Caxias do Sul 28/09/2021

EXCLUSIVO: Pozenato brinda leitores do site com sua tradução do Canto I do “Inferno” de Dante Alighieri

Nos 700 anos da morte do poeta italiano, uma degustação de parte da tradução da “Divina Comédia” feita pelo escritor serrano José Clemente Pozenato
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 13/09/2021 às 16:44:44
EXCLUSIVO: Pozenato brinda leitores do site com sua tradução do Canto I do “Inferno” de Dante Alighieri
Virgílio conduz Dante ao Inferno, em tela do pintor francês Eugène Delacroix (1822)
Foto: DIVULGAÇÃO

Este 14 de setembro de 2021 configura, em essência, uma verdadeira “data dantesca”. Isso porque este é o dia em que o mundo, em especial a Itália e as regiões do planeta influenciadas pela sua cultura (como a Serra Gaúcha, por exemplo), evocam os 700 anos da morte do poeta maior da língua italiana: Dante Alighieri (1265 – 1321).

Celebrações em torno da vida e da obra do escritor estão sendo desenvolvidas em diversos cantos do mundo, e nossos cantos de cá não ficam fora da programação. Como o site vem divulgando já há algum tempo, o escritor serrano José Clemente Pozenato dedicou-se a produzir uma tradução da obra máxima de Dante, “A Divina Comédia”, direto do italiano original para um português moderno, livre de arcaísmos e mais fácil de conversar com o leitor dos dias de hoje (confira matéria especial sobre esse trabalho AQUI).

Nesta terça-feira, dia 14, Pozenato estará em Porto Alegre autografando o primeiro volume de sua obra monumental, a tradução da Parte Um da “Divina Comédia” de Dante, “Inferno”, lançada pela Fundação Antonio Meneghetti. As outras duas partes, “Purgatório” e “Paraíso” deverão ser editadas nos próximos meses.

A sessão de autógrafos acontece no Foyer Nobre do Theatro São Pedro, das 18h às 19h45, antes do início de um espetáculo cênico e musical que terá lugar ali a partir das 20h, intitulado “A Paixão de Dante”. Confira detalhes sobre o espetáculo na matéria especial AQUI

Com o intuito de oferecer com exclusividade ao leitor do site uma degustação da nova tradução do livro, Pozenato libera o “Canto I” do “Inferno”, em uma versão em versos de sete sílabas, conhecido como “redondilha maior”. Segundo Pozenato, tratam-se de “versos populares, de trovador”.

Aqui, Dante se prepara para sua jornada pelas esferas espectrais em busca de sua amada Beatriz, sendo conduzido nesta etapa pelo poeta latino Virgílio. Confira:

DANTE EM REDONDILHA MAIOR

INFERNO – CANTO I

(Dante Alighieri, traduzido por José Clemente Pozenato)

No meio da minha vida

me vi numa selva escura,

sem saber qual a saída.

Descrever é coisa dura

essa selva crua e forte,

que deixa a mente insegura.

Ela é quase como a morte;

mas disso não falarei,

só do que eu vi por sorte.

Não sei contar como entrei:

o sono às vezes me apanha

e a estrada eu deixei.

Mas cheguei a uma montanha

no fim do vale que enchia

de medo a minha entranha,

e vi ao nascer do dia

a encosta com a luz clara

que nos mostra a melhor via.

O medo já se aquietara

no lago do coração

que tão triste me deixara.

Como um sem respiração

dum naufrágio ao se salvar

olha atrás com atenção,

assim, pronto a debandar,

me virei olhando o passo

que ninguém soube contar.

Aliviado do cansaço,

segui pela encosta ardida,

deixando dos pés o traço.

No começo da subida

vi uma onça bem vivaz

toda de malhas tingida;

com o seu olhar audaz

me barrava do destino,

e eu virei-me para trás.

O ar ficava cristalino

e o sol subia das estrelas

de quando o amor divino

criou tantas coisas belas.

Fiquei à espera, então,

junto às manchas amarelas,

em plena e doce estação.

Não tardou que medo desse

a vista de um leão;

parecia que viesse

sobre mim, boca esfaimada:

o ar fazia que tremesse.

E uma loba carregada

de gula em sua magreza,

e que muitos pôs no nada,

me jogou na incerteza

com o horror de sua vista,

e eu perdi minha firmeza.

Como alguém que uma conquista

vem depois toda perder

e no pranto se contrista,

a fera me fez perder

a paz, e me empurrava

para o sol nunca mais ver.

Morro abaixo eu despenhava

e vi alguém que achei enfermo,

de tão quieto que ele estava;

ao vê-lo naquele ermo,

“Miserere”, eu gritei,

“se não estás no teu termo”.

“Homem não sou, já passei:

os meus pais eram lombardos

e mantuanos, é o que sei.

De Júlio, nos dias tardos

nasci, e vivi sob Augusto

em meio a deuses bastardos.

Fui poeta do homem justo

que veio desde Troia,

depois que Ílion foi combusto.

Mas por que vens a esta escória?

por que não sobre o monte

princípio de toda glória?”.

“Então és Virgílio, a fonte

de onde o rio do verbo parte?

- perguntei, baixada a fronte -.

Ó dos poetas estandarte,

valha-me o longo amor

com que li a tua arte.

És meu mestre e meu autor,

onde o estilo fui buscar

que me dá fama e louvor.

A fera me fez parar:

livra-me, sábio famoso,

que eu não paro de pulsar”

“Sai então, vai cauteloso

- falou ao me ver chorando –,

este lugar é pavoroso.

A besta, que estás odiando,

não deixa passar na trilha,

fica até mesmo matando.

É bem ruim essa matilha,

sua fome não arrefece:

come e de fome ainda rilha

Com outras feras parece,

que vão vir, até que o Cão

matará a que merece.

Esse não terá mansão,

mas fé e sabedoria,

e unirá toda a nação.

Dará à Itália harmonia

por Euríalo e Camila,

Turno e Liso em agonia.

Caçará a besta na vila

até a jogar no inferno,

onde a cobiça faz fila.

Peço de modo fraterno

que me deixes te guiar

a um lugar que é eterno.

Gemidos vais escutar

e verás antigos entes

outra morte desejar;

verás também uns contentes

no fogo, esperando ir

junto das felizes gentes.

Podes até o céu subir

se não fores muito insano,

mas da porta eu vou partir:

o Rei que é lá soberano,

por eu ser fora da lei,

não me aceita em seu arcano.

Em toda a parte ele é Rei,

seu trono está onde eu digo:

feliz quem é de sua grei!”.

E eu: “Poeta, vou contigo

até O que não conheceste,

quero sair deste jazigo;

leva-me aonde disseste,

a porta eu quero ver bem

e todos que descreveste”.

Moveu-se, e eu também.