Caxias do Sul 30/10/2020

Arthur Flack, escuta-me um pouquinho!

Ao Coringa do filme “Joker”, uma mensagem sobre os tempos de agora e nosso desconforto
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 16/08/2020 às 08:43:37
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

Arthur Flack, tenho pensado em você. Lembra de sua pergunta: “Sou só eu, ou o mundo está ficando mais louco lá fora?”. Cada dia mais louco, Arthur. Cada dia mais voraz, como quando você estava no meio daquela multidão ensandecida no final de Joker (2019).

Você, com sua cara pintada de palhaço com aquele riso... Meu Deus, aquele riso! Que era tristeza infinita e vontade, também infinita, de não sentir mais tristeza ou dor ou qualquer coisa que deixe a gente cabisbaixo, se sentindo mal, um nada, um coisa nenhuma.

Quando olho para esse agora muito fora de propósito e lembro da tua fala, simplesmente concordo. Você me parece tão próximo, Arthur. Gostaria de te dar um abraço, mas é contra os protocolos.

Então, ficamos assim. Você no imaginário cinematográfico, eu no meu próprio. Prometo que vou tentar não enlouquecer. Continuo no meu cantinho até soarem as trombetas. Anjos virão! Nunca pensei tanto neles, Arthur. Jamais os desejei assim, até com um certo frenesi.

Não sei por onde você anda agora. Será que o Joaquin Phoenix ainda te tem na pele? Que nome bonito o dele, não é? Phoenix de sobrenome é qualquer coisa de belo e trágico ao mesmo tempo.

Não, não quero falar aqui sobre o irmão dele, o River. Já estou imersa em tragédias demais. Por aqui me tapo de nojo de umas gentes sem caráter, sem amor ao próximo, cheias de vaidades, irresponsáveis, negligentes. Desculpe se vou falando assim, meio que num jorro só.

É que andamos tão cansados, sabe? É uma coisa que jamais imaginamos e acho que nem você. Tem um vírus aqui Arthur, que causa uma doença que pode ser letal. Por incrível que pareça, no meu país, apesar do número desmesurado de mortes, tem quem não acredite.

Além das perdas humanas, vieram outras, as de patrimônios culturais, fecharam a Cinemateca Brasileira e querem taxar os livros, viu? Essa gente marqueteira, boa de lábia que consegue inverter verdades e criar falsas notícias. É gente muito sabida, do tipo que não dá ponto sem nó, Coringa.

Arthur Flack, apenas um homem comum

Joaquin Phoenix, interpretação intensa

Acho que me perdi um pouco do que queria te dizer. É que, pra falar a verdade, nunca conversei com alguém que só existe na ficção, fora da realidade. Não que essa palavrinha, realidade, tenha um sentido maior do que qualquer outra. É que a ela estamos habituados, mesmo que a gente se confunda um pouco com o que é e o que não é real. É essa coisa de virtualidade, sabe? E também da nossa imaginação tão criativa.

Arthur, sei que existem outras versões tuas. Nós humanos também temos várias de nós mesmos. Quanto mais o tempo passa, mais mudamos, nos adaptamos, nos esquecemos da nossa origem e interpretamos novos papéis.

Nem tudo é ruim, Arthur, porque com isso crescemos. De um jeito ou de outro, crescemos. Mas já me perdi outra vez. Minha mente hipertextual me leva de uma coisa a outra que leva a outra e outra e quando vejo, segui caminhos inimagináveis. E, claro, não sei mais onde tudo começou. Será que alguém sabe? Até o Chico Buarque pergunta em “Almanaque”:

“Ó menina vai ver nesse almanaque
Como é que isso tudo começou”

Acho que eu falava das versões da tua persona. Nomes incríveis como Jack Nicholson e Heath Ledger, cada um a seu modo, te deram vida em atuações inesquecíveis, perturbadoras. Contudo escolhi o Joaquin como tua imagem porque ele te compôs tão humano a ponto de nos identificarmos. Tuas camadas e nuances são também as de muitos de nós, acredite. Ele fez tudo tão bem que levou o Oscar, Globo de Ouro e Bafta de Melhor Ator.

Oscar de Melhor Ator em 2020

A luz do filme, as cores, a trilha sonora, aquela cidade... Mas, de tudo, o teu olhar. O teu riso nervoso, sim. Mas o teu olhar. Como quem vê além e antes e tampouco quando. Algo assim, entre o enigmático e o que se entrega de uma vez só. Ou não. Ora, Arthur, você vai dizer que sou bem doida também. Eu sei que sim. É que o mundo perdeu as rédeas, as bússolas, queimaram-se os mapas e há quem jure que a Terra é plana. Então, fica bem difícil ser coerente em tempos tão descontrolados.

