Caxias do Sul 27/10/2020

O cerco dos predadores não deve nos intimidar

De como uma informação me desconfortou e levou a refletir mais sobre assédio no meio cinematográfico
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 30/08/2020 às 09:17:31
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

Nas duas últimas semanas, deparei com uma situação inédita: escolher entre publicar ou não texto meu sobre o filme colombiano O Abraço da Serpente (2015). Soube por matéria jornalística que o diretor Ciro Guerra é acusado de assédio por oito mulheres de diferentes países. Pesquisei e a cada notícia as informações detalhavam mais o caso. Decidi não enviar o texto para o site. Senti um tremendo desconforto misturado à decepção e raiva, os quais compartilhei com meu editor.

Pedi a opinião de leitores, cujas respostas, variadas em seu conteúdo, trouxeram luz aos meus questionamentos e conflitos internos. Repensei a publicação com esse adendo sobre as acusações feitas ao diretor, como alguns sugeriram. O texto está aqui, mas antes de lê-lo (e isso é opção de cada um), me acompanhe em alguns fatos e reflexões.

Assunto tão delicado, com profundas raízes na sociedade patriarcal, o assédio é tema avassaladoramente complexo. Atenho-me aqui ao que envolve a indústria do cinema, na qual poderosos e celebridades valem-se de suas posições para desrespeitar, humilhar e abusar de mulheres com as quais trabalham ou contracenam e, notoriamente, com principiantes que almejam papéis de destaque em suas carreiras.

As abordagens surgem em camarins, festas, hotéis, bastidores de festivais internacionais (caso de Ciro Guerra) e até no inocente café, prenúncio para o convite do produtor ou diretor a uma “audição particular”. A mulher, então, se vê às voltas com atitudes inadequadas, geralmente vulgares e agressivas. O mal-estar pode começar com apalpadinhas, piadas inapropriadas, convites para massagens, beijos não consensuais, insinuações de conteúdo sexual e mesmo violência.

Tais táticas foram utilizadas por quase três décadas pelo magnata hollywoodiano Harvey Weinstein. Exposto e julgado, ele cumpre pena de 23 anos. Até agora, o número de denúncias contra ele supera 90. O escândalo, investigado pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do The New York Times, ganhou livro: “Ela Disse”, lançado no final de 2019. Nele estão os bastidores da reportagem que impulsionou o movimento #MeToo.

As repórteres investigativas Jodi Kantor e Megan Twohey

Na sexta-feira, 28, surgiu mais uma notícia sobre assédio no meio cinematográfico. Desta vez, o acusado é o produtor de cinema brasileiro e curador de festivais internacionais, Gustavo Beck. Dezesseis mulheres de seis países da Europa e América Latina narram histórias semelhantes de violência sexual, física ou psicológica por parte de Beck.

E não é apenas nos bastidores que os abusos acontecem. Nos sets de filmagem há fatos bastante conhecidos, como o de O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci. Refiro-me à polêmica “cena da manteiga” em que Paul (Marlon Brando) sodomiza Jeanne (Maria Schneider). O ato sexual foi simulado, porém a manteiga realmente foi usada e sem o consentimento da atriz que, à época, tinha 19 anos (Brando, 48).

Schneider sofreu ato violento em obra de Bertolucci

O diretor italiano, em uma entrevista de 2013, revelou que teve a ideia de usar a manteiga em uma conversa com Brando e admitiu que a atriz não sabia.

"Não contei (a Schneider) o que ia acontecer porque queria que a reação dela fosse a de uma garota, não a de uma atriz".

Durante anos Maria Schneider (1952-2011) falou sobre o abuso, mas ninguém deu ouvidos. Desde então me pergunto qual é mesmo a função de um diretor de cinema? Se ele quer que a reação não seja a de uma atriz, porque a contrata? Por que humilhar para conseguir uma performance que julga a mais visceral quando poderia explorar junto com os atores a melhor maneira de fazer isso? Cadê o bom senso? O respeito? Em que plano fica o profissionalismo? As perguntas são inúmeras. Infindáveis, talvez.

Se a fábrica de sonhos é corrompida por seus homens todo-poderosos, gerando situações inaceitáveis, nem por isso deixaremos de amar o cinema. Nem preciso dizer o quanto desprezo qualquer um que aja de modo a intimidar, violar ou causar dano a outro ser. Estar atento ao que acontece é imprescindível. Olhar ao redor, também, porque o patriarcado na Sétima Arte é o mesmo que afeta um cem número de mulheres em seu cotidiano nada glamouroso.

