Acreditar que temos o perdão, ou não, do outro, nas nossas mãos, nos faz, ilusoriamente, sentir a sensação de que somos superiores. Por quê?
Ele pode estar se referindo a uma atitude, uma palavra dita ao acaso, ou a um desentendimento que assumiu proporções mais amplas.
Podemos nos perceber machucados pelas atitudes do outro. Esquecemos, no entanto, que é só assim que ele consegue agir, ele talvez não tenha tido as informações que você teve, o conhecimento, a sabedoria, o entendimento. A lucidez não o habita nesse episódio específico.
Talvez ele aja com tanta imaturidade, aspereza, e não é só com você: é também com ele próprio. Sim, pois quando ele faz a você algo em desequilíbrio, isso ressoa dentro dele. Então, é para si mesmo que ele edifica a desavença. São atitudes que refletem nele próprio. É o eco do que ele fez voltando para si e, quiçá, a consciência se mostrando, aos poucos, presente.
É claro que estamos falando de pessoas que não fazem por maldade, nos referimos a aquelas que não têm consciência do mal que direcionam ao outro. Nos achamos superiores quando acreditamos que precisamos perdoar alguém. Se vivemos num mundo onde cada um dá o melhor que tem, por que devem ser julgados e culpabilizados se nem enxergam que os magoamos?
Se existem pessoas rudes demais, existem as sensíveis demais que assumem até o que não é seu e ficam a se lamentar. Onde está o equilíbrio?
Sabe aquela sensação que procuramos quando percebemos que estamos em desequilíbrio? Aquele sentir que nos faz sermos mais do que o outro, e isso não é verdade – somos humanos.
Que visão fragmentada é essa de se imaginar no controle, com os olhos refletidos só sobre si mesmo, deixando o outro na escuridão do anonimato? O fato é que não estamos nem acima, nem abaixo do outro. Se olharmos direito, perceberemos que, na escola da evolução, estamos todos de mãos dadas.
Que direito tenho de me fazer ser contramestre do universo? Quem me colocou nesse lugar? E você, alguém te aplaude nesse lugar de destaque em que se encontra?
Por isso, podemos dizer que o perdão vem amarrado à compreensão. Quando entendemos o que acontece, ele nos invade e alivia nosso ser cansado de esperar por um perdão que está no colo do outro, ou por poder perdoar o outro.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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