoas, de segunda a domingo, somente com agendamento. Tudo o que é servido no restaurante é feito pela família.

Quais os desafios em se trabalhar em família?
O principal desafio é separar o ambiente de trabalho com as questões familiares, podendo aproveitar cada um da melhor forma e com harmonia. Outra questão é buscar atualização constante para o crescimento profissional de todos os envolvidos.

De que forma está o impacto da pandemia nos negócios?
No início da pandemia, quando os números do distanciamento social eram bem mais altos, a venda de vinhos cresceu muito. Agora, com a retomada gradual das atividades, os números estão estabilizando e voltando ao patamar dos anos anteriores. Já no restaurante, como a partir de agora iremos trabalhar com eventos, estamos fechados desde março, pois ainda não foi liberada a atividade de eventos e nem se tem protocolos por parte do governo do Estado para essa atividade.

Você acredita na retomada do turismo?
Acredito, sim, na retomada do turismo e com uma força maior ainda. Será uma grande oportunidade, principalmente para o turismo local, pois as pessoas se sentirão mais seguras fazendo viagens mais curtas e vivendo experiências em locais com um número menor de público e, principalmente, em meio à natureza. Nós, aqui na vinícola, estamos nos organizando e, em breve, apresentaremos algumas novidades. Temos um espaço amplo, rodeado por árvores, e queremos proporcionar momentos felizes a quem nos visita. Uma das novidades para a qual estamos nos preparando será a organização de casamentos ao ar livre, o Matrimônio in Campagna. Além disso, durante a vindima, está nos nossos planos oferecer aos visitantes pequenas experiências para que eles possam conhecer a vida na colônia, participar da colheita da uva e aproveitar o nosso restaurante.

Como enxerga o setor vinícola. Quais os entraves ao crescimento?
A qualidade dos vinhos nacionais melhorou muito na última década. Hoje, não perdemos em qualidade para os vinhos importados e já somos reconhecidos no mundo, principalmente pela excelência dos nossos espumantes. O setor busca modernização e inovação constantemente. O nosso maior entrave é mostrar para os consumidores brasileiros isso e fazer com que tenham orgulho de tomar o vinho nacional. Eu acredito que uma das formas de fazer com que o consumo de vinhos nacionais cresça é justamente investir no enoturismo. Tenho certeza de que, quando o consumidor tiver a oportunidade de visitar uma vinícola e conhecer o processo de elaboração do vinho, ele vai passar a valorizar o produto. E vai passar a consumi-lo. E para nós, pequenos negócios, isso vai fazer a diferença e será muito positivo.

Você já foi soberana da Fenavindima. De que forma essa experiência te inspirou a seguir na área?
Ser rainha da Fenavindima foi uma grande conquista. E eu fui escolhida justamente por já estar inserida no mundo da uva e do vinho e também porque eu vivia a colônia no meu dia a dia. Na época do concurso, eu já era enóloga e estudava Agronomia. Além disso, já tinha feito estágios na Itália. Toda essa bagagem me ajudou muito. Mas foi durante a festa que surgiu a ideia de investir em enogastronomia. Senti que era importante a cidade ter um espaço que servisse uma culinária típica italiana. Uma comida simples, saborosa, que tivesse realmente o sabor da colônia. Um espaço que pudesse oferecer um pão feito na hora, uma fortaia caseira, um menarosto quentinho. E foi então que nasceu o restaurante Famiglia Veadrigo. A vivência como rainha me mostrou que era possível empreender.

Quais as novidades previstas para o futuro da vinícola?
Pretendemos investir na expansão física do espaço, melhorando, com isso, os processos produtivos. Também projeto lançar um vinho de guarda em homenagem à História da Família. A ideia é que o produto tenha passagem por barricas de carvalho. Será da Safra 2020 e um lote singular. Também almejo lançar um vinho em reverência às mulheres da minha família, todas com personalidade forte. Hoje, reunidos à mesa nos almoços de domingo, meu pai conta com a presença de 9 mulheres, a mãe, a esposa, as três filhas e as quatro netas.

Sonho a ser realizado?
Criar minha filha Sofia com os valores nos quais fui criada e passar para ela esse amor que tenho pela terra e pela história e trabalho dos nossos antepassados.

Que conselho daria a jovens empreendedoras como você?
Acreditem no seu sonho e trabalhem com muito amor e dedicação que a colheita virá. Estejam em constante atualização, pois tudo muda rapidamente, e estejam abertas às oportunidades que surgirem.