O pai que não estava presente, que fez falta, que não se gestou pelos dias, que não nutriu de afeto.
O pai que se omitiu de falar, de deixar claras as regras, que não pensou em como ajudar e direcionar o filho.
Que deixou um vácuo, um vazio...
Ou aquele, que fazia no automático. Fazia, porque alguém dizia que era para fazer. Imitava, porque não carregava registro algum do pai que acolhe e sustenta em si.
Que pai foi e é esse? Que sentiu junto. Que se transformou num pai, conforme os dias foram acontecendo. Que buscou dentro de si os registros de valor que não tinha e se transformou num valoroso pai. Aquele que se construiu da falta.
Ele queria segurar perto de si o pai que desejou ter. Aquele que apoia, que pega no colo, que ensina as coisas simples da vida: a pescar, a plantar, a sorrir e a viver. Mas, por mais que procurasse, não o encontrava.
Ele desejava o pai de fala mansa, olhar tranquilo. Aquele que ele imaginou... mas seu pai tinha defeitos, muitos... Ele cansava demais, não conseguia dizer que o amava; se ausentava demais. Apesar de tudo isso, ele se preocupava e nutria.
O outro teve um pai muito mais ausente, muito menos carinhoso, menos próximo. Um pai que olhava com o olhar zangado, de longe onde estava. E agora, como fazer? Como mudar?
O pai do amigo, ali no lado, mesmo presente, se fazia sempre ausente. Deixava brechas, deixava distâncias e não sabia como se portar. Ele não aprendeu a ser pai. Era um filho e não conseguia sair desse lugar. Era turrão, mandão e, sem razão, continuava fazendo atrapalhações.
Os pais eram diferentes. Alguns deixaram buracos, vazios, distanciamentos. Outros, com seus braços longos, distribuíam afeto. Esse que deu afeição é o que sempre estará presente.
O pai que fez falta também pode ser a mãe que se ausentou de ser mãe.
E agora, na jornada, todos procurando dentro de si o que tinham, o que aprenderam, o que ficou em aberto. Hoje, adultos, precisavam se construir diferentes com o pai que não tiveram; mas que sabiam que existia e que procuravam dentro de si maneiras de o construir.
Em pai e filho(a) foram se construindo juntos, cada qual descobrindo seu lugar, e seu jeito único de funcionar. Resgataram maneiras de seguir conforme o tempo e os acontecimentos iam passando. Descobriram juntos novas formas de amar, de se amar. Sabe aquele pai que foi além das bordas pelo amor à família? É isso que vale.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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