Caxias do Sul 30/10/2020

Olhar sensível poetiza romance proibido

"Elisa e Marcela" inspira-se na história real de espanholas que viveram muito à frente de seu tempo
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 09/08/2020 às 08:52:09
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

Aconteceu lá no final do século XIX, início do XX, na Galícia, Espanha. E não é invenção. Naquele período histórico, Vang Gogh criava “A Noite Estrelada”, Freud incursionava pela psicanálise com seu “A Interpretação dos Sonhos” e Machado de Assis publicava “Dom Casmurro”. Algumas guerras movimentaram tropas espanholas, enquanto as duas mulheres lutavam pelo seu amor.

Elisa e Marcela (2019) conta a história do relacionamento entre as duas e do casamento, com uma delas se passando por homem. Ao que se sabe, até hoje elas são o único par homoafetivo casado pela Igreja Católica. Isso aconteceu em agosto de 1902. A história lendária aparece inclusive no livro “Os Filhos dos Dias” (2012), de Eduardo Galeano.

No filme, Elisa Sánchez Origa é interpretada por Natalia de Molina, e Marcela Graças Ibea, por Greta Fernández. A câmera da diretora Isabel Coixet está a serviço desse afeto que passa pela adolescência e segue na maturidade. São meninas-mulheres a descobrir sensações, a querer cuidar uma da outra. O casal quer compartir sua existência, trabalhar (são professoras) e viver com dignidade. Tudo o que uma sociedade misógina não suporta.

A coragem motiva as ações do casal em busca de um espaço de aceitação que ainda hoje é motivo de luta. A obra revela o cosmos doentio das sociedades patriarcais em que os guardiões da moralidade e dos regramentos sociais autorizam-se a difamar, reprimir e punir. Sexo para eles é restrito ao paradigma secular homem/mulher, qualquer comportamento fora dessa equação é apontado como desvio.

Imagem real da união histórica

Sonhos e afeto entre as duas

É no palpável de pele contra pele, no beijo - a princípio tímido, depois mais demorado -, nas pintinhas do corpo de uma, na marca do pescoço da outra, que elas se tornam uma única medula. E, principalmente, no que diz respeito ao que não se tem como nomear, mas que a gente arrisca chamar de cumplicidade.

Elisa e Marcela traz o olhar suave de Isabel Coixet que divide o roteiro com o pesquisador Narciso de Gabriel, autor do livro “Elisa e Marcela – Muito Além dos Homens” (2008). A obra cinematográfica está longe de ser perfeita, é truncada em alguns momentos. Talvez por isso, a diretora tenha usado a técnica “iris shot”, característica do cinema mudo, para marcar passagens e transições. Trata-se daquele círculo preto que gradualmente se fecha para terminar uma cena antes de iniciar outra.

Afeto e sensualidade

Depois de assistir ao filme, inventei que Elisa e Marcela bem poderia ser título de poesia, pois há nelas uma leveza de pluma, um desanuviar de alegria, uns versos descabidos de espíritos livres. Formam um par aguerrido e sua mensagem deve ser sempre lembrada: no afeto não existe gênero, apenas almas que se encontram e se adivinham. Como em qualquer outra relação.

Assista ao trailer AQUI

NOS FOTOGRAMAS

Uma breve leitura sobre a possível simbologia da imagem de octopus no filme.

Recorrência do polvo na trama

Há em Elisa e Marcela pelo menos três cenas-chave em que aparecem polvos. Pendurados, em primeiro plano, quando elas brincam na praia ainda meninas. Depois, a câmera mostra, furtivamente, um polvo entre a água e a areia. Por fim, as duas com o animal em seus corpos nus, em um abraço de risos e brincadeiras.

Curiosamente, certos polvos, segundo estudos científicos, têm capacidade de mudar de forma e movimentos para se passar por outros animais marinhos. Eles são brincalhões e inteligentes. Simbolicamente, representam mistério e também a necessidade de se camuflar para passarem despercebidos.

Não é nada difícil compreender sua presença em momentos únicos entre as duas mulheres. Com a sugestividade das cenas citadas, a obra desnuda – ainda que não queira - o desejo delas de não serem “vistas”, de não chamarem atenção, de se misturarem nas águas desse mar em que todas as espécies coabitam.

O polvo, que pode parecer até mesmo nojento, não está ali à toa, assim como todos os elementos criados no entorno de Elisa e Marcela. Ele representa a necessidade de troca, mudança para encontrar espaço e também a sensualidade entre elas.

Isabel Coixet, quando perguntada sobre a razão do molusco na trama, respondeu:

Eu precisava de referências sexuais que não fossem masculinas. E eu adoro polvos. Só não os levo para cama. E também recordei as ilustrações do japonês Katsushika Hokusai”.

O pintor e gravurista japonês Hokusai (1770-1849), autor de “A Grande Onda de Nakagawa”, mundialmente famosa, trabalhava temas eróticos. É dele “O Sonho da Mulher do Pescador”, em que a figura feminina aparece com um polvo enredado libidinosamente ao seu corpo.

DE OLHO NO SET

A cineasta espanhola levou dez anos até encontrar na Netflix a oportunidade de realizar seu filme.

Por ser em preto e branco, com uma história considerada inverossímil, ainda que verdadeira, os produtores negaram-lhe apoio.

No Festival de Berlim, ano passado, 160 exibidores exigiram a retirada do filme da disputa oficial. Justificativa: “O festival defende a tela grande, a Netflix, a pequena”.

Na imagem abaixo #másmujeres, hashtag que a cineasta e as atrizes empunharam durante o festival.

Isabel Coixet é diretora de Minha Vida Sem Mim (2003), A Vida Secreta das Palavras (2004), Ninguém Deseja a Noite (2015) e A Livraria (2017), entre outros. Este último consta no catálogo da Netflix.

Fotos Divulgação/Netflix

Eulália Isabel Coelho é jornalista, professora de cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com