Caxias do Sul 15/07/2026

A dor não me define

Será que é a dor que se esconde ou se sou eu que, inconscientemente, me escondo da dor?
Produzido por Neusa Picolli Fante, 15/07/2026 às 08:42:16
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda/Divulgação

“A dor não me define”, dizia Laura, tentando se manter conectada à vida diante da perda intensa que vivia.

Perdeu alguém próximo: uma relação profunda que deixou uma brecha na sua vida. E agora tinha de lidar com o vazio que se instalara e com a saudade que se fazia presente. Compreendia que a saudade era o amor que insistia em permanecer próximo a ela, e esse foi um dos seus grandes ganhos, ao mesmo tempo em que era um enorme desafio.

Lutou para enxergar novos caminhos para o coração machucado que, atrapalhado, palpitava nela. Desejava ir além da dor que sentia.

Repensando sobre a dor da perda, me questionei se é a dor que se esconde ou se sou eu que, inconscientemente, me escondo da dor. E percebo que as duas alternativas têm esse teor de verdade. Por vezes, não alcanço a dor em que estou envolvida. Em outros momentos, fujo de senti-la; utilizo todos os ensinamentos que consigo para, momentaneamente, dissolvê-la. Conforme tenho condições, crio recursos para administrar, para compreender e para ampliar meu olhar do que se edifica em mim.

A verdade, quanto a verificar se é a dor que se esconde de você ou se é você que se esconde dela, é perceber que esse esconde/aparece intranquilo fica aparecendo e se escondendo diante de situações difíceis da sua vida. Sabe aqueles sentimentos complexos que tomam conta de todo o seu ser, diante da perda? Aqueles sentires que esquecem a leveza da vida e que exigem muito de nós, seja: o conhecimento que não temos; o discernimento que precisamos ou o direcionamento emocional que não construímos.

No início, a dor é tanta que ela te invade inteira. Os dias escurecem, e a tristeza toma conta. Te impedem de olhar as coisas simples, o belo que ficou e que não tem mais graça nenhuma, mesmo sendo o bonito da vida.

Com o tempo, o difícil não desaparece. É você quem aprende a viver com ele. É você quem cresce e se desenvolve carregando esse duro sentir, em si, de uma maneira mais confortável, mais resiliente.

Você continua ali, firme e forte, lutando para viver. Então, você é mais guerreiro do que imagina, mais resiliente do que supõe e mais transformador do que acreditava ser.

O que te projetou no chão foi a dor que sentiu pela perda que se fez presente (e vamos ampliar o conceito de perda para tudo que é significativo para você e se desfez). O que te levanta do chão, de uma maneira nunca vista antes, é a dor que sentiu e as maneiras que procurou para lidar com ela. Por isso, reverencio você e suas lutas; claro, incluindo as minhas também...

Hoje, o sorriso vem e te remete ao amor. Ao amor do que/de quem... viveu. Aquele que ainda palpita dentro de você. Sim, ele fica com você para sempre, mas fica diferente; não menor, apenas diferente.

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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