Impactado, chocado, ficou olhando para o céu. Como numa tentativa de compreender ou de mudar a história: a sua história. Desejava desvendar muita coisa. Não compreendia por que as pessoas agiam com tanta pressa, com tanta ausência, com tanta indiferença e, principalmente, com desesperança.
A resposta para amenizar seus questionamentos, suas angústias, poderia vir dos céus. Assim, interrompeu o fluxo do seu andar e ficou paralisado a tentar encontrar suas respostas no grande azul com nuvens que ali se mostrava.
Precisava acalmar seu coração. Ter consciência que tudo estava se encaminhando para onde necessitava se dirigir e perceber, acima de tudo, que estava fazendo o suficiente para o andar do Universo. Ao menos a parcela que lhe cabia. Sabia que tinha uma parcela que somente cabia a si por fazer. Aprendeu isso fazia tempo, conversando com seu avô.
Eu também percebi que o mundo que eu desejava não existia. Me enganei. Acreditei em verdades ilusórias que se tornaram fragmentos de realidades. Quanta desilusão juntar um mundo de delírios e de sonhos com o concreto que se mostrava. O mundo interno, a base que eu/você não tivemos, o amanhã que não construiu raízes para se fixar. Foi esse o meu mundo que se esfarelou, que percebi que não tinha; que me aprisionou.
A imagem ficou borrada e eu a tentar decifrá-la. Decifrar-me!
O mundo explodiu. O meu/seu mundo erupcionou e ninguém conseguiu fazer nada para detê-lo. Só ficaram te olhando para ver como você reagia. Fragmentado você ficou e precisou reconstruí-lo, alimentá-lo, reordená-lo ao mesmo tempo em que se acolhia e se direcionava para um novo jeito de pensar e se direcionar.
Dar conta da dor que te invadia, reconstruir o que se desmontou e cuidar para não ser atingido pelos olhares que até ti chegavam, foi o grande desafio que te fez te apropriar do que sentia. Te fez ser mais forte, mais corajoso. Te fez ir além do que era até ali.
O dia em que acordei triste, entrei em contato com tudo que não conseguia mudar, acreditar, amparar.
Sabia que qualquer lugar era lugar de inventar histórias, de resgatar memórias, de recomeçar. E isso era o principal.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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