Caxias do Sul 28/09/2021

O desafio de levar Virginia Woolf para as telas

Com obra complexa que mergulha no feminino e na solidão, autora tem raras adaptações cinematográficas
Produzido por Eulália Isabel Coelho, 27/03/2021 às 08:47:45
Foto: LUIZ CARLOS ERBES

Por Eulália Isabel Coelho

“Amar nos faz solitários”

(“Mrs. Dalloway”)

No frescor dos 20 anos li meu primeiro livro de Virginia Woolf (1882-1941), “Orlando” (1928). Fui arrebatada. Sua escrita fascinante capturou-me os sentidos e o destino do personagem fez brilhar em mim conflituosas emoções. O duplo sexo, a ambiguidade de gênero, a juventude em mais de três séculos, que genial era aquela escritora!

Depois, no decorrer da vida, li outras obras, como “Mrs. Dalloway” (1925), “Ao Farol” (1927) e “Entre os Atos” (1941), publicado postumamente. Leituras que exigiram plena dedicação e um olhar de desapego ao mesmo tempo. A multiplicidade e a diversidade humanas em Virginia desalocavam minhas certezas.

A mais profunda emoção, no entanto, não foi a literatura virginiana em si, ou as raras transcrições de suas obras para o cinema. Aconteceu em 1994, quando vi seus manuscritos no British Museum, em Londres. A letra, as anotações, as palavras riscadas trocadas por outras, tudo era uma mistura de deslumbre e descoberta. Foi como estar em um filme, desses que nos atravessam o ser.

Virginia, que perscrutava a alma e a existência humana através de sua escrita, trouxe o feminino e a condição da mulher para suas páginas. A infelicidade, a solidão insolúvel, em um fluxo narrativo excepcional, o da consciência, tornou-se famoso em “Mrs.Dalloway”, a dúbia personagem, sofisticada, solitária e sonhadora.

Virginia Woolf e Nicole Kidman, sua intérprete na tela

Diante dessa profundidade, como adaptar suas obras ao cinema sem perder os traços distintivos de suas narrativas psicológicas e intimistas? A dificuldade talvez explique por que existem pouquíssimos filmes a partir dos seus livros ou sobre sua vida atribulada por intermitentes períodos depressivos que a levariam ao suicídio.

Sobre a transposição/adaptação literatura/cinema, o estudioso francês J.M Clerc explica que há “um repensar da obra sob dois ‘cenários’: o original e o adaptado”. Segundo ele, os dois “cenários” estão “em universos diferentes e cada um traz, na sua essência, peculiaridades estruturais tais como forma, linguagem e conteúdo. Todos estes elementos dialogam entre si”.

Assim, o texto cinematográfico é estruturado na poética do sistema fílmico. Ainda que diretamente ligado à escrita literária, possui “um caráter autônomo com sua linguagem, suas microestruturas e convenções”.

Ao adaptar um romance a ordem é captar a gênese da prosa numa proposição diversa do texto original. Nesse contexto, traduzir a escrita virginiana para a tela é desafio que encontra na linguagem fílmica sua nova roupagem. Apenas três de seus livros foram roteirizados, sendo o primeiro uma versão televisual inglesa de “Ao Farol”, em 1983.

Vanessa Redgrave dá vida a Mrs. Dalloway

Mrs. Dalloway (1998), era tido como um dos mais improváveis para adaptação cinematográfica por sua complexidade. Amarrado no transbordamento emocional da personagem título e em suas digressões temporais e psicológicas, o livro chegou às telas pelas mãos da cineasta holandesa Marleen Gorris e da roteirista Eillen Atkins.

A proposta é considerada como bem sucedida pela crítica, apesar de falhar ao afastar-se do monólogo interior, escolhendo o off e flasbacks (às vezes abruptos) para contar sua história. Vanessa Redgrave interpreta a protagonista com habitual perfeição. Sua presença na tela vale o filme.

Orlando (1992), dirigido pela inglesa Sally Potter, igualmente complexo no escopo virginiano, ganhou sua representação em capítulos. Os temas bissexualidade e homossexualidade aparecem com seus plurissignificados na atuação andrógina de Tilda Swinton, sempre uma preciosidade a ser admirada. O protagonista, que nasce homem e mais tarde descobre-se mulher, permitiu à atriz trabalhar toda a sua versatilidade.

No caso de Orlando, percebe-se que por mais complexa que seja a fonte inspiradora ela é adaptável. É a sensibilidade do cineasta, aliada à competência, que deixam transparecer na tela o que a autora imprimiu em seu livro. O filme de Potter não tenta ser uma mera adaptação, é uma nova construção narrativa tornando-se autônoma em relação à obra literária.

Orlando em sua versão masculina...

…e na pele de mulher por Tilda Swinton

A obra cinematográfica mais conhecida e que traz Virginia como personagem é As Horas (2002). A adaptação do livro homônimo de Michael Cunningham, dirigido por Stephen Daldry, insere a autora em uma das três camadas esculpidas no filme.

A vida de duas outras mulheres vividas por Meryl Streep e Julianne Moore, em tempos distintos, está vinculada à escritora através do romance “Mrs. Dalloway”. O longa traduz com esmero os anseios, os temores e a inexorável solidão feminina. Tema tão caro a Virginia.

Cunningham, ganhador do Pulitzer, recorreu à intertextualidade em seu livro, com referências que pareciam inicialmente inviáveis se redimensionadas na tela. No entanto, sua escrita encontrou espaço no cinema e garantiu a Nicole Kidman o Oscar de Melhor Atriz por sua interpretação de Virginia Woolf.

Meryl Streep interpreta Clarissa Vaughan

Julianne Moore no papel de Laura Brown

Mais recentemente, Vita e Virginia (2018), sob direção da inglesa Chanya Button, expõe o caso de amor da escritora com a aristocrata Vita Sackville-West, poeta, romancista e paisagista. Dessa vez, é uma adaptação do teatro para as telas, inspirada nas cartas de amor trocadas entre as duas. A peça foi escrita pela própria Chanya com a colaboração de Eileen Atkins.

O filme não foi bem sucedido por manter o tom teatral. A falta de química entre as personagens interpretadas por Elizabeth Debicki (Virginia) e Gemma Arterton (Vita) colabora para que a obra, ao não tirar os pés do palco, torne-se ineficaz como cinema. A relação afetiva real entre as duas literatas resultou na criação do romance “Orlando”.

Cena de Vita e Virginia, do teatro ao cinema

DE OLHO NO SET

A Room of One's Own (1991), dirigido por Patrick Garland (1935-2013), com Eileen Atkins, é um show para TV baseado nos escritos de Virginia Woolf.

Quem Tem Medo de Virginia Woolf, longa de 1966, com Elizabeth Taylor e Richard Burton, nada tem a ver com a escritora. Dirigido por Mike Nichols, o filme tenso se passa em uma noite de revelações entre dois casais. Liz Taylor ganhou o Oscar por sua atuação.

Você pode assistir ao filme Mrs. Dalloway legendado AQUI

Assista ao trailer de Orlando sem legendas AQUI

Assista ao trailer de As Horas sem legendas AQUI

Assista ao trailer de Vita e Virginia legendado AQUI

Para conhecer um pouco mais sobre a escritora, acesse o minidocumentário A Vida de Virginia Woolf AQUI

Eulália Isabel Coelho é jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica, especialista em cinema e escritora

mail bibacoelho10@gmail.com

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