Caxias do Sul 16/09/2026

Amizade entre as religiões

Todas elas nascem do desejo de serem boas, assim como o ser humano
Produzido por Neusa Picolli Fante, 15/09/2026 às 09:09:41
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda

Acredito que há uma amizade linda entre as religiões para nascer. Até porque aprendi a olhar todas elas com afeto, como ponte e como acolhida para as pessoas.

Saímos do lugar de ver que uma é mais importante que a outra. Aqui incluo as que não conheço direito também. Todas nascem do desejo de serem boas, assim como o ser humano. Elas só necessitam amadurecer e se desenvolver, assim como nós.

Elas são caminho para ampliarmos a escuta sábia e a direção segura, seja dos nossos pensamentos, sentimentos, ou até das atitudes.

Lembro de quando, por longos anos, acompanhei o grupo de pais enlutados. Eles se uniam no amor e na dor que sentiam. No amor aos filhos fisicamente distantes, mas emocionalmente e espiritualmente junto a eles. E a dor apresentava nuances diferentes, um ensinava ao outro como escutar seu coração e acolher-se um pouco mais. Ser testemunha de um amor que transcendia e ver uma linguagem comum que se evidenciava, isso inebriava meu ser. Tudo que estavam vivendo se ensaiava para uma eternidade com mais presença, direção e cuidado.

Ganhei inclusive evangelhos de diversas religiões dos pais que acolhi, os quais guardo comigo com muito afeto. Em cada página desses está contido o amor e a direção que tanto cultivam. O mais importante é que, além de ricas explanações, vi renascer a fé, impressa ou não neles.

Afinal, religião não é disputa, é direção, é crença. É um lugar tranquilo dentro de si para o que acredita, para poder repousar e confiar no direcionamento escolhido.

A diferença não é a religião que frequentamos, é do amor que cabe no nosso peito. É o direcionamento para a vida que mantemos...

Sim, estamos em momentos diferentes, em aprendizados singulares, e podemos dizer que esses desafios se encontram em pessoas de todas as religiões.

O que nos separa então é a fé, o amor, a sabedoria... Isso? Ou, qual a porta em que posso entrar? Para onde vamos? Qual pergunta te instiga, qual resposta te deixa com mil dúvidas? Esses, entre muitos questionamentos, se fazem presentes quando olhamos para a fé que amplia nossos caminhos.

Então, reitero: será que não precisamos estar separados por categorias? Pois cada um necessita respeitar crenças e valores do outro, assim como respeitar as pequenas diferenças que se constroem no dia a dia.

Sou a que se encanta com os olhos de fé de um pai de uma determinada religião, que falava sobre a filhinha falecida e as revelações do encontro que teve... Sou a que se encanta com um senhor de outra religião que mostra a resiliência do idoso diante das limitações do envelhecer e o aproximar-se da morte. Sou a que se encanta com a mãe encontrando caminhos em outra religião ainda, para enxergar além... Sou a que se encanta!

Sei que, independentemente da religiosidade, estamos no lugar de ensinantes e aprendentes em todos os momentos da nossa existência e em todas as crenças que nos rodeiam. Se nos colocamos humildemente nesse lugar, a vida se integra, flui, e vamos além dos muros estabelecidos por nós ou pelos nossos antepassados.

Essa é a essência do viver. Me inebrio quando vejo pessoas de diferentes crenças partilhando a vida, o amor. Que isso se alargue além fronteiras.

Que eu aprenda cada vez mais essa lição e você também!

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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