Caxias do Sul 28/11/2020

O impasse dos ambulantes extrapola o viés econômico

Os vendedores informais não estão estirados na rua porque querem. Lojistas reclamam da concorrência desleal, e com razão
Produzido por Silvana Toazza, 13/03/2020 às 09:34:16
O impasse dos ambulantes extrapola o viés econômico
Calçadas da Avenida Júlio de Castilhos são disputadas pelos vendedores informais, entra ano, sai ano
Foto: Silvana Toazza

O cenário se repete. A cada proximidade de data festiva, lideranças do comércio de Caxias do Sul solicitam ao poder público maior rigor na fiscalização contra os ambulantes. A alegação é que, enquanto as lojas tradicionais pagam impostos, os vendedores informais atuam de forma desleal na porta de seus próprios estabelecimentos, os prejudicando duplamente: primeiro pela concorrência do lado de fora e depois pela obstrução da calçada, que prejudica o acesso do cliente às vitrines.

Ocorre que com ou sem fiscalização, a polêmica arrefece após Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças (só para citar as datas mais gordas de vendas) e os ambulantes se mantêm nos mesmos pontos, esparramados pela avenida mais importante da cidade. Esse cenário não se altera, entra e sai ano. A próxima gritaria do setor deve ser com a Páscoa (ou não, cansaram de clamar à tona). O cerne do problema vai muito além da questão econômica. Avaliar esse impasse sob esse aspecto é olhar só um lado da moeda. Trata-se de um dilema social.

Caxias do Sul, cidade pujante do trabalho e desenvolvimento, atraiu pessoas de outros municípios e Estados. E mais ainda: uma leva grande de imigrantes haitianos e senegaleses. Nesta semana, numa sinaleira em Caxias, deparei com um venezuelano portando a seguinte faixa:

“Eu sou da Venezuela. Me ajudem com comida ou com trabalho”.

Essa última palavra acende o sinal vermelho. Caxias do Sul já não oferece oportunidades de trabalho como outrora. A partir da crise iniciada em 2014, empresas precisaram enxugar seus quadros e fazer mais com menos. O legado da retração econômica se estende até os dias de hoje. Nem todos os trabalhadores conseguiram retornar ao mercado de trabalho formal. Os que voltaram experimentaram um achatamento de salários.

Então, muito além dos imigrantes, os próprios moradores de Caxias também foram obrigados a fazer bicos para complementar a renda. Ou migrar para a informalidade. Ou abrir uma microempresa individual. Diante desse contexto, o correto é dizer: sim, os lojistas têm razão de reclamar e cobrar medidas mais duras da fiscalização dos órgãos públicos, uma vez que geram emprego e renda.

Mas também é certo dizer: os ambulantes não estão estirados na rua porque querem. Precisam comer. Precisam trabalhar. E às vezes essa é a única opção, num mercado com ampla oferta de profissionais com qualificação. Resta, então, a sinaleira ou as calçadas da Júlio para ganhar o pão nosso de cada dia. O contexto só mudará com políticas públicas estratégicas para amparar esses imigrantes que recorrem à ilegalidade como o último reduto de dignidade.