Os segredos na nossa vida ocupam espaços, travam sentimentos, empobrecem relacionamentos saudáveis - traduzem-se em lamentos que, por vezes, e até, geralmente, não são compreendidos.
Não existe somente um único segredo que pode bloquear os nossos passos, distorcer nossa direção. São inúmeros que se constroem, que atrofiam nossos planos. Por vezes nem temos consciência do emaranhado de sentimentos e de atitudes que estão intrínsecos a eles. Alguns se desvendam no decorrer do tempo, outros, no entanto, permanecem no não dito e não compreendido.
A verdade é que segredos criam falsas ilusões, distanciam pessoas e promovem desentendimentos.
“Não vou conseguir nada empurrando você para longe” - dizia a jovem senhora. Mas até que compreendesse isso construiu muitos distanciamentos e com inúmeras pessoas. Tantos, que alguns não conseguiu reconstruir, quando o entendimento veio lhe visitar.
Agora tinha o entendimento de que: “Empurrar você para longe só criou mais distanciamento, mais tristeza... até porque o outro, assim como eu, era orgulhoso e esperou, vindo do outro, a acolhida que não chegou, que não se construiu”. Verbalizando, ia dando voz às suas angústias e verificando o quanto afastou coisas boas da sua vida.
Vê-se casais e parceiros que, frios e distantes, seguem se relacionando. Não enxergam maneiras de se aproximar, de construir uma relação mais positiva, mais verdadeira, e, com isso, só alimentam o distanciamento. Assim, atrasam a fluidez da vida, que fica paralisada por mágoas e lamentos que não se dissipam. Inclusive, pela falta de fé, que não encontrou um lugar seguro para se desenvolver.
Muitas vezes, a visão pessimista empurra para longe um do outro; ou, então, a falta de construção de vínculos positivos se torna um obstáculo para a fluidez do entendimento.
Sim, algumas vezes nos perdemos. Perdemos o sentido, perdemos as referências, que ficam momentaneamente apagadas. É relevante entrar em contato com os resgates profundos que estão em profusão e que podem, pouco a pouco, se reintegrar.
Sei, no entanto, que não importa somente para onde eu vou, mas é relevante que, junto ao destino ao qual me direciono, eu tenha consolidado o que acredito, ou seja, os valores e os sentimentos que carrego em mim.
Assim, sentido e direção andam de mãos dadas, pelos caminhos por onde me dirijo, por onde minha vida se encontra com a sua. Encontremos, juntos, o alinhamento dos nossos maiores trunfos, para chegar ao final do caminho e saber que fizemos o melhor que aqui viemos realizar.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
Da mesma autora, leia outro texto AQUI