Comportamentos ultrajantes ocorrem também em grandes redes televisivas, como a FOX, cujo escândalo veio à tona em 2016. Essa história é contada no filme Bombshell (2019), disponível na Amazon Prime Video. Charlize Teron, Nicole Kidman e Margot Robb estrelam a obra que, se não agrada pela narrativa, constrói muito bem a ambientação e a abjeta masculinidade do CEO da emissora. Recomendo.

Bombshell narra abusos de CEO da FOX

Uma afetuosa imersão pela Amazônia

Tardiamente, conheci Aguirre (1972) e Fitzcarraldo (1982), ambos do cineasta alemão Werner Herzog. No primeiro, exploradores espanhóis tentam encontrar a lendária Eldorado, o “Reino do Ouro” na Amazônia peruana. Aguirre (Klaus Kinski), um dos integrantes do grupo, enlouquece tornando a viagem aterrorizante. Em Fitzcarraldo temos novamente a parceria entre Herzog e Kinski ainda mais explosiva. Apaixonado por ópera, o megalomaníaco personagem título decide construir um teatro no meio da selva.

O Abraço da Serpente (2015), do colombiano Ciro Guerra, me trouxe essas lembranças. Impossível não encontrar a Amazônia dos filmes citados; igualmente impossível não perceber que não, não se trata de um filme à Herzog. Guerra tem sua própria linguagem cinematográfica e sabe evocá-la a cada tomada, com singularidade, fazendo a obra crescer diante dos nossos olhos.

Nessa viagem em preto e branco pela Amazônia colombiana, aspectos culturais, crenças, superstições e a devoção pela natureza são a chave do roteiro assinado por Guerra e Jacques Toulemonde Vidal . De uma beleza plástica notável, a obra traduz-se nas línguas nativas da região e no espanhol, alemão, latim e até em português.

O filme nos revela o encontro de Theo (Jan Bijvoet) com o xamã Karamakate (Nilbio Torres), que vive isolado na mata. Ele é o único sobrevivente de sua tribo dizimada pelos espanhóis. O estrangeiro enfermo precisa de ajuda para encontrar a Yakruna, flor sagrada que pode curá-lo. Sua peregrinação acontece junto a Manduca (Yauenku Migue), seu guia, um jovem escravo dos seringueiros cuja liberdade foi comprada por Theo.

Os diários de viagem do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924), que percorreu a floresta de 1903 a 1905, servem de base para o relato ficcional. No primeiro ato vemos a jornada de Theo e cerca de 40 anos depois a de Evan (Brionne Davis), o etnobotânico norte-americano Richard Evans Schultes (1915-2001). O índio Karamakate, interpretado nessa fase por Antonio Bolivar (1942-2020), faz a conexão entre os dois períodos. O ator faleceu por Covid-19 em maio, aos 75 anos.

Esse percurso pelo rio Amazonas é também um pequeno estudo sobre o esquecimento. Quando o Karamakate mais velho revela que não lembra mais dos fatos, a referência é clara: os ritos, os hábitos e a memória histórica vêm sendo apagados há séculos.

Durante a viagem com Evan, ele vai gradativamente recordando o passado ao retornar aos lugares por onde esteve com Theo. Quando joga no rio as malas de Evan, seu ato é simbólico. Por que o branco precisa de toda aquela bagagem? Não lhe basta rememorar, guardar-se das distrações? Apegar-se ao que é essencial e que não está fora dele?

O Abraço da Serpente propõe alegorias carregadas de elementos filosóficos e místicos, como o (auto) conhecimento através dos sonhos. Tanto Theo quanto Evan em busca da flor mágica Yakruna capaz de curar todos os males, vivenciam suas experiências às margens do Amazonas que, como ensina Karamakate, não são apenas duas. “Isso até as crianças sabem...”.

Karamakate é a representação dos mistérios da selva, a memória que lhe escapa o faz sentir-se oco. Essa sensação expressa-se no filme pelo termo chullachaqui, que significa uma cópia vazia de nós mesmos. Um duplo. Um outro eu inanimado. Um desmemoriado. Essa narrativa reverbera no mundo atual. Talvez, seja o que nos diz Zygmunt Bauman:

“Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.”

Assista ao trailerAQUI

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com