Caxias do Sul 30/10/2020

'O DIABO DE CADA DIA' é thriller psicológico atordoante

Corrompidos, fanáticos e extremistas, assim são os personagens saídos do livro de Donald Ray Pollock
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 20/09/2020 às 08:53:41
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

“Algumas pessoas nasceram para serem enterradas”. Porque brutas, adoecidas, diabólicas, fazem-nos tanto mal que somente soterradas na memória podemos sobreviver a elas. A frase vem de um diálogo de O Diabo De Cada Dia (The Devil All The Time, 2020), lançado na última quarta-feira (16/09), pela Netflix, e que está cotado para o Oscar 2021.

Dirigido por Antonio Campos, o filme é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock, publicado no Brasil em 2011 sob o título “O Mal Nosso De Cada Dia”. Relação pai e filho, destinos cruzados, sincronicidades estranhas, crimes em série (uma espécie de “road killers” em segundo plano), prostituição e devoção religiosa torneiam a obra com elenco estelar.

A abordagem é impiedosa, com reviravoltas que o espectador acompanha surpreso em 2h18min, sem cansaço algum. Se de início o ritmo parece lento devido à complexidade do enredo, logo que se desembaraça nos fisga por completo. O filme enfatiza o louvor a um Deus supremo e exigente, expondo os danos colaterais desse fanatismo.

O autor do livro ressalta que, na história humana, mais pessoas foram mortas por motivos religiosos nos últimos dois mil anos do que por qualquer outra razão. “É uma vergonha o fato do conceito de 'Deus' ser manipulado para permitir a violência”, afirma. O tema faz eco à realidade atual abarrotada de lunáticos fervorosos por todo lado. Embora se trate de ficção, o filme nos impele a refletir sobre o estado de coisas à nossa volta.

São personagens que acreditam ouvir o chamado divino, esquecendo-se que há um Diabo a cada esquina. São figuras capazes dos atos mais abomináveis para provar a si e a Deus que são realmente os eleitos. Trata-se de uma cegueira perturbadora e irresponsável. Antonio Campos referenda a fala de Pollock: “O Diabo De Cada Dia dialoga com a religião e o extremismo, e sua temática fala diretamente com este tempo em que vivemos”.

Antonio Mendes dirige Tom Holland

A partir de dois núcleos temporais que convergem pelo acaso e necessidade, o protagonista Arvin Russel, vivido por Tom Holland, carrega seus conflitos pessoais no Meio-Oeste americano, depois de penosa infância. Holland, de O Homem Aranha 3, entrega uma atuação com alma, exatamente o que seu personagem exige, tendo o cuidado de ser também contido.

Pai e filho, conflitos internos

Tom Holland, várias nuances

Aquele menino que vivencia as atrocidades do pai, crente em um Deus capaz de curar os piores males, cresce com o ensinamento mais marcante de sua infância: sempre que preciso, use da violência. O passado abre-se para ele em portas secretas em que o Diabo espreita. As mesmas que atormentavam o pai, William Russel (Bill Skarsgard), homem simples que tem a fé abalada por eventos traumáticos na II Guerra Mundial.

O cineasta cria uma experiência imersiva para o espectador nesse mundo em que desengano, fé e angústia se entrelaçam. Essas “mãos” unidas parecem as mesmas dos devotos na igreja ou, como as de Arvin criança, diante do “altar” erigido pelo pai. Às asperezas e brutalidades contrapõem-se a crédula ingenuidade nas figuras da avó e da meia-irmã de Arvin, Lenora (Eliza Scanlen).

Haley-Bennett interpreta Charlotte Russel

Jason Clarke e Riley Keough, “road killers”

Com personagens em círculos concêntricos, a obra reúne o brilho de um elenco esmerado, mesmo em curtas aparições. Dessas, a de Robert Pattinson é a mais notável (sim, o aguardado novo Batman). Como diz seu personagem, o abusivo pastor Preston Teagardin a respeito de certos fatos: “delusional” (delirante), “illusion” (ilusão). Assim é sua atuação, uma das melhores de sua carreira. O diretor Antonio Campos conta que pediu ao ator que se soltasse em cena.

“Uma coisa que eu sempre falava com o Robert era: 'não se segure, só vai'. E ele foi. Às vezes, ele ficava tão louco que começava a rir. As minhas atuações favoritas são aquelas em que o ator está em um caminho, que, se for um pouquinho para o lado, não funciona. É muito empolgante o momento em que você vê isso funcionar”.

Robert Pattinson em atuação caprichada

Assista ao trailer AQUI

FICHA TÉCNICA

O Diabo de Cada Dia (The Devil All the Time)

EUA, 2020

Direção: Antonio Campos
Roteiro: Antonio Campos

Fotografia: Lol Crawley

Trilha Sonora:Danny Bensi, Saunder Jurriaans

Elenco: Tom Holland, Robert Pattinson,, Bill Skarsgård, Haley Bennett, Riley Keough, Harry Melling, Sebastian Stan, Mia Wasikowska, Eliza Scanlen, Jason Clarke, Douglas Hodge, Drew Starkey, Given Sharp, Lucy Faust, Abby Glover, Michael Banks Repeta

Duração: 2h18min

DE OLHO NO SET

Antonio Campos, 37 anos, nasceu em Nova York e é filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes (Manhatan Connection) com a produtora de filmes independentes, Rose Ganguzza, de origem italiana.

No currículo do cineasta estão Afterschool (2008), Simon Assassino (2012) e Christine – Uma História Verdadeira (2016).

O cineasta dirigiu séries internacionais de sucesso como The Sinner e O Justiceiro, ambas disponíveis na Netflix.

A voz em off que conduz a história do filme é de Donald Ray Pollock, autor do livro, a convite de Campos.

Os atores desenvolveram o sotaque da região de Ohio com um instrutor de dialetos e também ouviram gravações com as vozes de moradores locais.

Robert Pattinson, que é inglês, não elaborou apenas o sotaque, criou em segredo uma nova voz para o personagem.

O escritor Pollock foi motorista de caminhão por quase três décadas até resolver mudar de vida matriculando-se nas aulas de literatura da Universidade Estadual de Ohio, aos 50 anos.

Fotos Divulgação Netflix

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com

Da mesma autora, leia outro texto AQUI