Nos últimos meses, a sensação de que "todo dia surge uma nova notícia sobre problemas cardíacos" não é mera impressão. O aumento de diagnósticos, a maior visibilidade de casos envolvendo figuras públicas e a mudança no perfil dos pacientes compõem um cenário que exige atenção.
Como cardiologista, observo três movimentos simultâneos que ajudam a entender por que as complicações cardiovasculares parecem mais presentes nas manchetes no último trimestre e nos últimos anos.
O primeiro deles é o avanço do diagnóstico e do acesso a procedimentos especializados, como a ablação por cateter para correção de arritmias. A recente repercussão do caso envolvendo o Governador de Goiás trouxe um exemplo real de uma condição frequente: arritmias que, embora muitas vezes benignas, podem causar sintomas intensos e demandar intervenção.
Hoje, profissionais e hospitais têm capacidade maior de identificar esses quadros precocemente, o que amplia sua presença nos noticiários. Isso por si só causa aquela sensação de aumento de casos, mas a realidade está justamente na detecção e tratamento desses quadros que, antes, eram mais difíceis de identificar.
O segundo movimento é estrutural: estamos, de fato, observando complicações cardíacas mais cedo na vida. A cardiologia brasileira já identifica um novo perfil de paciente, que está na faixa dos 20-30 anos de idade, sedentário e mais exposto ao estresse crônico. Infarto, hipertensão e arritmias são doenças que, inevitavelmente, nos fazem pensar em algo "acima dos 50 anos", no entanto, essa visão não corresponde mais à realidade dos consultórios.
Jornadas de trabalho exaustivas, privação de sono, aumento do consumo de ultraprocessados, uso de substâncias estimulantes, cigarro eletrônico e longas horas sentado formam uma combinação perigosa capaz de antecipar processos que, há uma década, eram incomuns em indivíduos de 25 ou 30 anos. A presença crescente de obesidade, hipertensão inicial e distúrbios metabólicos nessa faixa etária ajuda a explicar por que jovens estão aparecendo com alterações cardiológicas que antes demoravam décadas para surgir.
O terceiro ponto é a hiperexposição de casos envolvendo atletas e figuras públicas, como o episódio de síncope vasovagal que levou o meia Oscar, do São Paulo FC, à internação. Embora esse tipo de desmaio seja geralmente benigno e causado por um reflexo do sistema nervoso autônomo, e não por uma doença cardíaca estrutural, ele mobiliza investigação imediata e gera repercussão, porque desafia a percepção popular de que atletas são "blindados" contra problemas no coração.
O caso reforça uma mensagem importante: mesmo indivíduos com excelente condicionamento físico podem apresentar respostas fisiológicas inesperadas, especialmente diante de calor, estresse, dor, desidratação ou jejum.
Quando juntamos esses três vetores (maior diagnóstico, piora dos hábitos e visibilidade midiática) criamos a impressão de que estamos diante de uma "epidemia repentina" de doenças cardíacas. O que realmente estamos vendo, porém, é o resultado de anos de mudanças no comportamento da população somado à evolução tecnológica da medicina e à velocidade da comunicação.
Se há uma mensagem essencial para a população e para a imprensa é esta: o coração está reagindo ao nosso estilo de vida moderno. E embora exista prevenção e tratamento para muitos quadros, a melhor estratégia continua sendo olhar para o risco com o acompanhamento de um cardiologista, estar sempre em movimento, com uma alimentação equilibrada, sono adequado e redução do estresse. A cardiologia está mais preparada do que nunca; agora, precisamos preparar melhor também o nosso dia a dia.
Ricardo Ferreira Silva é graduado em medicina pela Universidade de Uberaba (MG), fez residência em Cardiologia pelo Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e se especializou em Estimulação Cardíaca Artificial e Arritmia Clínica no Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese de São Paulo. Tem especialização em eletrofisiologia clínica e invasiva no Hospital do Coração de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo.