Caxias do Sul 16/08/2026

Como se construiu a falta em você

Foi nesse andar que ficou o vazio, o não existir como desejava; o não se construir como queria
Produzido por Neusa Picolli Fante, 15/08/2026 às 10:35:35
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda/Divulgação

Poderia te questionar: O que faltou? E você responderia: Faltou um, faltou outro, faltou algo, faltou alguém...

Propiciou uma brecha dentro de mim, que se abriu. Ela já existia e a todo momento estava pronta para retornar e criar o desamparo de outrora. Eu não sabia como lidar!

Foi nesse andar que ficou o vazio, o não existir como desejava; o não se construir como queria. Independentemente da percepção, faltaram coisas/relações profundas.

Faltou um amigo, talvez o único, talvez só um, um só. Aquele amigo especial. O que estava no desejo de se gestar, mas não saiu da sua mente; não se constituiu. Ficou no inalcançável para sempre.

Faltou um olhar que remetesse a segurança, a amparo, aquele que você esperava. Aquele que não conhecia, que nem sabia que existia. Aquele ligado ao amor que desejava construir.

Faltou um passado confortável dentro de você. Faltou a base, o alicerce que não existiu.

Ficou uma brecha, uma saudade (inclusive do que desejava ter vivido e não viveu). Ficou uma fresta...

Faltou a vida que fluía das suas entranhas. Aquela que nunca foi plantada, ensaiada. Aquela que não existia, que se escondia. Que fez falta, e que não sabia como poderia se construir/existir. Coexistir.

Faltou a palavra, o alinhavo, o empurrão. Alguém pegando na sua mão.

Faltou inclusive o seguir tranquilo, a confiança na vida. Aquela que alcança além e que enxerga por onde anda.

Faltou a acolhida, talvez, o encaminhamento com certeza....

Faltou a base, o sorriso presente, o vínculo seguro que sem dizer nada deixava implícito: “vai, você consegue!”

Faltou o amor genuíno! Por isso, ele nem sabia o que desejava procurar.

É ali que te questiono: como você se construiu na falta que te cercou?

Diante desse questionamento, veio além do tempo uma resposta. Naquele momento, a única mão que alcançava era a sua. E foi o que fez.

Foi ali que percebeu que era importante e que a sua mão o alcançava em todos os tempos. Nesse momento, a criança que foi teve amparo e direção, mudando todo o seu mundo. Inclusive aquela porção que não havia sido construída.

Ele próprio se acolheu!

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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