Caxias do Sul 30/10/2020

Mulheres que dançam com as borboletas

Minha amiga representa uma multidão de mulheres, faz parte de uma geração que viveu muitas mudanças
Produzido por Marilia Frosi Galvão, 15/10/2020 às 07:53:48
Foto: ARQUIVO PESSOAL

Eu tenho uma amiga que está se achando a bola da vez, só porque ela continua aqui. O mundo não acabou em 2000, e agora, em 2020, pensa que continua revolucionária, reinventando a maturidade. Foi lagarta a vida inteira, agora quer ser borboleta.

Diz que não tem mais tempo para perder tempo, amanhã pode ser tarde demais, está atenta a tudo, inquieta, continua bem disposta, perdeu algumas ilusões, mas se orgulha pelo que conquistou, e nunca se esquece de quem ela é. Sentir-se apaixonada, seja por pessoas, por leituras, por encontros culturais, é o seu combustível.

Afinal, quem é essa minha amiga?

Não vou nomeá-la, porque ela representa uma multidão de mulheres, faz parte de uma geração que viveu muitas mudanças – a geração Baby Boomers – ou a explosão de nascimentos pós-guerra, entre 1946 e 1964. É, os soldados sobreviventes voltaram para casa ... As mulheres dessa geração são mães da Geração X e avós da Geração Y e parte da Geração Z , ou Millennials, nativos digitais.

Elas lutaram por causas sociais, debateram sobre o papel da mulher, pela liberdade e igualdade de gênero, raça, direitos, salários, quebraram barreiras políticas e continuam ativas. Vivenciaram as “Diretas Já” e a Ditadura no Brasil enquanto jovens adultas. Geração contestadora. Saíram de casa para morarem sozinhas – paz, amor e sexo livre, por causa da grande descoberta – a pílula anticoncepcional.

Minha amiga, desde adolescente, ama os Beatles e outros astros do rock and roll. Falar nisso, conta que, em uma sessão da tarde, em que ela assistia ao filme dos Beatles“A Hard Day’s Night”, havia um rapaz lindo, de olhos verdes, alto e magro, que se apaixonou pelo jeito dela rir sacudindo os ombros. Era nos anos sessenta. Anos dourados para alguns. Anos rebeldes para outros.

Longos cabelos castanhos passados a ferro, literalmente. Ahaha. E tudo pela primeira vez: acne no rosto, o primeiro soutien (dizia-se corpinho), o primeiro sapato de salto (salto brotinho), as primeiras paqueras (era flirt – flertar – aqueles olhares sem fim). E a vida seguiu, com altos e baixos que influenciaram essa geração. A construção do Muro de Berlim. Os bailinhos de garagem. As roupas feitas pelas costureiras. A turma da escola. A competição com as colegas – quem lia mais? A minissaia. As botas brancas. A Guerra do Vietnã. Os gibis, as revistas de fotonovelas. Yuri Gagarin, primeiro homem a pisar na Lua. Woodstock – festival de música (1969).

Cinema com namorado, só se um irmão fosse junto, o “chá-de-pera”. Os namorados não tinham automóveis. Não havia motéis. Casava-se virgem. O “querido diário”. E... se fosse relatar tudo o que minha amiga viveu, este texto seria um romance.

Anos setenta. Mudanças culturais e revolucionárias. Embalos de sábado à noite. Década de grandes movimentos. Guerra fria. Festivais de música MPB. Ah, ganhou um toca-fitas do namorado e curtia Vinícius, Toquinho, Tom Jobim. Auge da ditadura. Anos de chumbo. Revolução sexual – surgiu a pílula anticoncepcional. Onda hippie. ABBA. Paz e Amor. Fim da guerra do Vietnã. Calças boca de sino. Óculos iguais aos de Johnn Lennon. Nova onda feminista. Os homens também deveriam lutar pelos direitos das mulheres.

Ora, enquanto isso, Beatles forever. Rolling Stones... Lenços coloridos nos cabelos, batom sempre. Censura máxima no país. Tudo era proibido. Curtiu o Jornal Pasquim, tinha um fusca amarelo, com os pneus rebaixados e os vidros de trás em forma de bolha. Concluiu a faculdade – Curso de Letras. Casou. Um casal de filhos. Construiu uma carreira no magistério. E muitos anos se passaram, pois tudo é transitório.

A inspiração para falar dessa minha amiga surgiu após a leitura do livro – “Minhas Amigas”, de Joaquim Ferreira dos Santos. São cem relatos afetivos iniciados pela frase: “Eu tenho uma amiga que...” e ele conta, num estilo bem-humorado, algumas situações inusitadas vivenciadas por suas amigas.

Agora, falando por mim, gostei demais dessa possibilidade de inspirar-me e conduzir reflexões e relembrar fatos sobre esta geração. Sim, somos a geração da vez, somos maduras, possuímos uma renda, fruto de muito trabalho, estamos nos tornando visíveis, conselheiras, somos empresárias, escritoras, advogadas, doutoras, donas de casa, professoras, artistas, bancárias... Enfim, causamos impacto na economia. Tivemos influências, porque acompanhamos de perto as mudanças sociais das décadas de 60 e 70.

Foi o que aconteceu com as Baby Boomers.

Hoje, minha amiga não usa mais saltos altos, a não ser em ocasiões especiais, mas o batom, sempre. Os longos cabelos castanhos de outrora agora estão curtíssimos e grisalhos. Ainda mexe os ombros quando ri (talvez para aliviar a dor causada pela artrose na cervical). Tem uma relação difícil com as tecnologias digitais, pede ajuda aos filhos - Geração X e à neta da geração Z.

Trocou a pílula pela reposição hormonal. Continua amando os Beatles. Aquele, já não mais tão lindo rapaz de olhos verdes, ela o vê raramente, por acaso. Lamenta que o mundo seja machista. Ainda defende os direitos de igualdade e liberdade. Embora esteja mais seletiva, ainda não aprendeu a dizer não. Ela tem defeitos e qualidades como qualquer pessoa...

Mas, quando lê os sinais do universo, o céu, lê as flores, as pessoas e os livros, minha amiga deixa de ser a lagarta, abre as asas e voa, e dança com as borboletas, e arrisca-se a sonhar. A experimentar. A descobrir.

Ah, essa minha amiga.

Marilia Frosi Galvão, professora, escritora e cronista

mail galvao.marilia@hotmail.com

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