Caxias do Sul 31/08/2026

Entre o Sagrado e o Profano

Uma epifania refere-se não só ao que vem de Deus, divindades ou religião, mas pode ser algo digno de profundo respeito, de veneração
Produzido por Marilia Frosi Galvão, 30/08/2026 às 13:50:38
Entre o Sagrado e o Profano
Escritor e pensador Mircea Eliade provoca profundas reflexões a partir do contato com sua obra
Foto: Divulgação

POR MARILIA FROSI GALVÃO

Sinto o frio em meu rosto. Acelero os passos, porque já é noite. Escura e silenciosa. E eu, caminhante solitária pela Rua Marquês do Herval em direção à Livreiríssima.

Por vezes sabemos a que perigos nos expomos. Dá até um friozinho na barriga, outro tipo de frio. Mãe, tu tem cara de rica. Ahhh, aconchego-me na enorme gola do casaco de peles fake “made in China”. Minha longa saia marrom esvoaça ao vento. Sensação gostosa. Seguro forte a bolsa. Pois, ela contém os valores materiais do momento – celular, óculos, documentos e 30 reais para o táxi, no retorno à casa. Na mão um caderninho de notas e um lápis – inteiro e bem apontado. Uma inocente arma, inconsciente, se precisasse?

Enquanto seguia, olhei para o céu límpido de agosto. E vi a Lua – crescente – e, por Júpiter!!! Avistei o planeta Júpiter. Aprendi com Nivaldo a identificá-lo. Júpiter se mostra como uma grande “estrela” amarelo-alaranjada – mas é um planeta – não cintila como as estrelas.

Essa fugaz contemplação causou – em meu espírito - uma hierofania. Momentos, eventos, fatos, episódios, surpresas em nosso viver, no cotidiano - que não podem nem devem ser explicados, apenas sentidos. São manifestações do Sagrado em nosso mundo comum e profano. Hierofania é uma palavra popularizada pelo historiador das religiões Mircea Eliade (1907 - 1986) – no livro “O Sagrado e o Profano”.

A atenta contemplação da abóbada celeste – em meio à pressa, ao medo, ao vento frio, pelo suave pouso de meus olhos em Júpiter, mesmo que por poucos segundos, desencadeou uma espécie de êxtase ou de experiência religiosa, naquele momento comum. Ou incomum!?

Olho muito para o céu – ouso decifrá-lo. E nunca deixo de me assombrar.

Todos os anos, no mês de agosto, a Terra cruza com o rastro luminoso de poeiras minúsculas deixadas pela trajetória do Cometa Tuttle – em sua órbita de 133 anos. É o espetáculo das Perseidas – ou chuva de meteoros. Este rastro luminoso dura segundos, já aconteceu neste mês, cujo pico ocorreu entre os dias 12 e 13. Continuamente, a luz e o calor do Sol, a estrela mais próxima da Terra – demoram 8 minutos para chegar até nós, por causa dessa poeira cósmica. Quer dizer, então, que, se o Sol se apagar, e estivermos do lado da Terra que ele ilumina, ainda teremos 8 minutos de luz e calor?

Já pararam para pensar que olhar para as estrelas é olhar para o passado?

Saber sobre isso mexeu comigo. Jamais olharei para o céu como dantes – especialmente à noite, com essa ideia... essa beleza que sempre me maravilhou e só passei a compreender melhor porque a ultrapassei. O maravilhamento é outro. Que “mariliavilha”!!

Assim, pois, o sagrado refere-se não só ao que vem de Deus, divindades ou religião, mas pode ser algo digno de profundo respeito, de veneração. Segundo Mircea Eliade – o sagrado não é visto como “bom”, mas como uma força poderosa que dá sentido à vida humana. É o perfeito.

Refletindo sobre isso – lembro de como sacralizei alguns livros. Um “objeto” de uso comum que carrega uma força. Experienciei uma hierofania – uma espécie de catarse – de epifania ao chegar à leitura do sétimo volume de “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust – pois ele mesmo - Marcel - após uma longa procura de um “tempo perdido”– questionamentos e decepções – o autor finalmente descobre-se com a vocação de escritor. O que ele almejou, só obteve a certeza no sétimo livro da saga – intitulado “O Tempo Redescoberto”. Pois, o livro estava nele – em suas memórias voluntárias e involuntárias – e ele seria o mineiro a cavoucar em seu cérebro as jazidas preciosas de sua vida relembrada.

Como não se deixar tocar com essa leitura? Com a leitura?

E, por certo, ler é uma atividade realizada em nosso cotidiano – de forma profana. Assim, profano não é algo ruim, ou pecaminoso – é a rotina – a praticidade no dia a dia.

Entre o profano e o sagrado há modos de ser.

Assim, relembrando alguns dos inúmeros momentos de descobertas em meu passado – pois que somos um poço de memórias –, entendi que temos a capacidade de revivê-las com sensibilidade e uma pitada de imaginação.

Em três quadras, percorri longas distâncias invisíveis em pensamentos em apenas alguns instantes – ou – ou quem sabe – assim como o Sol - nos 8 minutos que faltavam para chegar na iluminada e aconchegante Livreiríssima... ao adentrar nela... esses brilhos intensos de memória – da visão do céu – de Júpiter já pertenciam ao passado.

Marilia Frosi Galvão é professora, escritora e cronista. Tem dois livros publicados: "Fagulhas" e "Tudo é Momento".

(Foto: Claudia Haupt)