Caxias do Sul 19/04/2024

Nanico e Casanova (Parte VIII)

Em que um personagem centenário dá dica preciosa para o seguir da suma saga
Produzido por Paulo Damin, 29/03/2024 às 07:54:34
Paulo Damin é escritor, professor e tradutor em Caxias do Sul
Foto: ARQUIVO PESSOAL

No capítulo anterior, o Nanico entrou por uma porta em Veneza. Agora ele estava numa casa velha, ouvindo um homem cujas bochechas eram duas bolachas daquelas que a alemoada das Grotas faz no Natal: fofas, convexas, cobertas por uma camada de merengue e salpicadas com açucrinha vermelho.

– Que aventura é essa que não tem sequer um caso de amor? – o velho esbravejou (e precisou ajeitar a peruca).

Devia ter trezentos anos. Estava sentado numa poltrona de quatrocentos, entre trapos que um dia puderam ter sido seda. Diante dele, uma mesa com uma jarra, um candelabro, livros. Se alguém espirrasse, era capaz de tudo se esfarelar.

– Eu também já perdi minha pátria – disse o velho –. Mas o que é viver sem pátria, em comparação com viver sem amor? Gosto de um poema da Patrizia Valduga, uma guria que nasceu 230 anos depois de mim:

Ah, maldito! Amor, ah, seja bom,

rearranja todos os meus fragmentos

pra me fazer ser aquela que eu sou

e que eu era antes só nos documentos.

– Ou seja – disse o velho – Uma coisa é o que diz o passaporte, outra coisa é o que a gente é. Eu era um cidadão da República de Veneza… Hoje, quem sabe que aquilo existiu? Mas o amor, o desejo, é isso que a gente deixa pro mundo. Giacomo Casanova é sinônimo de mestre da sedução, não de cidadão veneziano. Foi pra eu te ensinar a conquistar mulheres que tu veio me procurar, e não pra eu te conseguir uma cidadania, certo?

– Na verdade – fez o Nanico – eu tô procurando a Cocanha.

– A Cocanha… – suspirou o Casanova, como se lembrasse de uma antiga amante –. O homem que busca a Cocanha deve ser um camaleão capaz de refletir todas as cores do ambiente que o circunda. Deve fingir sempre saber menos do que sabe, deve sofrer em paz (se é um homem honesto) a mortificação de precisar reconhecer-se um hipócrita…

Tomou um gole de vinho avinagrado. Então disse:

– Fala lá com o Gino Scarseto, um baixinho que mora ali no Rio dei Trasti, sabe? Ele anda metido nuns negócios de gôndola… Pega a primeira à esquerda, passa a pontezinha, dobra à direita, segue reto toda vida. Diz que eu te indiquei, esses tempos ele veio aqui aprender a se livrar de cancro mole.

O Nanico não sabia como agradecer. Achou melhor não perguntar.

Foi.

(Continua...)

Paulo Damin é escritor, professor e tradutor em Caxias do Sul.

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