Ai, Arthur, preciso te dizer que o mundo não ficcional - acho que é nele que vivo - pode ser inóspito, ridículo e absurdo como qualquer outro. Já tive vontade de pintar a cara à tua imagem. Sim, sim, creio que muitos e muitos, não só eu. Dá uma vontade de romper com tudo e heroicamente transformar o mundo. Isso deve ser coisa de quem assistiu muito filme do Bruce Willis lá na década de 90. Salvar o mundo era o mantra e várias obras traçaram essa aventura.

Se bem que recentemente assisti uma série alemã incrível, Dark, será que ouviu falar? Tinha um lance de viagem no tempo, sabe? Mas também um mote de salvar o mundo do apocalipse. É claro que nada era o que parecia e por isso mesmo adorei.

Mas voltando, te conheci na TV, sabia? Nossa, era muito legal porque tinha o Batman e o Robin e aquelas onomatopeias maravilhosas. Pow! Bam! Boom! Como seria legal se tudo se resolvesse com elas, sem sangue, dor, morte, apenas uns socos e uns pontapés de mentira. Coisa do faz de conta, eu sei. Poxa, mas seria um alívio!

E, nesses murros, a gente sacava fora as enfermidades, o ódio, as rivalidades, os egos inflados e tantas outras coisas ruins. Já pensou, Arthur? Ter um pouco de sossego, poder respirar sem máscara, rir frouxo sem mais aquela. Simplesmente porque é bom sentir, seja o que for. Ainda que possa ser um pouco triste ou melancólico, eu sei. A vida, afinal, é feita de imperfeições.

A inesquecível dança na escadaria

Desculpe aí, acabei me alongando. Falo à beça, né? Coisa de geminiana. Coisa de quem está sempre perguntando e querendo saber mais. Respostas? Aí é pedir demais e você bem sabe. Senão a sua história seria muito diferente.

Olha, entendi que ninguém tem respostas. E essa coisa de dizer que nós mesmos é que as temos, sei não. Dependendo da pergunta, só Deus. E aí a coisa complica ainda mais, pois entramos em um terreno ambíguo. Melhor parar por aqui. Com um bom café e o desejo de que do lado de cá da ficção, a nossa Gotham deixe de ser tão obscura assim.

Assista ao trailer de Joker AQUI

NOS FOTOGRAMAS

Conheça os intérpretes do Coringa na televisão e no cinema. Existem também animações e games com o personagem, mas estes não constam dessa lista.

Cesar Romero é um considerado um dos Coringas mais icônicos, além de ser e o primeiro na televisão. O ator interpretou o vilão na série Batman de 1966 até seu término, em 1968.

Em 1989, Tim Burton dirigiu Batman, filme no qual o antagonista é o Coringa, interpretado por Jack Nicholson. No longa, ele se chama Jack Napier e é o responsável pelo assassinato dos pais do garoto Bruce Wayne.

Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, traz uma das mais celebradas versões do Coringa, interpretado por Heath Ledger (1979-2008). O ator foi premiado postumamente com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2009.

Jared Leto, vocalista da banda 30 Seconds to Mars, deu vida ao vilão em Esquadrão Suicida (2016), de David Ayer. Sua performance é considerada a pior de todos os tempos por críticos e fãs do Coringa.

Cameron Monaghan é o Coringa da sombria série Gotham. Lançada pela Fox em 2014 teve cinco temporadas, a última em abril de 2019.

DE OLHO NAS HQs

O visual do personagem de Conrad Veidt em O Homem Que Ri (1928), dirigido pelo expressionista alemão Paul Leni, serviu de base para os quadrinistas Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson criarem o Coringa.

O arqui-inimigo do Cavaleiro das Trevas apareceu pela primeira vez na HQ do Batman, em 1940, como um gênio criminoso vestido de palhaço. Ele matava suas vítimas com um soro que as deixava com um sorriso macabro.

Coringa, que já foi chamado de “Arlequim do Ódio”, virou maníaco psicopata em 1973, em uma revista do Batman.

Em 1988, a graphic novel “Piada Mortal” apresenta a versão mais sádica, psicótica e cruel do vilão. A HQ é considerada uma das mais icônicas de todos os tempos.

A origem do Coringa nunca foi contada oficialmente. Em “A Piada Mortal” tem-se a que se aproxima mais de sua gênese definitiva: um cidadão comum com problemas financeiros que tenta ganhar a vida como comediante. No filme Joker percebemos a utilização dessa provável origem.

Popular na série de TV dos anos 1960, o Coringa ganhou uma HQ própria em 1975.

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com

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