O familiar e o estranho, dentro da mesma casa, alicerçados na mesma pessoa, se encontram. Ou se escondem, posso dizer. Eles são aqueles que assumem posturas diversas dependendo do momento das pessoas envolvidas.
O familiar se esconde, o estranho aparece. Como se tornou tão distante? Quando foi que isso aconteceu? Ficam extasiados os envolvidos.
Conviver com esse estranho/familiar faz-me desejar que ele seja somente familiar. Mas como transformá-lo? Como tornar todos que desejo próximos a mim, em familiar? Será que tenho esse poder?
Percebem-se buscas individuais, encontros essenciais, onde o próximo é distante e o distante se mostra próximo. Quando o brilho do olho para de se mostrar, quando nos perdermos, como podemos nos encontrar novamente?
Preciso compreender que não cabe somente a mim construir essa mudança. Somos nós dois que precisamos desejar e construirmos juntos essa proximidade. A relação, que era forte, alegre, parecia que seria para sempre daquela maneira. Ao invés de ser assim, virou frágil, enclausurada, distante.
Nesse momento, precisamos olhar além do de fora, enxergar dentro de nós. Olhar para os vínculos construídos e demarcados que criaram raízes de proximidade ou de distanciamento em nós. Indago-me: como posso juntar partes perdidas de relacionamentos com o outro se tenho minhas próprias dificuldades?
Por vezes, a distância entre as pessoas assume fronteiras, um vai para um lado, outro para outro. A tolerância entre ambos diminui. Parece que estão em lados opostos do rio, do mesmo que se reconhece pelo nome de vida. Mas, estão somente distantes e, acredite, na mesma margem do rio. Um pode aprender com o outro, ou ao menos conversar, trocar pontos de vista; deixar-se tocar sem rigidez, sem ter a necessidade de mudar sua maneira de pensar. Apenas necessitam ouvir e adentrar numa nova ideia, num novo momento. Num novo sentir.
Eles são estranhos que se cruzam nos imensos ou encolhidos corredores. Se esbarram em cantos sem bordas a se perder mais, mais e mais... até verdadeiramente se encontrarem com eles mesmos e se redirecionarem.
São também estranhos que convivem no dia a dia. É o familiar que aponta na esquina, que se encontra no improviso, que transforma ou não o abandono. É o familiar que grita dentro de nós e que permanece nas nossas mais sublimes buscas. É o que nos faz desejar a conexão com a acolhida até aquele momento desejada.
Afinal, familiar é o que nos acolhe com o olhar. É o que nos causa amparo e promove o melhor abrigo para descansar.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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