Caxias do Sul 29/08/2026

Por que ainda devemos ler clássicos? (Parte 3)

É possível ler Camille Claudel através de suas esculturas
Produzido por Fabiana Zanella Fachinelli , 28/08/2026 às 13:08:06
Por que ainda devemos ler clássicos? (Parte 3)
Escultora francesa deixou legado artístico que extrapola as condicionais do tempo
Foto: Divulgação

POR FABIANA ZANELLA FACHINELLI

O quanto podemos ler uma obra sem ter uma linha escrita? Estamos acostumados a procurar histórias em páginas, mas estar diante de uma narrativa sem palavras exige outra linguagem: o barro, o gesso, o mármore, o bronze, as mãos e a alma de uma artista.

Anne Delbée, no livro Camille Claudel: Uma Mulher, recria a jovem Camille dizendo: “Eu quero esculpir! Vi um livro, estátuas, sabe, como eu faço com barro... agora eu sei. Quero ser uma grande escultora”, e assim começa a grande trajetória dela. Um livro teria ajudado Camille a reconhecer sua vocação. Depois disso, ela mesma contaria histórias sem escrever livros.

Camille Claudel: entre a criação e o apagamento

O quanto podemos ler da vida de Camille sem associá-la unicamente ao seu grande amor, Auguste Rodin? O quanto podemos dizer que ela foi apagada apenas por ser ela mesma?

Assim como os livros, a arte traduz experiências humanas. Nascida em 1864, na França, Camille Claudel começou ainda muito jovem a estudar escultura e a modelar o barro. Seu talento foi reconhecido pelo escultor Alfred Boucher e, mais tarde, ela passou a trabalhar no ateliê de Auguste Rodin, com quem viveria uma intensa relação artística e amorosa.

Desenvolveu uma linguagem própria, conquistou reconhecimento artístico e produziu obras nas quais os corpos parecem carregar sentimentos, conflitos e histórias.

Porém, sua trajetória teria um desfecho doloroso. Após anos de dificuldades, isolamento e crises de perseguição, Camille foi internada em 1913, aos 48 anos. Permaneceria em instituições psiquiátricas durante 30 anos até sua morte, em 1943. Durante décadas, sua obra esteve parcialmente obscurecida. Atualmente, Camille Claudel é reconhecida como uma das grandes escultoras de seu tempo.

Shakuntala: quando a literatura se transforma em escultura

Aqui, a ligação com a literatura é direta. Fascinada por essa lenda indiana de amor, separação e reencontro, Camille encontrou nela inspiração para sua escultura chamada O Abandono. Shakuntala é a personagem central do drama em sânscrito Abhijñanasakuntalam, do poeta e dramaturgo indiano Kalidasa. Após uma maldição, o rei Dushyanta esquece Shakuntala, a mulher que ama. Na escultura de Camille, ela não escolhe representar o abandono, mas o momento do reencontro: Dushyanta aparece ajoelhado diante de Shakuntala. Aqui as palavras vieram antes da escultura. Camille leu uma história e a reescreveu por meio dos corpos.

Nascida de uma obra literária, a escultura transforma em matéria o que antes existia em palavras. A história de Shakuntala apresenta temas que atravessam a obra de Camille: o amor, a ausência, a perda e o reencontro.

O ABANDONO

Quando os corpos dançam

Por muito tempo a história de Camille Claudel foi contada a partir da sua relação com Auguste Rodin, mas ela tinha sua própria linguagem.

Em sua obra La Valse (A Valsa), por exemplo, vemos dois corpos que parecem perder seus limites individuais. Eles seguem o mesmo movimento, mas há certa instabilidade, como se a qualquer momento pudessem se separar.

Camille faz o bronze dançar.

A leitura é tão fascinante que, por instantes, pode-se esquecer que ali existem duas pessoas.

A VALSA

Quando o tempo separa

Se em La Valse (A Valsa) os corpos se aproximam, em L’Âge Mûr (A Idade Madura) eles se afastam. A escultura foi criada no período em que a relação entre Camille e Rodin chegava ao fim. Por isso, frequentemente é interpretada a partir da biografia da artista. Mas essa não é sua única leitura, e talvez nem seja a mais importante. A jovem ajoelhada ainda estende os braços, enquanto o homem é conduzido pela figura da velhice. Entre eles resta um espaço que nenhuma das mãos consegue vencer. Se em A Valsa Camille esculpiu o instante da união, em A Idade Madura parece esculpir aquilo que nenhum de nós consegue deter: a passagem do tempo.

Diante das três figuras, podemos enxergar a juventude, a maturidade e a velhice, e talvez um quarto personagem invisível: o tempo.

A IDADE MADURA

A leitura além do amor

Ler as obras de Camille Claudel apenas através de Rodin seria como ler um romance procurando compreender apenas um de seus personagens.

Suas esculturas ultrapassam sua biografia. Amor, abandono, envelhecimento, solidão e passagem do tempo não pertencem somente à experiência de Camille, mas à experiência humana. Talvez seja por isso que mais de um século depois ainda conseguimos ler suas obras, e muitas vezes reconhecemos nelas sentimentos que também existem em nós.

Camille não escreveu personagens, mas lhes deu um corpo. Não precisamos encontrar palavras em uma obra para descobrir que existe uma história sendo contada.

Afinal, o quanto conseguimos ler em uma obra que não contém uma única palavra?

Fabiana Zanella Fachinelli é professora e escritora, autora do livro de poesias “Elogio à Mulher". Tem participação em antologias de contos, crônicas e poesias, além de publicação de artigos na área da educação digital.

(Foto Studio Italia/ Divulgação)

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