Um possível “super El Niño”, fertilizantes mais caros e tensões geopolíticas reacenderam uma pergunta que parece saída do cinema: será preciso estocar alimentos para 2027?
O cenário lembra “A Última Casa”, produção da Netflix em que uma família precisa cultivar o próprio alimento para sobreviver. Na realidade, porém, os dados recomendam atenção e planejamento, mas não pânico.
Em agosto, a NOAA, agência norte-americana de monitoramento climático, apontou mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. A própria instituição ressalta, porém, que um evento intenso aumenta a probabilidade dos impactos associados ao fenômeno, mas não determina sua magnitude em cada região.
Na agricultura brasileira, a alteração das chuvas é uma das principais preocupações. Excesso de precipitação no Sul pode causar erosão, encharcamento, doenças e dificuldades na colheita, enquanto estiagens em outras regiões podem reduzir a produtividade. Soma-se a isso o alerta do J.P. Morgan sobre possíveis restrições no mercado de fertilizantes diante das tensões no Oriente Médio. Para o Brasil, que importa mais de 80% dos fertilizantes que utiliza, segundo o Ministério da Agricultura, essa é uma vulnerabilidade importante.
Mas risco agrícola não significa falta de comida. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul são um bom exemplo. O estado responde por cerca de 70% do arroz brasileiro e sofreu perdas importantes, mas aproximadamente 84% da área já havia sido colhida quando ocorreu o desastre. Apesar das previsões preocupantes, o país não ficou sem arroz.
A China mantém grandes reservas de grãos como política de segurança alimentar, estratégia diferente de recomendar estoques domésticos. O Brasil também possui estoques públicos administrados pela Conab e, em agosto, o Governo Federal destinou mais de R$ 849 milhões para reforçar reservas de produtos como arroz e milho diante dos possíveis efeitos do El Niño.
Para 2027, o risco mais plausível não é encontrar supermercados vazios, mas pagar mais por alguns alimentos. Quebras regionais podem encarecer grãos; milho e soja mais caros pressionam as rações e podem chegar aos preços de carnes, leite e ovos. Hortaliças e outros produtos sensíveis ao clima também podem oscilar.
Para o consumidor, portanto, preparar-se significa planejamento, não estocagem. Evitar desperdícios, acompanhar preços, priorizar produtos da estação e substituir temporariamente aqueles que encarecerem são atitudes mais racionais. Compras excessivas podem, inclusive, criar escassez artificial e pressionar preços.
O El Niño merece acompanhamento. Mas, diante das informações disponíveis atualmente, não há evidências de desabastecimento generalizado que justifiquem estoques domésticos extraordinários. Entre ignorar os riscos e preparar a despensa para uma catástrofe, há um caminho mais seguro: a ciência, planejamento e, principalmente, a informação.
Paula Cristiane Oliveira Braz é administradora, especialista em Agronegócios e monitora pedagógica dos cursos de pós-graduação na área no Centro Universitário Internacional Uninter.