Caxias do Sul 28/11/2020

Quando a MALDADE sentou no banco dos réus

Sessões do JULGAMENTO DE NUREMBERG, que condenou os LÍDERES NAZISTAS, tinham início há exatos 75 anos
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 20/11/2020 às 07:30:25
Quando a MALDADE sentou no banco dos réus
A camarilha de réus nazistas respondendo por suas barbáries no Tribunal de Nuremberg, em novembro de 1945
Foto: DIVULGAÇÃO

Por MARCOS FERNANDO KIRST

“O ódio racial, o nacionalismo xenófobo radical, o militarismo desmedido e o mais cruel abuso do poder”. Conforme o escritor Paul Roland, esses eram os elementos que personificavam os 21 líderes nazistas sentados no banco dos réus na cidade de Nuremberg, no coração da Alemanha, prontos para começarem a ser julgados por um Tribunal Militar Internacional pelos hediondos crimes contra a humanidade dos quais eram acusados, exatos 75 anos atrás.

As sessões históricas do Julgamento de Nuremberg tiveram início em 20 de novembro de 1945, tendo como palco a cidade que, durante os anos da insânia nazista, serviu de anfitriã para os desfiles e demonstrações da soberba hitlerista, de onde também foram editadas as famosas e execráveis leis raciais em 1935, que deram suporte e foram o estopim da perseguição e extermínio dos judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

Levar a julgamento os principais líderes da camarilha de criminosos psicopatas que se apossou do poder na Alemanha, travestidos sob a máscara de um suposto partido político (que na verdade não passava de uma seita de facínoras lunáticos e sanguinários), configurava não só uma necessidade vital para responsabilizar e individualizar os crimes cometidos contra as nações subjugadas, como também elevava o mundo a um novo patamar de compreensão de justiça internacional e de responsabilidade dos detentores do poder frente aos povos e ao mundo.

Finda a guerra, em maio de 1945, rapidamente os países vencedores (Estados Unidos, Grã-Bretanha, União Soviética e França) organizaram um tribunal dedicado a responsabilizar as principais figuras que conduziram a Alemanha no turbilhão anti-civilizatório que o país protagonizou durante os 12 anos em que os nazistas comandaram a vida e a morte (especialmente a morte) em boa parte do mundo. E nenhum palco poderia ser mais significativo e simbólico para soterrar o nazismo do que a cidade-símbolo em que a ideologia do mal se retroalimentava: Nuremberg.

Hermann Goering declarando-se “inocente” frente aos juízes, no histórico julgamento. A cara-de-pau, felizmente, não vingou

Ao longo de quase um ano (as sessões, com os veredictos de cada acusado, se encerraram em 1º de outubro de 1946), as atenções do mundo se voltaram a acompanhar, pela imprensa, o desfile de barbáries trazido a público pelos promotores internacionais e pelas testemunhas sobreviventes dos horrores protagonizados por aqueles homens, as cabeças nas linhas de comando de uma tragédia orquestrada que custou as vidas de cerca de 70 milhões de pessoas no mundo inteiro durante os seis anos de guerra e os 12 anos de inferno nazista na Alemanha e nos países por ela ocupados.

Um dos juízes chegou a resumir a essência das acusações, de difícil apreensão em sua dimensão total do horror até os dias de hoje, como “crimes contra o espírito”. Julgá-los se fazia necessário frente ao mundo, segundo o juiz norte-americano Robert H. Jackson, promotor-chefe daquele tribunal (magistrado integrante da Suprema Corte dos Estados Unidos), em seu discurso de abertura dos trabalhos, “para que homens e mulheres de boa vontade, em todos os países do mundo, possam ter a liberdade de viver, sem ter de pedir permissão a ninguém, sob a proteção da lei”. Exatamente a antítese da essência do nazismo e de toda e qualquer ideologia totalitarista, fascista e antidemocrática.

Notoriamente, faziam falta, naqueles bancos de madeira (o cercadinho no tribunal reservado às bestas-feras da cúpula nazista), alguns nomes cruciais como Adolf Hitler, o führer, líder máximo da gangue de assassinos, que suicidou-se no bunker em Berlim em 30 de abril de 1945, poucos dias antes da capitulação alemã; Heinrich Himmler, o chefe da SS, a força paramilitar nazista responsável pelos horrores dos campos de concentração e pela perseguição implacável aos judeus e aos opositores do regime, que se suicidou engolindo uma cápsula de veneno logo após ser reconhecido e capturado pelas forças aliadas ao final da guerra, em 23 de maio de 1945; e Joseph Goebbels, o todo-poderoso Ministro da Propaganda do Reich, que se suicidou também no bunker em 1º de maio de 1945, junto com sua esposa, Magda (que, antes disso, assassinou os seis filhos fazendo-os engolir cápsulas de cianeto).

