Caxias do Sul 19/09/2020

‘HOMECOMING’ ao estilo Hitchcock é imperdível

Série se sustenta em arquitetura ficcional complexa e traz estreia de Julia Roberts em streaming
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 13/09/2020 às 09:02:12
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

São tantas associações e vislumbres à estética do genial Alfred Hitchcock que Homecoming (2018-2020) é mais que uma série, é um presente. A proposta não é apenas inovadora pelos temas que conjuga, mas no modo como o faz, absolutamente alinhada ao abecedário do diretor inglês.

O eixo temático é um projeto experimental de modificações e/ou apagamento de memórias afetivo/traumáticas em veteranos de guerra. Costurar a trama hitchcockianamente é um feito. Nesse caso, uma referência que cumpre o que promete, como Hitch o fazia.

Não há nada que não possa ser executado com maestria quando se tem inventividade e generosas porções de ousadia. Pitada aqui é bobagem para Sam Esmail, criador da série original da Amazon Prime Video. Seu sucesso anterior é nada menos que Mr. Robot (2015-2019), também disponível na plataforma. E se a inspiração para tal for um podcast? Aí então, a aposta é na total liberdade expressiva.

Primeiro você vai até achar esquisito o formato da tela ou as cores e a iluminação, o ritmo das cenas. O aquário naquela sala em que se vê nada menos que uma Julia Roberts cada vez mais empática, em sua estreia no universo das séries. Ela é também produtora executiva, a mulher por trás dessa complexa e bem desenvolvida arquitetura ficcional.

Stephan James e Julia Roberts

Sam Esmail, o criador da série

Julia é Heidi Bergman, assistente social que faz as vezes de terapeuta para veteranos de um programa experimental. Controlado pela empresa Geist o projeto trata estresse pós-traumático combinado com a reinserção dos soldados na sociedade. Walter Cruz (Stephan James), um dos escolhidos, desenvolve um forte vínculo com Heidi. Esse é o ponto de partida da primeira temporada em que a personagem-chave nos conduz a uma jornada que nem mesmo ela compreende.

Tão ingênuos quanto Heidi, tropeçamos em enigmas e, como ela, ficamos cada vez mais enredados, curiosos e aflitos. Tudo bem embrulhado em teorias conspiratórias cujo tom perturbador implica em linhas temporais distintas na história até o fecho no último capítulo. Enquanto isso nos perguntamos do que afinal se trata essa testagem experimental? Qual seu real propósito?

Encaixamos as peças com o que é dito, visto, insinuado, subtraído, sequer sugerido. Tudo é possível nesse enredo que é também o registro de uma sociedade esquizofrênica. Muito mais que a mente adoecida dos veteranos, é o antiético poder governamental e de empresas privadas, como a fictícia Geist, que normatizam o arco da loucura. Essa, permitida e bem paga. Mas só nos damos conta quando a intriga requer colagem emocional. A nossa, a dos personagens.

Se na segunda temporada não temos mais a personagem de Julia Roberts (sim, eu também fiz: óoo), a sequência se mantém atrativa com a atuação eficiente de Janelle Monáe, como Jackie/Alex, e de Audrey Temple (Hong Chau). Novamente, questões éticas são colocadas de modo incisivo, mas o desfecho soa esquisito com uma solução pobre e decepcionante. Um tanto à Westworld, um pouco Game of Thrones, com um quê de Arquivo X.

Janelle Monáe na temporada 2

Hong Chau vive Audrey Temple

Fotografia, direção de arte e trilha sonora conferem à série uma combinação de efeitos marcantes. Se na temporada 1 os enquadramentos e o formato da tela não convencional induzem a um certo estranhamento, que não compromete a fruição, ao contrário, a expande; na temporada 2, a proporção padrão é retomada e traz excelentes tomadas e angulações. Algumas remetem claramente a filmes como Um Corpo que Cai (1958) e Psicose (1960).

A estimulante e vigorosa trilha sonora pontua as cenas de forma impressiva. Podemos ouvir em um dos episódios da primeira temporada, por exemplo, o tema da franquia Halloween, do diretor John Carpenter, e na segunda, Nina Simone (1933-2003) magistral, interpretando “My Way” (imortalizada nas vozes de Sinatra e Elvis).

Sente o som de Nina Simone AQUI

Proporção de tela não convencional

Os episódios não ultrapassam os 30 minutos, a maioria nem chega a isso. Não há excesso ou enrolação. Homecoming é um puzzle, um quebra-cabeças, uma partida de xadrez. Uma rara experiência no universo de séries cada vez mais pasteurizadas.

Sabe quando a gente diz que “nada é o que parece”? Isso faz todo o sentido em Homecoming. Se você é espectador esperto, daqueles à cata de originalidade nos gêneros drama e suspense psicológico, está aí o que buscava. Acesse, assista e depois me conte se o autor de Mr. Robot não se superou mais uma vez.

Assista ao trailer da temporada 1 AQUI

Assista ao trailer da temporada 2 AQUI

DE OLHO NO SET

Homecoming origina-se do podcast homônimo lançado pela plataforma digital Gimlet, em 2016.

Micah Bloomberg e Eli Horowitz, criadores do podcast, são corroteiristas da série.

O ator Bobby Cannavale, que interpreta o inescrupuloso Colin Belfast, mentor do projeto, já conquistou dois prêmios Emmy por seu trabalho em Boardwalk Empire (2013) e Will & Grace (2005).

Bobby Cannavale, vilão notável

O presidente da empresa, o surpreendente Sr. Geist, vivido por Chris Cooper em uma excepcional performance, só aparece na temporada 2. Cooper ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em 2003 por Inadaptado.

Chris Cooper, atuação admirável

Entre as inúmeras referências às obras de Hitchcock, não deixe passar a do melão, fruta utilizada para simular o som das facadas na cena do chuveiro em Psicose.

Homecoming 2 se aproxima em muitos sentidos da série Arquivo X pelas teorias conspiratórias e a busca pela verdade acima de tudo.

Vem aí Homecoming 3? Os produtores respondem: “Tentamos sempre deixar portas secretas para as próximas temporadas…”

Dica!

Você pode testar a Amazon Prime Video gratuitamente por 30 dias e assistir as temporadas 1 e 2.

Créditos das fotos: Amazon Prime Video

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com

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