Caxias do Sul 31/07/2026

No tic-tac da vida

Como entender uma lacuna que nem mesmo você consegue enxergar ou compreender?
Produzido por Neusa Picolli Fante, 31/07/2026 às 07:56:46
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda/Divulgação

As marcas de quem viveu uma guerra, apesar de ter tido uma mãe próxima fisicamente, estavam presentes. Por mais que se esforçasse para não sentir, existia um vazio que não conseguia nominar.

Talvez essa mãe estava presente. Talvez tenha sido ausente emocionalmente. E daí, como você fica nessa ambivalência de presente/ausente?

Sabemos que a ausência emocional impõe distância, vazio, fantasias e culpas sem fundamento. Então como entender uma lacuna que nem mesmo você consegue enxergar ou compreender.

“A culpa é sempre das mães” grita uma voz do outro lado do muro... Então, vamos ficar nesse impasse pra sempre, culpando a mãe por tudo e não conseguindo andar na direção que deseja, mas que não se movimenta e nem consegue falar direito; ou nem ao menos pensar no porquê age como age.

Nem todos tiveram alguém próximo. Alguém que o ajudasse a compreender a vida, as coisas, alguém afetivamente próximo. Nem todos do seu passado tiveram alento, afeto, amparo e, consequentemente, uma direção para ser mais inteiro na vida das próximas gerações.

Então, você vai ficar sem ampliar esse olhar pra sempre? Ficar igual ao que aprendeu, ou ao que não aprendeu pra sempre. Será?

Sim, eu sei que dores profundas, em silêncio, vão sendo gestadas. Mas quando algo se gesta, algo nasce. Renasce. Então existe mudança, existe crescimento.

Você vai me dizer que o desejo de ter sido acolhida, ainda hoje faz você sair a procurar por alguém, por algum sentimento... Que ele permanece na sua vida gritando por socorro, por um olhar.

O eco das dores que viveu está vivo em você, querendo escuta, acolhida, amparo.

O vazio que você sente pode ir além, ampliar horizontes, alavancar fronteiras. Encontrar um lugar para acomodar angústias. Para encontrar direções.

O desejo de ter a acolhida que não teve pode se desenvolver de outras maneiras.

Em algum momento, em algum lugar, a acolhida se manifesta, de maneira inusitada, talvez...

Sabemos que a sensação de que você foi muito amado não são todos que carregam... Mas a de se autoamar pode ser ensaiado e alimentado por você. Experimente!

Esse é o tic-tac da vida. É o pulsar que nos alimenta, que nos conduz ao infinito de nos compreender e nos amar.

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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