Crápulas em ação: Goebbels, Himmler, Hess e Hitler. Exceto Hess, trio da cúpula nazista escapou covardemente do acerto de contas com a História em Nuremberg

Mesmo assim, os 24 réus julgados em Nuremberg (três não estavam presentes às sessões) responderam a quatro tipos de crimes, muitos deles tipificados naquele momento histórico: conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Doze deles foram condenados à morte por enforcamento (as sentenças foram cumpridas duas semanas depois do veredicto, em 16 de outubro de 1946, em data mantida em segredo dos acusados até o momento final, tornando angustiantes seus últimos dias de vida nas celas).

Três não estavam lá para receber suas sentenças: Martin Bormann, o vice-líder do partido nazista e secretário particular de Hitler, foi julgado e condenado à morte “in absentia”, ou seja, esteve ausente do julgamento, por seu paradeiro ser, na época, incerto. Soube-se, décadas mais tarde, que morreu em 2 de maio de 1945 em Berlim, tentando fugir das tropas do Exército Vermelho que tomavam a capital do Reich. Tudo indica que foi reconhecido por solados soviéticos e executado a sangue frio em uma estação ferroviária berlinense. O industrial fabricante de armas Gustav Krupp, cujas empresas se beneficiaram do trabalho escravo de prisioneiros de guerra, teve as acusações contra ele canceladas devido à sua saúde debilitada e julgado incapaz de responder por seus atos na corte (morreu em 1950, aos 79 anos). Robert Ley, o líder da Frente de Trabalho Alemã, que usava prisioneiros como trabalhadores escravos até a morte por maus tratos, suicidou-se em 25 de outubro de 1945 em sua cela, um mês antes do início das sessões de julgamento.

Três réus foram condenados à prisão perpétua e trancafiados na prisão de Spandau, em um distrito da antiga Berlim Ocidental. O mais notório deles foi o vice-führer e líder do partido nazista, Rudolf Hess, o derradeiro habitante do complexo carcerário fortemente vigiado pelas forças aliadas, que morreu ali em 1987, aos 93 anos, em circunstâncias até hoje suspeitas e obscuras. Dois pegaram 20 anos de cadeia; um foi condenado a 15 anos; um a 10 anos e três deles foram absolvidos de todas as acusações.

De 1946 até 1949, os aliados instituíram em Nuremberg mais 12 tribunais de acusação nos quais foram julgados centenas de outros líderes nazistas de menor envergadura na cadeia de comando, mas de igual envergadura na responsabilidade pelas chacinas, pelos massacres, pela opressão, pelo horror, pela barbárie, pelo estupro do conceito de civilização e pelas atrocidades cometidas pelo regime. Entre eles, médicos, juízes, industriais, ministros, militares, guardas, funcionários, agentes de segurança e repressão, carcereiros e outros.

OS CONDENADOS EM NUREMBERG

Alfred Jodl - Chefe do Alto Comando da Wermacht - Morte por enforcamento

Alfred Rosenberg - Ideólogo do racismo e Ministro do Reich para os Territórios Ocupados do Leste - Morte por enforcamento

Arthur Seyss-Inquart - Líder da anexação da Áustria e Gauleiter dos Países Baixos - Morte por enforcamento

Ernst Kaltenbrunner - Chefe do RSHA, órgão que controlava as polícias nazistas - Morte por enforcamento

Fritz Sauckel - Diretor do programa de trabalho escravo - Morte por enforcamento

Hans Frank - Governador-geral da Polônia - Morte por enforcamento

Hermann Goering - Comandante da Luftwaffe, Presidente do Reichstag e Ministro da Prússia - Morte por enforcamento (suicidou-se antes de ser enforcado)

Joachim von Ribbentrop - Ministro das Relações Exteriores - Morte por enforcamento

Julius Streicher - Chefe do periódico antissemita Der Stürmer - Morte por enforcamento

Martin Bormann - Vice-líder do Partido Nazista e secretário particular do Führer - Morte por enforcamento (In absentia)

Wilhelm Frick - Ministro do Interior, autorizou as Leis de Nuremberg - Morte por enforcamento

Wilhelm Keitel - Chefe do Comando Supremo das Forças Armadas - Morte por enforcamento

Robert Ley - Chefe do Corpo Alemão de Trabalho - Suicidou-se na prisão

Erich Raeder - Comandante-chefe da Kriegsmarine - Prisão perpétua

Rudolf Hess - Vice-líder do Partido Nazista - Prisão perpétua

Walther Funk - Ministro de Economia - Prisão perpétua

Albert Speer - Arquiteto do Reich e Ministro de Armamentos - 20 anos

Baldur von Schirach - Líder da Juventude Hitlerista - 20 anos

Konstantin von Neurath - Ministro das Relações Exteriores, Protetor da Boêmia e Morávia - 15 anos

Karl Dönitz - Presidente da Alemanha e comandante da Kriegsmarine - 10 anos

Franz von Papen - Ministro e vice-chanceler - Absolvido

Hans Fritzsche - Ajudante de Joseph Goebbels no Ministério da Propaganda - Absolvido

Hjalmar Schacht - Presidente do Reichsbank - Absolvido

Gustav Krupp - Industrial que usufruiu de trabalho escravo - Acusações canceladas por saúde debilitada