Caxias do Sul 06/07/2020

Pandemia altera hábitos: mais vinhos e menos espumantes no cálice do consumidor

Apesar do crescimento da procura por produtos nacionais, a cada dez garrafas vendidas no Brasil, nove ainda são de rótulos importados
Produzido por Silvana Toazza, 11/06/2020 às 14:43:38
Pandemia altera hábitos: mais vinhos e menos espumantes no cálice do consumidor
Cliente busca produtos com bom custo-benefício
Foto: Augusto Tomasi

O mundo mudou. E o comportamento do consumidor também sofreu modificações durante a pandemia. A Cooperativa Vinícola Garibaldi, por exemplo, identificou crescimento de 30% na venda de sua linha de vinhos finos e de mesa de março a maio. Em contrapartida, os espumantes, carros-chefes da marca, tiveram menos apelo no período.

Por que os cálices foram preenchidos mais com vinho do que com espumantes? A explicação é simples:

"A pandemia brecou a realização de eventos, impedindo encontros desde aniversários e casamentos a congressos e feiras, nos quais o consumo de espumantes é significativo. Em paralelo, a bebida escolhida para acompanhar esse período em que as pessoas ficam mais tempo em casa foi o vinho, especialmente porque harmoniza facilmente com mais tipos de comida e tem um apelo intimista para o consumo", responde o presidente da cooperativa, Oscar Ló.

Mesmo incluindo os meses de janeiro e fevereiro, o vinho permanece na dianteira de vendas da empresa em 2020. A despeito do cenário incerto, a Garibaldi acumula, nos cinco primeiros meses do ano, vendas 21,5% superiores às do mesmo período do ano passado.

Outras mudanças verificadas durante o período de isolamento foram a procura maior dos produtos pelos canais online e conteúdos estratégicos divulgados em redes sociais.

Com a pandemia, parte dos investimentos da cooperativa previstos em estrutura física, equipamentos e melhorias de processo foram postergados para 2021. Mesmo assim, a expectativa da Garibaldi é encerrar 2020 com avanço de 8,5% no faturamento, saltando de R$ 175 milhões para R$ 190 milhões.

A saber: com o dólar ainda alto e dificuldades logísticas e de embarque dos rótulos estrangeiros, os vinhos nacionais passaram a ser mais competitivos ao bolso do consumidor. Contudo, a procura maior também refletiu em preços mais caros de alguns vinhos.

“Vinho é a bebida da pandemia”

De janeiro a abril, as vendas de vinhos brasileiros somaram 4,4 milhões de litros, escalada de 39% em comparação ao primeiro quadrimestre do ano passado, quando foram comercializados 3,2 milhões da bebida.

Se incluir os vinhos importados vendidos no mercado verde-amarelo (eles diminuíram a participação nos cálices daqui, mas ainda é expressiva), foram vendidos 35 milhões de litros de varietais no Brasil nos quatro primeiros meses de 2020, incremento de 10% em relação ao período entre janeiro e abril de 2019, quando a venda contabilizou 31,9 milhões de litros. Significa que, a cada dez garrafas da bebida vendidas no país, apenas 1,3 é nacional.

Na esteira inversa, com o cancelamento de eventos, as vendas de espumantes brasileiros caíram 25% de janeiro a abril.

“Os números comprovam o que a nossa percepção apontava: o vinho é a bebida da pandemia do coronavírus. As pessoas ficaram mais em casa e escolheram como companhia uma bebida essencialmente sociável e que faz bem para a saúde, se consumida com moderação”, avalia o presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-RS), Orestes de Andrade Jr, com base nos dados do Cadastro Vinícola.

No total, incluindo os vinhos de mesa, foram comercializados 97 milhões de litros de vinhos finos e de mesa nacionais e importados de janeiro a abril de 2020, um avanço de 21% em relação ao mesmo período do ano passado, o que deixou o setor surpreso e animado. Isso também revela que há muito espaço ainda para o vinho comum.

A consultora e diretora da ABS-RS, Andreia Gentilini Milan, afirma que os vinhos brasileiros vinham perdendo mercado para os importados desde 2015 com uma leve recuperação em 2019 (5,26%). Mas durante a pandemia, os rótulos brasileiros conseguiram crescimento acima de dois dígitos, impulsionado pela comercialização nos supermercados de garrafas com custo de até R$ 30, que representam 70% das vendas de vinhos finos.

“Como em outros países, os brasileiros estão bebendo mais vinho durante o confinamento. Estão comprando em supermercados, mas também estão migrando para lojas online e adquirindo produtos diretamente de importadores e vinícolas por meio do WhatsApp”, informa.

Mesmo assim, uma curiosidade: a importação de vinhos aumentou quase 50% em quatro anos, passando de 77,6 milhões de litros em 2015 para 114 milhões de litros em 2019. Nos primeiros quatro meses de 2020, o avanço foi mais tímido, na casa de 7%.

Há um longo percurso a se trilhar, uma vez que, a cada 10 garrafas de vinhos vendidas no Brasil, apenas uma é brasileira.

“Os volumes importados pelo Chile vêm se mantendo nos últimos três anos e o grande destaque é Portugal, que quase duplicou o volume de 2015 (9,9 milhões litros) a 2019 (18,2 milhões), ficando na segunda posição do ranking, à frente de Argentina e Itália”, aponta Andreia, salientando que os vinhos portugueses caíram no gosto do brasileiros por serem fáceis de beber, frescos e leves, impulsionando inclusive a retomada do mercado de vinhos brancos no Brasil.

Corta-gotas

yesAs pesquisas por vinho no Google aumentaram em 22% desde o início da quarentena.

yesAs duas expressões mais buscadas foram “vinho branco” e “vinho tinto”.

yes O Google ainda registrou um acréscimo de 60% na busca pela frase “como abrir vinho”, 40% em “abridor de vinho” e 38% mais por “taça de vinho”.